Em João Pessoa, uma iniciativa vem transformando vidas por meio do esporte e da inclusão. Trata-se da escolinha paralímpica vinculada ao Centro de Referência Paralímpico da capital, um projeto desenvolvido pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) que busca democratizar o acesso às modalidades adaptadas e revelar novos talentos.
Na capital paraibana, as atividades acontecem em dois espaços relevantes. Um deles é a pista de atletismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que oferece estrutura adequada para treinamentos e iniciação esportiva. O outro é o Instituto dos Cegos da Paraíba Adalgisa Cunha (Icpac), instituição que se tornou referência no atendimento e inclusão de pessoas com deficiência visual e que, desde 2021, é oficialmente um Centro de Referência Paralímpico (CRP).
A proposta funciona em duas importantes dimensões. É a porta de entrada para o universo do paradesporto, onde crianças, adolescentes e adultos com deficiência têm a oportunidade de vivenciar, muitas vezes pela primeira vez, práticas esportivas adaptadas, em um ambiente acolhedor e estruturado. Mais do que formar atletas de alto rendimento, o projeto prioriza a inclusão social, o desenvolvimento motor e o fortalecimento da autoestima dos participantes.
Com o passar do tempo, os técnicos vão percebendo as maiores potencialidades e orientando também na formação de novos atletas que podem atingir o alto rendimento, buscando trazer resultados importantes para o esporte brasileiro, a partir de carreiras que podem ainda gerar oportunidades melhores de vida para os atletas e para as suas famílias.

- Projeto é a porta de entrada para o universo do paradesporto, onde crianças com dificuldades têm acesso às práticas esportivas
É o caso de Ararrubia Alonso e da sua filha, Hilary Esmeralda, que são de Itabaiana. Atualmente, Ararrubia mora em João Pessoa para investir na carreira da filha, um dos grandes talentos do arremesso de peso do país, aos 18 anos. O início, no entanto, não foi simples. O que evidencia a importância de estruturas de formação esportiva como a financiada pelo CPB e comandada por Pedro Almeida, consagrado técnico de atletismo, na UFPB.
“Nós somos do interior. A primeira oportunidade que Esmeralda teve, infelizmente, não foi muito legal, porque foi com um técnico que não tinha um bom trato. Aí conhecemos Pedrinho [técnico e coordenador da escolinha] e tudo mudou. Esmeralda chegou aqui de uma forma, tímida, cabisbaixa. Então o Pedrinho conversou comigo e disse que ela ia ficar. Me disse: ‘Mãe, eu prometo à senhora que, daqui a três meses, sua filha vai ser outra pessoa’. E, com um mês, minha filha já era outra pessoa”, relembra.
Esmeralda hoje é uma das principais atletas brasileiras da modalidade e é recordista brasileira na sua categoria. Ela ressalta como se sente bem em viver neste mundo esportivo e destaca a importância da escolinha na sua formação como atleta e também na construção de sonhos. “É muito bom estar aqui treinando. Gosto muito de competir também. Quero muito disputar competições importantes e ser convocada para a Seleção Brasileira. Sonho com os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028 e com o Parapan. Estou aqui desde os meus 14 anos”, comentou a atleta.
Interiorização do esporte
Os centros de referência fazem parte de uma estratégia nacional do CPB para expandir o esporte paralímpico em todo o país, utilizando parcerias com instituições locais e oferecendo desde a iniciação até o treinamento de alto nível. Nesse contexto, a escolinha em João Pessoa cumpre um papel fundamental ao aproximar a comunidade do esporte e ampliar as possibilidades para pessoas com deficiência.
O coordenador do trabalho na UFPB é Pedro Almeida, o Pedrinho, treinador dos medalhistas olímpicos Petrucio Ferreira e Cícero Nobre. Na pista de atletismo da instituição federal, a palavra de ordem é “inclusão”. São atletas paralímpcos profissionais, corredores amadores, pessoas que moram nas proximidades da universidade e jovens atletas iniciando no paradesporto e construindo sonhos, todos juntos no mesmo ambiente, convivendo em admirável harmonia.
Na estrutura da UFPB, são oferecidas todas as modalidades de atletismo, como lançamentos de dardo, de disco e de peso, além das provas de velocidade e os saltos. Acostumado a edificar conquistas de medalhas no alto rendimento, Pedrinho explica que alcança também o ouro quando contribui com a melhora de vida de pessoas com deficiência que chegam até ele com um horizonte meio turvo e que conseguem, a partir do projeto, encontrar maneiras de resinificar sentidos.
“Se você visse como chegaram algumas crianças e como essas crianças estão hoje... Você não tem ideia da minha satisfação. Só quem sabe o quanto que ele evoluiu sou eu, os professores, eles e os pais. Tudo o que os pais querem é que os filhos possam dispor de qualidade e de pessoas capacitadas e com disposição para ajudar na formação dos filhos. Fazer parte disso não tem preço. E é a contribuição do alicerce, aquilo que eles levarão para o resto da vida. Nem todos têm condição de atingir o alto rendimento, mas proporcionar uma vida melhor para eles, para mim, já é uma medalha de ouro”, comenta Pedrinho.
No Icpac, por exemplo, são desenvolvidas modalidades como golbol, futebol de cinco e bocha. Essa integração entre diferentes espaços amplia o alcance do projeto e permite atender públicos diversos, respeitando as especificidades de cada deficiência.
Mais do que resultados em competições, o impacto maior está na transformação social. A iniciativa promove autonomia, autoestima, inclusão e qualidade de vida, mostrando que o esporte é uma ferramenta poderosa para o sentimento da cidadania estar na ordem do dia. Em João Pessoa, a escolinha paralímpica não apenas revela futuros atletas, mas também ajuda a construir uma sociedade que respeita e convive com as diferenças, como tem que ser.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de março de 2026.