Instruir as Organizações da Sociedade Civil (OSC) das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste para a elaboração de projetos visando à captação de recursos por meio da Lei Federal de Incentivo ao Esporte e combater a desigualdade na distribuição de verbas esportivas no Brasil. Esses são os objetivos norteadores da formação gratuita ofertada pela Rede CT — Capacitação e Transformação, que chega ao terceiro ano em 2026. As atividades terão início amanhã.
A seleção para a formação resultou em 124 OSCs, sendo 50 delas nordestinas (quase 41% do total). A Região Norte teve 30% e a Centro-Oeste, 29%. A Paraíba teve quatro instituições contempladas pela iniciativa: Associação Atlética das Pessoas com Deficiências da Paraíba (AAPD), Escola de Esportes Craques do Futuro, Instituto Luta Pelo Bem e Liga Sousense de Handebol. 
O Projeto CT oferta 32 horas de capacitação estruturada em oito módulos que abrangem desde a introdução ao mecanismo da Lei de Incentivo e elaboração de projetos até a execução, prestação de contas, gestão financeira e comunicação institucional. Além do conteúdo técnico, a formação também traz temáticas como equidade e captação de recursos, com materiais didáticos digitais, encontros virtuais para tirar dúvidas e um ambiente de troca entre as organizações selecionadas.
Para 2026, uma novidade implementada pela Rede CT é a promoção de encontros presenciais nas regiões de atuação. Também serão realizadas novas ações destinadas ao empoderamento feminino em projetos sociais e uma websérie que apresentará a trajetória das organizações participantes.
Liga Sousense
A Liga Sousense foi criada pelo educador físico Caio Vinícius, dois anos atrás. Segundo ele, atualmente, 250 adolescentes e jovens são atendidos pelo projeto, que conta com aulas aos sábados. Além disso, a iniciativa já soma mais de 10 pódios, incluindo um vice-campeonato paraibano sub-21 da modalidade.
“Desde adolescente, eu tinha esse desejo de treinar os meus colegas de sala, meus amigos de time, e, pós-formado em Educação Física, de estar trabalhando na área. Eu vi a oportunidade e a necessidade na minha região de um ‘passatempo’ para essa juventude. Então pensei: por que não colocar o meu sonho de adolescente, hoje em dia, formado, estruturado, para poder ajudar gerações futuras? Na minha época, eu não tinha essa oportunidade, então eu pensei em iniciar”, relembra Caio.
Como todo projeto, a Liga Sousense possui demandas que geram custos, como aquisição de fardamento, materiais de treino e despesas com viagens para competições. Como a participação dos alunos é gratuita, a instituição promove ações para viabilizar o custeio, a exemplo de rifas on-line e cursos de capacitação voltados aos professores da cidade, ofertados a valores simbólicos.
De acordo com o professor, a escolha da modalidade ocorreu por esta apresentar maior receptividade entre os jovens em comparação a esportes tradicionais, como o futebol. Ele ressalta, com orgulho, o impacto social e esportivo alcançado no município e também nas cidades vizinhas.
“Quando eu participava dos Jogos Escolares, havia apenas duas equipes de handebol. Hoje, modalidades como handebol, vôlei, basquete, badminton, atletismo, jiu-jítsu e outras artes marciais estão em ascensão justamente por adotarem uma perspectiva mais acolhedora. Nosso diferencial é abraçar a todos. Quanto mais inclusivas são as práticas, maior é a participação e a visibilidade. Muitas pessoas não se identificavam com o futebol ou o futsal por diferentes motivos e encontraram nesses esportes uma oportunidade. O handebol, especialmente, tem crescido muito, com cada vez mais interessados em praticá--lo”, aponta o educador físico.
“Para você ter noção, desde que eu comecei o meu projeto de handebol, escolas e cidades circunvizinhas, que nunca pensaram em handebol, ao conhecerem o Instagram do meu projeto, vieram para o curso, conversaram com os alunos regulares, começaram a querer a prática e a cultura do handebol”, acrescenta ele.
Mais que um projeto, para Caio, a Liga Sousense é um propósito de vida. “Eu pensei: ‘poxa, posso fazer algo diferente na minha cidade para fazer com que esse pessoal que não se encaixa no futebol pratique também uma modalidade para se sentir incluída e conseguir ter saúde’. Eu sou ex-atleta e árbitro desde os meus 18 anos de idade, consigo ter uma bagagem boa para conseguir ministrar essas aulas. Graças a Deus, o handebol vem crescendo”, destaca.
Formação
O idealizador da Liga Sousense já tinha conhecimento da Lei de Incentivo ao Esporte, mas carecia de orientação mais aprofundada. Ao conhecer a Rede CT por meio das redes sociais, decidiu se inscrever no processo formativo e, por fim, teve seu projeto selecionado para participar da capacitação. Para ele, esta é uma oportunidade crucial
“Eu poderia muito bem trabalhar com futebol, porque teria apoio, eu conseguiria patrocinadores muito mais facilmente. Mas eu escolhi o handebol, modalidade que ainda não é tão conhecida, modalidade que, para uma cidade do interior, é uma modalidade nova, mas isso se tornou a nossa paixão. Acredito que essas aulas, esse curso, venham a agregar no nosso futuro, seja o conhecimento, como também a parte financeira. Hoje em dia, nós temos muitas dificuldades por não termos apoio, então esse projeto é um divisor de água, porque vamos estudar, vamos nos capacitar, fazer amizade, fazer networking, para conseguir usufruir da Lei de Incentivo ao Esporte”, assegura o professor sousense.
Ele também ressalta a importância da iniciativa para atenuar os efeitos da histórica desigualdade na distribuição de verbas esportivas no país, um dos fatores responsáveis pelo enfraquecimento das instituições das regiões Nordeste e Norte.
“O que me chamou a atenção foi que eu não sabia que o Norte e o Nordeste é para onde vem menos aporte. Mas por que, já que tantas pessoas, até no âmbito do futebol, são nordestinas? Tantas estrelas são do Nordeste, seja no futebol, no handebol. Temos um celeiro magnífico a nível esportivo, cultural, educacional, e por que esse apoio não está chegando à gente? Porque está muito mal distribuído. E foi isso que me cativou e cativou o projeto: saber que existem pessoas que estão querendo cuidar da nossa educação, da nossa cultura e do nosso esporte”, inicia ele.
“Para mim, que sou de uma cidade no interior da Paraíba, é de suma importância que eu tenha esse conhecimento para poder galgar caminhos maiores e, assim, conseguir não somente aporte financeiro, mas também que os meus alunos tenham sonhos realizados. Sonho de jogar campeonatos, de ter a melhor quadra da minha cidade para poder utilizar, de ter o melhor material, que eles veem o pessoal de São Paulo utilizando e que eles também querem utilizar. A gente pode e deve chegar lá. Então esse conhecimento, esse projeto de formação, literalmente, vai transformar a nossa vida, vai transformar o nosso projeto, fazendo com que a gente possa subir de grau em grau até conseguir chegar a caminhos maiores”, conclui Caio Vinícius.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de março de 2026.