Uma operação policial desmantelou o “império” do maior fornecedor de drogas da Paraíba e de parte do Sertão de Pernambuco e do Ceará. O paraibano Jamilton Alves Franco, conhecido como “Chocô”, foi preso em um condomínio de alto padrão no município de Hortolândia (SP), onde morava. Até o fim da manhã de ontem, quando a força-tarefa foi deflagrada, outras 25 pessoas haviam sido presas, sendo 19 na Paraíba.
A chamada “Operação Argos” cumpriu mandados em 13 cidades: além de João Pessoa, Campina Grande, Areia, Alagoa Nova, Patos, Pombal, Sousa e Cajazeiras, em território paraibano, a iniciativa incluiu diligências nos estados de São Paulo (em Hortolândia, São Bernardo do Campo e na capital), na Bahia (Cândido Sales) e no Mato Grosso (Nova Santa Helena). Foram emitidas 44 ordens judiciais de prisão preventiva — sendo 32 na Paraíba e 10 em São Paulo — e 45 de busca e apreensão.
Também houve o bloqueio de mais de R$ 104 milhões em contas bancárias de 199 alvos, assim como o sequestro de 13 imóveis de luxo e de 40 veículos — incluindo carros esportivos e frotas de transporte —, avaliados em mais de R$ 10 milhões.
A investigação foi iniciada em 2023, após um recorde de apreensões de drogas que levou a Polícia Civil da Paraíba (PCPB) a identificar que todos os entorpecentes pertenciam a Jamilton. Natural de Cajazeiras, no Sertão, ele migrou para São Paulo ainda criança e lá, após ter sido detido, teria estabelecido, dentro do sistema prisional, conexões com a cúpula da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que se tornaria responsável por ditar as diretrizes operacionais e disciplinares de sua facção. A partir disso, conforme apurado pela PCPB, Jamilton obteve a logística necessária para se tornar o principal distribuidor de maconha e de cocaína para o Nordeste, obtendo rápida ascensão financeira e passando a ostentar um alto padrão de vida e bens luxuosos. Estima-se que o esquema tenha movimentado R$ 500 milhões desde 2023.
“Foi feito um trabalho exemplar dos nossos investigadores e delegados, para mostrar, ao Ministério Público e ao Judiciário, todo o organograma financeiro do crime, que acabou desaguando nesse grande traficante de drogas. É um cara que está na alta cúpula da maior facção de drogas do Brasil”, afirmou o delegado Victor Melo, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco) da PCPB, durante uma coletiva de imprensa sobre a Operação Argos — promovida ontem, na Cidade da Polícia Civil, em João Pessoa. Participaram da entrevista, ainda, o diretor de operações do órgão, Carlos Othon, e o superintendente regional da PCPB, Cristiano Santana.
O representante da Draco explicou que Chocô não lidava diretamente com as drogas, encarregando-se apenas de organizar a logística de transporte e distribuição da carga ilegal, que vinha, em grande parte, de países como Bolívia, Paraguai e Peru.
Grupo possuía núcleos de logística e finanças
Segundo o delegado Victor Melo, a ideia por trás da Operação Argos é não só prender os criminosos, como também fornecer elementos suficientes à Justiça para “conseguir sufocar até a morte”, do ponto de vista financeiro, o esquema milionário de tráfico.

- Diligências incluíram a apreensão de imóveis e carros de luxo; estima-se que a facção movimentou R$ 500 milhões desde 2023 | Foto: Divulgação/PCPB
As apreensões que pavimentaram o desenvolvimento das apurações somam prejuízos de mais de R$ 100 milhões para o grupo-alvo da força-tarefa. Em maio de 2023, por exemplo, foram recolhidos 150 kg de cocaína em Patos, no Sertão paraibano, equivalendo à perda de R$ 27 milhões para a organização criminosa. Em outubro do mesmo ano, a retirada de circulação de uma tonelada de drogas no município de Conceição resultou num prejuízo de R$ 46 milhões. Diversas outras apreensões ocorreram durante o período.
A organização liderada por Jamilton estruturava-se em setores distintos, com dezenas de integrantes. O núcleo de São Paulo funcionava como o “cérebro” da facção, encarregando-se do controle estratégico, financeiro e logístico — incluindo o uso de carretas de empresas transportadoras para camuflar drogas em cargas lícitas ou veículos de apoio. Já os subnúcleos da Paraíba correspondiam ao “corpo” da organização, responsável pelo varejo operacional, pela capilaridade territorial e pela arrecadação bruta, encaminhando a droga para o consumidor final. Esses grupos menores estavam distribuídos nas cidades de Cajazeiras — o maior deles, com 12 membros —, Pombal, Sousa, Patos, Campina Grande e João Pessoa (de onde era feita a distribuição para o litoral).
O dinheiro obtido com o crime era lavado, principalmente, por meio de empresas de fachada, que chegaram a se infiltrar em licitações públicas. Para isso, como apontou a PCPB, o grupo contava com a atuação de Giovanna Parafatti, ex-bancária com profundo conhecimento do sistema financeiro; e Naiara Batistelo, médica formada na Bolívia, que atuava no Mato Grosso e servia como “laranja financeira”.
Em Pombal, identificou-se que a empresa AF Amaro Construções recebeu quase R$ 3 milhões em empenhos públicos, em 2024, para serviços de esgoto e lixo, sem possuir funcionários registrados. O dinheiro público era usado para irrigar o tráfico de entorpecentes, cujo principal operador no estado, conforme as autoridades, era Luciano Moraes — outro acusado que foi detido ontem. Boa parte da lavagem de dinheiro em Pombal decorria da venda de veículos.
Empreitada pode ter novas etapas, informa delegado
A investigação sobre o caso continua, inclusive para a averiguação de possível participação de funcionários públicos no esquema. De acordo com Victor Melo, a PCPB avalia, ainda, a possibilidade de desdobramento da Operação Argos em outras fases.
“Foi coletado um material probatório gigantesco, que vai ser trabalhado dentro da delegacia para reforçar o que a gente já apresentou ao Judiciário, para poder chegar a um relatório de indiciamento. E, se forem constatados mais indícios de outros crimes e outros suspeitos, será aberto um novo inquérito policial”, disse o delegado.
A ofensiva de ontem mobilizou um efetivo histórico de mais de 400 policiais civis e contou com o suporte do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público da Paraíba (MPPB); e forças especializadas da PCPB, como o Grupo de Operações Especiais (GOE), o Grupo de Operações com Cães (GOC), a Unidade de Inteligência Policial (Unintepol), a Coordenação das Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (Coordeam) e as Delegacias de Repressão a Entorpecentes (DRE) de João Pessoa e de Campina Grande.
A empreitada também recebeu o apoio das Polícias Civis de São Paulo (PCSP), da Bahia (PCBA) e do Mato Grosso (PCMT).
Mitologia
O nome da operação remete ao gigante da mitologia grega Argos Panoptes — um guardião de 100 olhos que nunca dormia totalmente —, apontado pela PCPB como figura simbólica da atuação policial no caso; diante da complexidade de uma organização com ramificações em diferentes estados, a instituição mantém os “olhos abertos”, monitorando o crime organizado para agir com precisão.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de fevereiro de 2026.