Durante muito tempo, a rotina de Mariana (nome fictício) envolvia acordar e tomar um Dorflex junto com o café da manhã. Acostumada a sentir dores, ela começou a se automedicar. Tal prática é comum entre a população, mas pode trazer diversos riscos à saúde, principalmente se houver excessos — como no caso de Mariana, que chegava a ingerir analgésicos todos os dias.
“O uso inadvertido de analgésicos, sem orientação, pode ocasionar vários danos no nosso organismo, como úlceras gástricas e intestinais, danos renais, constipação, reações alérgicas, danos ao fígado, entre outras situações graves”, afirma o médico gastroenterologista Sávio Florentino Pereira.
Já a médica e educadora física Clarissa Rios lembra que, além dos danos à saúde, também há o risco de dependência comportamental e física. Outra ressalva ao uso inadvertido é que, sem investigar a causa da dor, a situação pode acabar se agravando, já que a origem do problema não está sendo tratada e o analgésico apenas mascara os sintomas.
Mariana acredita que acabou se tornando dependente dos medicamentos. Ela lembra que costumava ter crises de enxaqueca constantes e que, por isso, começou a abusar dos analgésicos. “Hoje eu sei que [a dor] tinha muito a ver com hábitos de vida, principalmente a má alimentação, e até o calor extremo que eu passava na universidade era um gatilho importante. Aí, essas crises foram começaram a ser constantes, e eu acabava tomando o analgésico já para evitar uma crise. Então, muitas vezes, eu simplesmente tomava e comecei a tomar todo santo dia”, relatou.
Foi só quando procurou um neurologista para tratar a enxaqueca que as crises diminuíram. Ela também descobriu que tem endometriose e está investigando uma possível fibromialgia, todas doenças crônicas que causam dores. Se ficasse apenas tomando analgésicos, sem procurar ajuda médica, ela não teria descoberto essas condições.
Recentemente, Mariana teve uma crise de gastrite muito intensa, que atribui ao uso constante de remédios para a dor, embora não tenha conversado com os médicos sobre isso. “Eu tenho muita vergonha de falar sobre isso, e, mesmo nesse momento que eu estou tomando coragem, não conto para os meus médicos”, admite.
Mariana também passa por acompanhamento psicológico e psiquiátrico para lidar com a questão. “Admiti o uso da medicação para a minha psicóloga, que eu já estou há dois anos com ela. Inclusive, eu não tinha coragem de falar antes. Ela é que foi fazendo as perguntas, tentando me levar a ser mais a ser sincera. E, enfim, eu vi a cara dela de preocupada comigo”, desabafou, acrescentando que, no momento, vem reduzindo a quantidade de medicamentos ingeridos.
Hábitos saudáveis reduzem demanda por remédios
O jornalista Ray Santana também desenvolveu gastrite e refluxo, e acredita que os problemas podem estar relacionados ao uso indiscriminado de analgésicos. Segundo ele, sua rotina envolvia tomar os remédios, no mínimo, duas vezes por semana.
Ray conta que, na época em que possuía esse hábito, costumava sentir dores de cabeça e dores musculares. “Tomava [o analgésico] em casa para tentar resolver de forma mais rápida, sem precisar gastar muito tempo a procura de um médico”, apontou.
Ele começou a perceber, no entanto, que estava ficando “viciado”, com a sensação, inclusive, de que os remédios não faziam mais tanto efeito quanto antes. “Em uma tentativa de me reeducar, busquei reduzir o uso de remédios e voltar a insistir com dosagens mais baixas”, contou.
Ele ressaltou, porém, que as dores diminuíram muito com a adoção de melhores hábitos. “Na época, eu também era super sedentário. Hoje em dia, tenho hábitos melhores, rotina de treinos equilibrada, melhor alimentação, vou com frequência ao médico para check-up. Acho que, no fim, era mais a vida sedentária e a rotina mal administrada e, com isso, eu estava me automedicando sem necessidade”, avaliou, acrescentando que os problemas estomacais também desapareceram.
A dona de casa Rejane Araújo, por outro lado, sempre preferiu evitar os remédios o máximo possível, até porque tem alergia a algumas substâncias. “Evito tomar, porque sei que [o excesso] é prejudicial à saúde do fígado e de outros órgãos, e também porque tenho alergia ao ácido acetilsalicílico, à dipirona e a anti-inflamatórios. Prefiro tomar chás, mas também com cautela, só tomo quando necessário”, expõe.
Sávio Florentino destaca, contudo, que, apesar de ser uma prática mais segura, o consumo além do necessário de alguns chás também pode ocasionar danos ao corpo, principalmente ao fígado. “O ideal é sempre consumir em pequenas quantidades ou procurar um serviço médico a fim de descobrir a causa da dor”, orienta.
O médico também esclarece que cada fármaco tem sua dose máxima a ser ingerida, com indicações e contraindicações específicas. “O ideal é sempre procurar orientação médica a fim de evitar excessos. Doses altas nem sempre são necessárias para que a dor seja resolvida. Às vezes, o problema está no analgésico que se está usando”, argumenta. Já a médica Clarissa Rios lembra que uma dose elevada de analgésicos também pode causar cefaleia de rebote, ou seja, mais dor de cabeça, piorando a situação ao invés de ajudar.
Para quem sofre com dores crônicas, a prática de exercícios físicos, a regulação do sono e ajustes na alimentação podem ajudar a reduzir a necessidade de remédios. Em alguns casos, ainda pode ser indicado o uso de medicamentos que atuam como neuromoduladores, conforme explica Sávio.
“Eles atuam na diminuição da capacidade de o paciente perceber a sensação de dor. Tais medicações são de uso restrito e precisam ser prescritas em receituário especial, sendo obrigatório o acompanhamento do seu uso por um profissional médico”, completa.
Para o especialista, o mais importante é lembrar que a dor é um aviso de que algo está errado. Além disso, medicar apenas o sintoma nunca é a melhor solução. Clarissa Rios concorda. “Eu trabalho muito na lógica preventiva, então, entendo a dor como um sinal, não um inimigo a ser silenciado continuamente”, finaliza.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de maio de 2026.