A paixão aflorada pelo futebol e o prazer de completar os álbuns de figurinhas, populares em anos de Copa do Mundo, podem estar por trás da intensificação de um problema ambiental de difícil solução: ao colar uma figurinha em álbuns como os do Mundial, automaticamente descarta-se o papel onde o adesivo vem colado. O liner, que reveste o verso das figurinhas, é composto por uma base (normalmente de papel) e por polímeros, mistura que dificulta seu processamento na reciclagem comum.
Com cada vez mais pessoas preenchendo os álbuns, têm circulado nas redes sociais alertas sobre o acúmulo desses papéis, que são siliconados e não devem ser descartados no lixo comum, para evitar que o material acabe indo para os aterros sanitários — agravando a poluição do meio ambiente — e nem no reciclável, já que a reciclagem convencional não é capaz de processar as fibras para que o material seja reaproveitado.
Fica por conta dos adeptos dos álbuns, reunidos em condomínios, escolas, e nas suas vizinhanças, o trabalho de juntar todo esse material e dar a ele a destinação adequada. O questionamento que surge é: como se dá a viabilidade deste processo de logística reversa?
No Brasil, a empresa Polpel Fibras, localizada em Guarulhos, São Paulo, é conhecida por ser capaz de separar as fibras do material, possibilitando o seu retorno à cadeia produtiva. Apesar de ter uma campanha em curso e parcerias no seu estado de origem, a empresa não desenvolveu, nem apoia diretamente, estratégias nacionais para executar a logística reversa. Ou seja, para quem está fora de São Paulo, a conduta orientada pela Polpel é o envio do material coletado pelos correios, até o fim de julho, para o endereço da empresa. Na Paraíba, iniciativas organizadas podem facilitar soluções locais para a destinação correta desse tipo de papel.
Impacto
O descarte incorreto desses papéis, ou de qualquer material, causa impacto no meio ambiente. A professora do departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Amélia Severino Ferreira e Santos, chama a atenção para a importância do descarte de materiais potencialmente recicláveis para a coleta seletiva, pontos de entrega voluntária (PEVs), cooperativas e associações de catadores de materiais recicláveis.
Quando um material como o dos liners é descartado inadequadamente, de acordo com Amélia, o prejuízo é grande: deixa-se de gerar emprego e renda para catadores de materiais recicláveis; e de poupar recursos naturais. “Serão necessárias novas árvores para produzir mais papel”, lembra. O descarte inadequado quebra a rota da economia circular. Logo, os efeitos são vistos na economia e no aquecimento global. “Fora isso, há impactos relacionados aos resquícios do plástico que persistirão no meio ambiente”, ressalta a professora. Como se trata de produto que contém papel, que é um material biodegradável, seu resíduo decompõe gerando CO2, ou até metano, em condições anaeróbicas (ausência de oxigênio).
Por isso, recomenda-se que os cidadãos façam o descarte adequado de seus resíduos e que os produtores se responsabilizem pelos produtos que comercializam, promovendo a integração da cadeia em favor da economia circular. Além disso, gestores devem atuar como o elo que conecta as atitudes de cidadãos e de empresas responsáveis.
Pesquisa quer melhorar o aproveitamento do papel
“No caso dos liners, existe a dificuldade de separar o material polimérico em relação a reciclagem de aparas convencionais de papel”, pontua a professora. Porém, essa já é uma preocupação da indústria do papel e a demanda tem sido objeto do trabalho de pesquisadores da UFPB e de um grupo do campus de São José dos Campos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com um projeto aprovado no último Edital Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e coordenado pelo professor Maurício Pinheiro de Oliveira. “No projeto, iremos trabalhar com rebarbas do processo produtivo de papel com adesivo, como esses das figurinhas da copa”, descreve Amélia.
A ideia vai além da reciclagem do papel, o objetivo é gerar um derivado de celulose de alto valor agregado. “Vamos trabalhar para separar o resíduo de adesivo e transformar o resíduo de papel em nanocelulose, produzido no mercado internacional com valor de US$/kg”, afirma a professora e pesquisadora.
Articulação
“Uma coisa muito importante é que todos valorizem o papel que os catadores de materiais recicláveis desempenham dentro da economia circular”, destaca Amélia Santos. Nas palavras da professora, o retorno dos resíduos gerados pela população à economia tem sido viabilizado por esse elo da sociedade.
Nesse sentido, articulação das associações e cooperativas de materiais recicláveis com a indústria recicladora pode tornar viável o retorno desse tipo de material para a cadeia produtiva. “Essa é uma pauta para os gestores de resíduos sólidos dos municípios e precisa ser também articulada em conjunto com a indústria”, afirma a pesquisadora, que destaca que ações individualizadas podem ser, por exemplo, concentradas municipalmente junto aos pontos de entrega voluntária.
Se um bairro ou condomínio não tiver coleta seletiva, qualquer cidadão pode procurar uma das várias associações de catadores de materiais recicláveis espalhadas por João Pessoa em horário comercial e, assim, realizar a entrega voluntária dos seus resíduos recicláveis. Elas estão cadastradas no site da Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana (Emlur).
Escola reúne material para a reciclagem
Na capital paraibana, o Instituto Pessoense de Educação Integrada (Ipei), localizado nos Bancários, tem se mobilizado para promover a destinação correta dos liners das figurinhas. “Quando entendemos que esse material exige descarte específico, decidimos transformar isso em uma experiência educativa de cuidado coletivo. Ainda são poucas iniciativas conhecidas, por isso entendemos que é importante ampliar esse debate e a conscientização sobre logística reversa”, contou a gestora de aprendizagem do colégio, Amélia Nóbrega.
Neste primeiro momento, a mobilização acontece dentro da comunidade escolar. “A coleta já foi iniciada na escola. Depois desta etapa, o material será encaminhado [pelo correio]. Estamos dialogando com as crianças e famílias sobre consumo consciente, sustentabilidade e responsabilidade ambiental”, destaca a gestora de aprendizagem.
Para a equipe de gestão da instituição privada de ensino, iniciativas como esta ajudam a ampliar a consciência ambiental não só no ambiente da escola, mas também na comunidade. Amélia enfatiza ainda que a proposta pedagógica do colégio valoriza ensinar sobre o cuidado com o outro, com a cidade e com o planeta. “Pequenas ações ajudam a formar sujeitos mais conscientes, afetivos e responsáveis com o mundo em que vivem”, avalia a gestora escolar.
Mercado
Amélia aponta que a cadeia produtiva das figurinhas poderia se organizar para fazer uma logística reversa do resíduo até o fabricante reciclador. “Primeiro, tem os centros de trocas de figurinhas, setor que poderia facilmente atuar como receptor desse resíduo. E eles conseguiriam agrupar uma grande quantidade”. Com a logística reversa consolidada, de acordo com a pesquisadora, o próprio vendedor se interessa pela coleta. “Então, se você divulgar algo, por exemplo, que deveria haver uma articulação dessa indústria de São Paulo, ou do fabricante das figurinhas, por exemplo, da Panini, com os pontos de venda, para eles coletarem esses resíduos e destinarem para uma cooperativa, em parceria, essa cooperativa conseguiria juntar um volume suficiente para mandar para essa indústria de forma viável”, exemplifica.
O reciclado precisa de mercados para ser valorizado e viabilizado. E é neste contexto, conforme avalia Amélia, que o ônus de um transporte pode inviabilizar o processo. Quando se pensa em expandir para um produto nobre, como a nanocelulose, cria-se um valor para esse resíduo e é gerada uma cadeia que tem demanda. “E é muito mais importante abrir os olhos das pessoas, de que essa é uma solução palpável que pode acontecer, do que você só pôr dificuldades e falar que não comercializa. Porque é isso que acontece hoje em dia com muitos produtos, que são recicláveis, mas regionalmente não tem mercado. E as pessoas não pensam em como articular a cadeia para fazer acontecer a coisa certa”, destaca.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de maio de 2026.