Os estudos científicos acerca dos vestígios pré-históricos encontrados no Monumento Natural Vale dos Dinossauros, na cidade de Sousa, no Alto Sertão do estado, ganharam um novo e importante capítulo. Uma pegada de dinossauro que ainda não havia sido catalogada foi localizada pela equipe de pesquisadores que integram o Projeto de Pesquisa e Preservação do Patrimônio Geopaleontológico e Arqueológico da Bacia do Rio do Peixe. A descoberta foi anunciada na última sexta-feira (10).
O fóssil foi encontrado no geossítio Floresta dos Borba, situado a cerca de 19 km de Sousa. De acordo com o professor e pesquisador Fábio Henrique Cortes, doutor em Paleontologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pegada, que mede 55 cm de comprimento e 63 cm de largura, é a maior pertencente a um dinossauro carnívoro já registrada em todo o Brasil. 
“Nós encontramos, geralmente, ossos dessa espécie na Argentina e na Patagônia, mas não tínhamos identificado, até o momento, uma pegada tão grande dos abelissaurídeos na Bacia do Rio do Peixe. Fazendo a revisão bibliográfica do material que trata sobre as pegadas fossilizadas no Brasil, nosso grupo chegou à conclusão de que é a maior pegada desse tipo de animal no território brasileiro”, apontou o especialista.
Marcada na rocha, a pegada pertence a um dinossauro do grupo dos abelissauros, gênero que se caracteriza por animais carnívoros de duas patas. Pelas dimensões do novo fóssil, os pesquisadores estimam que o dinossauro que deixou a marca histórica media, aproximadamente, 6 m de comprimento.
De fato, até então, só haviam sido localizadas, na Bacia do Rio do Peixe, pegadas de animais de médio porte, medindo de 2 m a 3 m de comprimento. O registro da pegada passa a atestar que grandes dinossauros carnívoros também habitavam a região. O vestígio remete ao período Cretáceo Inferior, da era Mesozóica, há aproximadamente 140 milhões de anos.
Após a descoberta, os cientistas submeteram o fóssil a procedimentos técnicos. “Fizemos uma etapa metodológica de fotogrametria, para gerar o modelo 3D dessa pegada e incluí-la em um acervo digital, junto com todas as outras que nós catalogamos. Isso vai facilitar a pesquisa e a troca de informações entre instituições acadêmicas brasileiras e internacionais”, detalhou Fábio Henrique.
Devido ao fato de a pegada estar dentro de uma propriedade privada, a equipe do projeto de pesquisa desenvolverá uma política de educação patrimonial com os responsáveis pelo terreno, para que eles preservem o fóssil. Além disso, o acesso ao local onde o registro se encontra não ficará restrito: serão instaladas sinalizações e tomadas medidas estratégicas para a preservação do patrimônio.
A Bacia do Rio do Peixe — região do Semiárido que abrange municípios como Sousa, Cajazeiras e Pombal — é considerada um sítio paleontológico de reconhecimento internacional, com pesquisadores brasileiros e estrangeiros desenvolvendo trabalhos científicos na área. Os primeiros registros de pegadas no local datam de 1924, feitos pelo geólogo Luciano Jacques de Moraes.
Projetos avançam com incentivos governamentais
Os estudos desenvolvidos no Vale dos Dinossauros recebem o incentivo da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties) da Paraíba. A iniciativa integra o Complexo Científico do Sertão, que abrange, ainda, o projeto do radiotelescópio Bingo, em Aguiar; a Cidade da Astronomia, em Carrapateira; e o Museu de Arqueologia de Cajazeiras.
Coordenada pelo paleontólogo Fábio Henrique Cortes, a equipe do Projeto de Pesquisa e Preservação do Patrimônio Geopaleontológico e Arqueológico da Bacia do Rio do Peixe é composta pelo arqueólogo João Henrique Rosas, o bombeiro militar e paleontólogo Francisco Fredson de Sousa e o geógrafo Rogério dos Santos Ferreira. “A política de descentralização dos equipamentos de tecnologia e cultura para o Alto Sertão da Paraíba desenvolve esse território, por meio de estratégias de popularização da ciência”, avaliou Fábio Henrique.
“Acho que a gente está em um marco das descobertas em Sousa. E, com esse apoio do Governo do Estado, está sendo possível descobrir outros elementos da vida pretérita que existiu nessa área. É algo bastante impressionante e muito marcante”, acrescentou o professor Ismar de Souza Carvalho, também da UFRJ, que contribuiu com a localização da nova pegada na Bacia do Rio do Peixe.
A expedição que possibilitou a identificação do fóssil ainda contou com o apoio do 6º Batalhão do Corpo de Bombeiros Militar do estado (CBMPB), que proporcionou o apoio logístico às atividades de campo.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de abril de 2026.