Comumente encontrados em mercados públicos e principalmente em feiras livres, é imensa a variedade de lambedores, chás e garrafadas feitos a partir de plantas medicinais. Confiando no conhecimento dos saberes da tradição oral de quem os prepara, o consumo desses produtos objetiva a obtenção de inúmeros benefícios à saúde. Outra opção são os fitoterápicos manipulados em laboratório, também obtidos de matérias-primas vegetais.
Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as preparações pertencentes ao primeiro grupo — não industrializado — são classificadas como produtos tradicionais ou plantas medicinais e não como medicamentos fitoterápicos registrados.
Em março de 2022, o órgão lançou a Cartilha de orientações sobre o uso de fitoterápicos e plantas medicinais, criada para servir como um guia educativo e acessível para a população.
A publicação visa instruir sobre o uso seguro, alertando para riscos de intoxicação e interações medicamentosas; ensinar a diferenciação dos produtos — explicando claramente a distinção entre uma planta medicinal, usada de forma caseira, e um medicamento fitoterápico, que passou por processos laboratoriais e tem registro. A cartilha ainda traz informações sobre a compra, orientando o consumidor a identificar itens regulares, os quais exibem informações obrigatórias nos rótulos, como o número de registro na Anvisa ou a notificação de produto tradicional.
De acordo com Anne Suylan Leal Tomaz, inspetora sanitária da Agência Estadual de Vigilância Sanitária (Agevisa), a responsabilidade de inspeção desses produtos em mercados públicos e feiras de rua compete às vigilâncias sanitárias dos municípios onde o comércio ocorre, enquanto a fiscalização dos itens industrializados incumbe à Agevisa. Contudo, quando a agência identifica fábricas clandestinas ou recebe denúncias de comércio clandestino relacionada a esses produtos, é realizada uma ação fiscalizatória de rotina para removê-los de circulação.
“É importante que se diga que feiras livres e mercados públicos não estão autorizados a vendê-los [como medicamentos]. A venda da garrafada, por exemplo, não possui consentimento do Ministério da Saúde. Todas essas mercadorias devem estar devidamente autorizadas pela Anvisa, seja com notificação ou registro obrigatório — a depender da categoria em que se encontram inseridas; e os estabelecimentos dependem da permissão sanitária do município. O recomendado para o consumidor, ao comprar garrafadas, suplementos ou produtos a granel, é que se peça ao estabelecimento a autorização da agência”, esclareceu a inspetora.
Ainda de acordo com Anne Suylan, algo bastante percebido são os erros de rotulagem. Produtos como chás e lambedores, por não serem medicamentos, não devem conter indicação terapêutica em seus rótulos, para evitar que o usuário seja induzido a erro quanto à real finalidade do produto. “Desconfie quando as rotulagens desses itens apresentam algum tipo de indicação, tais quais ‘fortalece a sua saúde’ e ‘melhora a sua atividade sexual’”, conclui.
Mercado Central
A reportagem do jornal A União visitou alguns boxes do Mercado Central de João Pessoa e conversou com comerciantes sobre a venda e a procura dos consumidores por raízes e preparados. A vendedora de garrafadas e lambedores Danusa Pereira de Oliveira comercializa os produtos há aproximadamente 20 anos. “Não posso afirmar qual a quantidade média de venda por mês, porque varia bastante. Em um único dia, eu vendi 260 porções de raízes a um cliente. E os compradores são pessoas de todas as idades, do jovem ao idoso”, apontou.
Já no boxe da vendedora Suzana de Castro Batista, que trabalha com os preparos há mais de 30 anos, a especialidade é a confecção de garrafadas. “Aprendi a fazê-las com o meu marido. Servem para desinflamar o corpo e são bastante procuradas. Recomendo a pessoa a tomar três copos de 100 ml ao dia, meia hora antes de cada refeição. As minhas são preparadas com vinho branco sem álcool. Contêm cajueiro roxo, aroeira, quixaba, urtiga branca, cedro, ipê roxo, casca de ameixa, bononi, raiz de coco, catolé e outros. São excelentes”, garantiu.
Outro entrevistado foi Wanderley Severino Freire, de 35 anos, filho do senhor José Lucas do Mangaio — proprietário de um dos boxes do Mercado Central e que também produz garrafadas. O vendedor contou que uma porção de raízes usadas nos preparos custa R$ 4. “A gente a coloca na garrafa juntamente com água; depois de uns 10 dias, acrescenta outra quantidade igual a da primeira”, descreve.
Fitoterápicos devem ter eficácia atestada
A professora Leônia Maria Batista, do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), explica que a fitoterapia “é uma prática terapêutica milenar que faz uso de plantas medicinais e produtos dela obtidos, os fitoterápicos, para o tratamento de doenças autolimitadas — ou seja, enfermidades agudas de baixa gravidade”. As plantas medicinais são espécies vegetais, cultivadas ou não, utilizadas com finalidade terapêutica. Elas podem ser aproveitadas in natura (fresca) ou secas (droga vegetal) e rasuradas (em pequenos pedaços).
Os fitoterápicos são definidos como preparações farmacêuticas elaboradas tecnicamente a partir da planta medicinal ou de
derivados como tinturas e extratos. Eles podem se apresentar como medicamentos fitoterápicos ou medicamentos fitoterápicos tradicionais — nomenclatura que substituiu os antigos “produtos fitoterápicos” — e são encontrados em farmácias na forma de xaropes, cápsulas, comprimidos e pomadas.
Na categoria dos medicamentos fitoterápicos, é necessário que os produtos sejam desenvolvidos com segurança e eficácia fundamentadas em evidências clínicas. É preciso, além disso, passar por testes em animais e testes clínicos, para comprovar a eficácia e adquirir o registro junto à Anvisa.
Já os medicamentos tradicionais fitoterápicos recebem essa classificação após a comprovação de que já são usados de forma segura e efetiva pela população há, pelo menos, 30 anos. Para se fazer a utilização desses últimos, não há a necessidade de um diagnóstico, nem de uma prescrição médica. A venda na farmácia é livre; entretanto, precisam ser adquiridos com orientação de um profissional farmacêutico.
Oferta no SUS
“Na farmácia, existe uma grande procura por medicamentos fitoterápicos e medicamentos tradicionais fitoterápicos. Alguns são prescritos pelos profissionais de saúde, outros por demanda espontânea da população”, comentou a professora da UFPB.
Leônia Batista acrescenta, ainda, que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferta 12 fitoterápicos. Entre as matérias-primas desses medicamentos, estão alcachofra, aroeira, espinheira-santa, guaco, cáscara-sagrada, garra-do-diabo, isoflavona, unha-de-gato, hortelã, babosa, salgueiro e plantago.
“Cada um é oferecido em uma forma farmacêutica específica — como xarope, pomada ou comprimido — para tratar determinadas afecções. Todavia, cabe ao município, conforme seu perfil epidemiológico, incorporá-los à sua lista de medicamentos essenciais. O xarope de guaco, por exemplo, é um dos mais utilizados nas unidades de saúde”, detalha.
Manipulação de plantas medicinais exige cuidados específicos
Existe uma série de cuidados que devem ser observados antes de se fazer o uso da planta medicinal como chá. É preciso, por exemplo, saber identificar a planta — reconhecendo se é realmente a espécie indicada — e pedir ajuda a um profissional habilitado ou a alguém experiente.
Se é o próprio usuário quem vai coletar a planta, é importante ficar atento ao horário. O melhor momento é nas primeiras horas da manhã, das 7h às 9h, logo após a secagem do orvalho, ou no fim da tarde, das 16h às 18h, em dias ensolarados.
Também é necessário verificar o local de coleta ou aquisição, já que a matéria--prima não deve vir de locais contaminados, terrenos baldios e beiras de estradas. O ideal é retirá-la de hortas, jardins terapêuticos, farmácias vivas e hortos comunitários; além de averiguar qual parte será utilizada — folhas, inflorescências, cascas ou raízes —, pois elas devem apresentar bom esta-
do de conservação e estar livres de qualquer tipo de contaminação.
A atenção à quantidade correta para preparar uma xícara de chá também é fundamental. O conhecimento da dosagem ideal permite aproveitar os benefícios e evitar possíveis intoxicações.
Por fim, deve-se entender a forma de preparo. O chá medicinal pode ser feito por infusão — quando a água fervente é vertida sobre a planta e abafada; decocção — quando a planta é cozida junto com a água; ou maceração — que consiste em deixá-la de molho em água potável.
Leônia Maria faz alguns alertas relacionados às plantas medicinais. “Não [se deve] acreditar no ditado popular que diz que ‘o chá quanto mais corado [é] melhor’. Isso não é verdade, porque maior seria o risco de intoxicação. Ou ‘se é natural, não faz mal’, [também é] outra inverdade”, observou.
De acordo com a professora, quando a intenção for adquirir plantas medicinais secas, deve-se dar preferência às lojas de produtos naturais. Certas espécies também podem ser adquiridas em farmácias homeopáticas. Entretanto, caso se opte por feiras livres, o recomendado é procurar por profissionais experientes, como um raizeiro, e ficar atento à procedência e à qualidade da matéria-prima. Ela salienta, ainda, que a mistura de várias plantas implica um maior risco de intoxicação, e que espécies vegetais medicinais e fitoterápicos, quando associados a medicamentos sintéticos, provocam maior risco de interação medicamentosa e, consequentemente, efeitos adversos.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de abril de 2026.

