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Elucidação de crimes cresce na PB

publicado: 29/06/2026 09h31, última modificação: 29/06/2026 09h31
Estratégias garantem recorde histórico de 70% de resolução de casos envolvendo mortes violentas intencionais
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As recentes melhorias na PCPB incluem ampliação de estrutura policial, obtenção de equipamentos tecnológicos e chegada de novos profissionais | Foto: Divulgação/PCPB

por Nalim Tavares*

A capacidade de resolver crimes é um dos principais indicadores de um sistema de segurança pública eficiente. Nos últimos anos, a inteligência policial da Paraíba vem trabalhando para avançar na elucidação de mortes violentas intencionais (MVI) e, em 2025, alcançou a marca histórica de 70% de casos solucionados, o maior percentual registrado desde o início da série histórica, iniciada em 2013. O número coloca o estado em uma posição de destaque nacional, sobretudo quando comparado à média brasileira de esclarecimento para este tipo de crime, estimada em 37%, segundo o Instituto Sou da Paz — uma organização da sociedade civil que busca contribuir para a efetivação de políticas públicas de segurança e prevenção da violência.

Para o delegado da Polícia Civil da Paraíba (PCPB), Danillo Orengo, o índice é resultado dos esforços permanentes das equipes responsáveis pelas investigações. Desde 2013, a corporação vem seguindo uma metodologia que integra fortalecimento institucional, aperfeiçoamento constante de práticas investigativas e monitoramento contínuo dos inquéritos relacionados a homicídios e demais crimes letais, como feminicídios e latrocínios. “Esse acompanhamento permanente produz informações importantes para a tomada de decisões, permitindo direcionar recursos humanos, equipamentos e ações operacionais para os locais que mais necessitam de atenção”, esclarece o delegado.

A análise dos dados também demonstra a efetividade da estratégia: em 2023, a PCPB registrou 53% de elucidação das mortes violentas intencionais e, no ano seguinte, o percentual subiu para 59%. Agora, com o índice histórico de 70% (que indica que a cada 10 crimes da categoria, sete tiveram a autoria identificada), o estado consolida a tendência de crescimento na quantidade de crimes solucionados. Além disso, segundo a  Diretoria de Estatística da PCPB, autora dos dados, as regiões de Bayeux e Cabedelo atingiram a marca de 90% de elucidação de homicídios.

Para a sociedade civil, os benefícios são diretos. “A elucidação de um inquérito policial de morte violenta intencional contribui para reduzir a sensação de impunidade, fortalecer a confiança da população nas instituições públicas e aumentar a percepção de segurança. Quando um crime é devidamente investigado e seus responsáveis são identificados, o sistema de justiça criminal passa a atuar de forma mais efetiva”, assegura o delegado Orengo.

Entre os fatores que explicam o avanço dos indicadores, está o investimento realizado pelo Governo do Estado na área da segurança pública. Segundo Danillo, houve ampliação da estrutura policial, aquisição de equipamentos tecnológicos, fortalecimento da perícia criminal e incorporação de novos profissionais por meio do maior concurso da história da PCPB, que introduziu 1.400 novos servidores na instituição. Esse reforço contemplou diversas áreas — incluindo delegados, investigadores, escrivães, peritos criminais, médicos e outros cargos especializados — e ampliou a capacidade operacional das equipes responsáveis pela apuração dos crimes. O delegado ressalta, ainda, o papel de órgãos como a Academia de Polícia Civil da Paraíba (Acadepol), o Instituto de Polícia Científica (IPC) e a Unidade de Inteligência Policial (Unintelpol).

Pela análise dos dados de investigação, é possível inferir que, nos últimos anos, o tempo médio de elucidação das MVI têm ficado entre 73 e 90 dias. O período compreende o trabalho investigativo necessário para reunir evidências suficientes, que permitam apontar a autoria de forma técnica e fundamentada. O delegado Orengo destaca que a qualidade da investigação deve sempre preceder a rapidez. “Investigações bem conduzidas contribuem para evitar erros, fortalecer a atuação do sistema de Justiça criminal e garantir maior segurança jurídica para todas as partes envolvidas”, afirma. Entretanto, o tempo de resposta, associado ao aumento dos índices de elucidação, demonstra o aperfeiçoamento das rotinas investigativas e o fortalecimento da capacidade institucional da PCPB, no enfrentamento dos crimes mais graves contra a vida.

A fim de manter o índice em ascensão, Danillo pontua que a principal estratégia, atualmente, “é a aproximação entre o corpo diretivo da PCPB e as equipes responsáveis pela operacionalidade, com a realização contínua de reuniões que discutam as experiências exitosas, a fim de que sejam ampliadas e replicadas, e também sobre as áreas em que os resultados não sejam satisfatórios, gerando reflexões e estudos que resultem em ações concretas no combate à criminalidade, levando em conta a dinâmica de cada localidade”. A partir do monitoramento constante, o delegado explica, é possível identificar dificuldades operacionais, verificar resultados alcançados e promover ajustes sempre que necessário.

O desempenho da Paraíba também chama atenção de instituições que acompanham a segurança pública em âmbito nacional. O Instituto Sou da Paz, organização sem fins lucrativos, que teve início em 1997 e, desde então, tem participado de importantes projetos voltados para a área — como a aprovação e implementação do Estatuto do Desarmamento, em 2003 —, mantém parceria com o estado em diferentes projetos voltados ao fortalecimento das investigações criminais. De acordo com Rafael Rocha, coordenador de projetos da organização, a Paraíba pode ser considerada um “ponto fora da curva” no cenário nacional, devido ao seu modelo de governança.

O especialista relata que, há anos, acompanha o cenário paraibano no que concerne ao combate ao crime, e que o estado foi pioneiro ao criar, em 2011, um indicador próprio para discutir segurança, cidadania e gestão compartilhada, além de políticas de segurança pública para enfrentar os índices de assassinatos registrados em território estadual. Chamado de “Paraíba Unida Pela Paz”, o programa é uma iniciativa do Governo do Estado, que integra as polícias Civil e Militar, o Corpo de Bombeiros e órgãos de cidadania. Ele atua, justamente, por meio do monitoramento contínuo dos índices de criminalidade, especialmente daqueles que concernem à vida e ao patrimônio.

“Quando a gente tem um indicador, é possível entender o que está funcionando e o que precisa melhorar. João Pessoa tinha uma elucidação muito baixa de homicídios, quando comecei a acompanhar. Mas, hoje, já tem mais de 50%, que é acima da média nacional”, diz Rafael Rocha.

A metodologia de cálculo utilizada pelo Instituto Sou da Paz possui diferenças técnicas em relação à métrica da Secretaria de Estado da Segurança e da Defesa Social (Sesds). Enquanto o estado analisa os dados em tempo real, o instituto paulista processa as informações com uma janela de dois anos para consolidação nacional de Relatórios de Impacto. Mas, apesar das nuances metodológicas naturais, as curvas estatísticas de ambas as instituições conversam entre si e confirmam o avanço da Paraíba. O coordenador do instituto destaca, ainda, o impacto social decorrente da prisão de um homicida, que quebra o ciclo de violência e impede revanches imediatas entre grupos criminosos rivais.

Delegacia especializada

Um dos principais produtos da parceria entre o Instituto Sou da Paz e o Governo da Paraíba foi a criação de uma Delegacia Especializada de Combate à Circulação e Comercialização Ilegal de Armas de Fogo, Munições e Explosivos (Desarme), assinada, em outubro de 2024, pelo então governador João Azevêdo. Localizada em João Pessoa, mas com abrangência em todo o estado, o foco da unidade é identificar as organizações criminosas ligadas à fabricação e comércio de armas ilegais, já que a maioria dos homicídios na Paraíba — e no Brasil — é cometida com o uso de armas de fogo.

Nesse sentido, o Instituto Sou da Paz também desenvolveu, com base em dados cedidos à organização pela PCPB, uma análise do perfil das armas que circulam pelo estado. O estudo realizado a partir de, aproximadamente, 13 mil armas apreendidas, de 2000 a 2023, pelas Forças de Segurança paraibanas, revelou, por exemplo, que 20% do armamento retirado das ruas era de fabricação artesanal, abrangendo desde armas rústicas, comuns na caça por subsistência, até modelos mais sofisticados, semiautomáticos ou automatizados, produzidos por impressoras 3D. Tal monitoramento também permite identificar se há novos padrões de tráfico surgindo ou se armas registradas por colecionadores, atiradores e caçadores (CACs) estão sendo desviadas para o crime.

Por fim, Rafael Rocha enfatiza que não existem respostas prontas ou soluções únicas para combater a violência. Cada modalidade exige estratégias e articulações específicas, com setores como saúde, educação e tecnologia. Entretanto, quando se pensa em transformar a segurança, a análise de dados é um dos melhores pontos de partida. “Olhar para os problemas e buscar soluções a partir do levantamento de dados, análises técnicas e evidências científicas impede que a inteligência policial opere no escuro, e permite que as estratégias sejam mais direcionadas,” ele conclui.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de junho de 2026.