O número de casos de leptospirose sofreu uma queda de 81,3% na Paraíba, segundo um levantamento da Secretaria de Estado da Saúde (SES-PB), baseado em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). O índice compara os meses de janeiro a maio de 2026 em relação ao mesmo intervalo de 2025, período em que o estado obteve 59 confirmações da doença. Neste ano, até o momento, a SES-PB soma 11 ocorrências de leptospirose, sem óbitos registrados.
Na Paraíba, João Pessoa e Campina Grande apresentam a maior incidência de casos, um total de cinco e dois registros, respectivamente. As cidades de Alagoa Grande, Bayeux, Gado Bravo e Santa Rita concentram uma notificação cada uma, enquanto os demais municípios do estado continuam sem episódios da doença. Já os números observados no ano passado, de acordo com o órgão, estão associados a um surto em um abrigo de indígenas venezuelanos da etnia Warao, no Centro da capital.
Como explica a infectologista Júlia Chaves, do Complexo de Doenças Infectocontagiosas Dr. Clementino Fraga, o que provoca a leptospirose é a bactéria Leptospira, presente na urina de ratos e outros animais. Em condições normais, bueiros, fendas e o próprio solo armazenam essa substância. No entanto, quando ocorrem enchentes ou alagamentos, a mistura da água contaminada com a da chuva facilita a proliferação da doença. “A bactéria sobrevive bem na água e na lama e consegue penetrar o corpo humano por meio da pele, mesmo sem feridas visíveis se o contato for prolongado, ou por pequenas lesões e mucosas, como olhos, nariz e boca”, informa.
Assim, quem reside em regiões de saneamento precário ou teve a casa invadida pelas enchentes, bem como equipes de resgate e voluntários, desenvolve maior risco de contrair a infecção. Os primeiros indícios costumam surgir nas duas semanas iniciais de contaminação, mas esse intervalo de tempo varia, em geral, de um a 30 dias. Por isso, o perigo permanece mesmo depois do recuo da água, nas poças de lama e durante o processo de limpeza dos imóveis alagados.
“O ideal é evitar qualquer contato com a água de enchente. Se for inevitável, podemos prevenir usando botas e luvas de borracha ou, se não tiver, utilizando sacos plásticos duplos amarrados nas mãos e nos pés. Após a água baixar, é preciso lavar o local em que a água contaminada alcançou com uma solução de água sanitária. A recomendação é diluir dois copos ou 400 ml de água sanitária em um balde de 20 litros de água, deixando agir por 15 minutos antes de enxaguar, além de descartar alimentos que tiveram contato com a água da enchente, mesmo que estejam em embalagens fechadas — exceto latas, que devem ser lavadas e desinfetadas”, orienta Júlia.
É comum observar sintomas como febre alta e súbita, dor de cabeça intensa, náuseas, olhos amarelados, urina escura e vômitos. Um sinal bastante característico consiste em dores no corpo, especialmente na panturrilha e na região lombar. Pessoas que manifestarem essas complicações devem procurar uma unidade de saúde com urgência e informar que entraram em contato com águas de enchente, a fim de obter o diagnóstico correto e receber o tratamento adequado. “A leptospirose é uma doença grave, mas evitável e tratável. O foco principal deve ser evitar o contato direto com água e lama de enchentes, utilizar proteção adequada na limpeza e estar atento aos sintomas, buscando atendimento médico imediato no primeiro sinal de febre após a exposição”, reforça a infectologista.
Assistência
A SES-PB destaca que os municípios devem intensificar a vigilância epidemiológica, monitorar zonas de risco e garantir que os profissionais de saúde estejam alertas para o diagnóstico e o tratamento precoce. Na capital, as avaliações suspeitas de leptospirose são feitas nas unidades de saúde da família (USFs) do município: a equipe efetua o diagnóstico, notifica a ocorrência e direciona o usuário às medidas necessárias.
Em situações urgentes, a Secretaria Municipal de Saúde de João Pessoa (SMS-JP) aconselha ir à unidade de pronto atendimento (UPA) mais próxima. Lá, o paciente poderá realizar a coleta específica para o diagnóstico laboratorial da doença. Caso haja necessidade de internação, a população encontra serviços de referência como o Complexo de Doenças Infectocontagiosas Dr. Clementino Fraga, em Jaguaribe, e o Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), no Castelo Branco.
Para o controle de vetores e pragas urbanas, também é possível acionar o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), pelo endereço de e-mail zoonosesdiretoria.2026@gmail.com ou por meio dos telefones (83) 3213-7635 e (83) 3213-7805. O CCZ atua no monitoramento e no manejo de espécies que representam risco sanitário, a exemplo de baratas, escorpiões, mosquitos e roedores. O órgão está localizado na Rua Walfredo Macedo Brandão, nº 100, no bairro Bancários, e atende o público de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 09 de junho de 2026.