Notícias

investimentos em saneamento

Ganhos podem chegar a R$ 25 bilhões

publicado: 13/04/2026 08h57, última modificação: 13/04/2026 08h57
Estudo aponta que, a cada R$ 1 aplicado em tratamento de água e esgoto na PB, obtêm-se R$ 4,3 em benefícios sociais
Modernizacao e expansao da rede em JP  (1).jpeg

Ampliação do saneamento básico também aumenta a produtividade dos trabalhadores | Foto: Divulgação/Cagepa

por Priscila Perez*

Ampliar o saneamento básico significa muito mais do que investir em redes de água e esgoto: pode representar um salto nas condições de vida e no desempenho econômico do estado nas próximas décadas. É o que aponta o estudo Benefícios econômicos da expansão do saneamento na Paraíba, realizado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a Ex Ante Consultoria. De acordo com o levantamento, a universalização dos serviços pode gerar cerca de R$ 25 bilhões em ganhos socioeconômicos até 2040, com reflexos na saúde, no turismo e na produtividade do paraibano. A matemática evidencia o retorno desse investimento: a cada R$ 1 aplicado em água tratada e esgoto, obtêm-se R$ 4,3 em benefícios sociais.

Além das obras de infraestrutura, os resultados do estudo reforçam que investir em saneamento significa, também, reduzir vulnerabilidades históricas que ainda limitam o crescimento econômico e a qualidade de vida da população. Para Luana Pretto, presidente do instituto, trata-se de um vetor indiscutível de desenvolvimento. “Não há desenvolvimento econômico, social ou ambiental sem saneamento”, crava, ao destacar que não é possível projetar uma geração futura saudável se não houver acesso ao básico na casa de cada cidadão.

Segundo ela, saneamento não é obra enterrada, mas um ativo estratégico capaz de interromper ciclos de desigualdade que se perpetuam quando parte da população permanece exposta a condições precárias de higiene. “Quando ampliamos o acesso, reduzimos doenças, melhoramos a frequência escolar e ampliamos as oportunidades de inserção produtiva”, explica Luana.

Matemática

Para além do desenvolvimento humano, o estudo comprova por “A+B” que quem investe em saneamento também tem retorno garantido. Na Paraíba, de acordo com as estimativas do Trata Brasil, a melhoria no acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário pode gerar uma economia de, aproximadamente, R$ 407 milhões em saúde pública, dentro dos próximos 14 anos. Tudo isso decorreria da redução de doenças respiratórias e infecções causadas pelo contato com água contaminada, além da diminuição de afastamentos do trabalho por enfermidades como diarreia e vômito, associadas à falta de infraestrutura sanitária. Na prática, um trabalhador que vive sempre doente não consegue atingir sua plena capacidade, assim como uma criança nessas condições impede que a mãe trabalhe fora. “Ou seja, se não há saneamento, criamos uma bola de neve em torno da doença”, observa Luana.

Para a CEO do instituto, esse é um dos efeitos mais imediatos e perceptíveis da universalização. Como referência, apenas em 2024, mais de 4,4 mil paraibanos foram internados por problemas desse tipo, segundo levantamento do Trata Brasil, com base nos dados do DataSUS. “Quando a população adoece mais, as crianças faltam mais à escola, o que compromete a aprendizagem e reduz as chances de alcançar uma renda maior no futuro. Hoje, quem tem acesso ao saneamento recebe, em média, R$ 2,6 mil, enquanto quem não tem vive com cerca de R$ 1,3 mil”, compara.

Não à toa, esse efeito “multiplicador” também se desdobra na produtividade do paraibano, com potencial incremento de R$ 11,8 bilhões na renda, à medida que melhores condições de vida ampliam a capacidade de trabalho da população. Já no campo do turismo, o impacto estimado é de cerca de R$ 1,7 bilhão, impulsionado pela despoluição de praias e rios. Há, ainda, reflexos positivos no mercado imobiliário, com estimativa de R$ 1,58 bilhão em valorização de imóveis. Quando colocados em perspectiva, esses números ajudam a dimensionar o peso econômico do saneamento básico para o estado: são R$ 46 bilhões em benefícios projetados até 2040, frente a cerca de R$ 20,7 bilhões em despesas necessárias para a expansão dos serviços. Na prática, isso significa que, apesar do esforço financeiro, o saldo ainda é positivo — de quase R$ 25 bilhões — e os efeitos são duradouros, inclusive no pós-2040.

Marco legal impõe corrida contra o tempo para atingir universalização

Por trás dessas projeções econômicas, também há uma legislação que passou a direcionar melhor a agenda de investimentos em todo o país. Sancionada em julho de 2020, a Lei Federal nº 14.026 atualizou o Marco Legal do Saneamento ao estabelecer metas mais objetivas para o tema, criando uma espécie de “contagem regressiva” para estados e municípios. Na prática, a lei fixou como horizonte o atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgotos até 31 de dezembro de 2033, com possibilidade de prorrogação até 2040.

Na avaliação de Cláudia Coutinho Nóbrega, presidente da seção Paraíba da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes-PB), o marco regulatório tem o mérito de organizar esse processo ao reforçar que a expansão depende de planejamento estruturado e metas consistentes. Ainda assim, ela observa que, para que a legislação produza os efeitos esperados, é preciso fiscalizar. “Muitos legisladores do mundo todo dizem que o Brasil tem uma das melhores legislações relacionadas a saneamento e meio ambiente. Mas não adianta ter lei e não cumprir. Precisamos fiscalizar”, complementa.

Para ela, esse acompanhamento é imprescindível para que a universalização do saneamento realmente saia do papel e não vire um “objetivo utópico”, como ocorreu com a meta de encerramento dos lixões, cujo prazo de quatro anos acabou sendo estendido durante o período de 2014 a 2024. “Quase todo o Brasil tinha lixão. E essas áreas precisam ser recuperadas, o que também não está acontecendo”, argumenta.

Serviço essencial

A especialista lembra que metas desse tipo ajudam a dar direção para que os resultados apareçam, mas o ritmo dos avanços depende do quanto cada estado está disposto a investir. Segundo ela, mesmo que a universalização não seja alcançada integralmente no prazo, todo esforço representa um passo relevante nesse sentido, tanto por parte do poder público quanto da própria população. O desafio está, justamente, em consolidar a percepção de que o saneamento é um investimento contínuo e essencial, ainda que seja menos visível do que qualquer outra obra, como a construção de um equipamento urbano.

De acordo com a presidente da Abes-PB, nem sempre o munícipe percebe, de imediato, a diferença que o saneamento faz na vida dele, mas os benefícios são inegáveis. “Por isso acredito que, junto com o saneamento, devemos ter um trabalho de educação. Todo mundo precisa ter a consciência de que não pode jogar esgoto nem lixo no mar. É uma atitude individual, mas com impacto em toda uma cadeia econômica, do turismo à pesca”, analisa Cláudia. Além disso, ela lembra que saneamento também envolve destinação de resíduos sólidos e drenagem de águas pluviais, o que amplia, ainda mais, o tamanho do desafio.

Cagepa atua para levar cobertura sanitária a toda a população

Sistema Adutor Transparaíba é uma das obras de destaque | Foto: Divulgação/Cagepa

Do ponto de vista prático, alcançar a universalização prevista pelo Marco Legal do Saneamento exige um volume elevado de investimento — e é nessa corrida que a Companhia de Águas e Esgotos da Paraíba (Cagepa) encontra-se atualmente. De acordo com o presidente da entidade, Marcus Vinícius Neves, esse movimento tem alcançado tanto o abastecimento de água quanto o esgotamento sanitário. Entre as frentes destacadas por ele, está o Sistema Adutor Transparaíba, que reúne projetos estratégicos para a segurança hídrica do estado. Nesse eixo, estão o Ramal Cariri, que deve beneficiar mais de 150 mil moradores de 18 cidades paraibanas, e o Ramal Curimataú, voltado ao reforço do abastecimento em municípios historicamente marcados pela escassez, a exemplo de Pedra Lavrada e Cacimba de Dentro. Somadas, as ações chegam a R$ 413 milhões.

Mas o esforço não está concentrado apenas nas grandes obras. De acordo com o presidente da Cagepa, parte importante desse avanço também vem sendo direcionada aos municípios menores, onde o desafio do saneamento costuma aparecer de forma mais aguda. “Só nos últimos três anos, foram destinados mais de R$ 193 milhões, exclusivamente, à extensão de rede em pequenos municípios, o que resultou em mais de 650 km de novas tubulações e ligações de água”, afirma.

Já na área de esgotamento sanitário, a aposta mais robusta da companhia está em uma parceria público-privada (PPP) estruturada com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que prevê o aporte de R$ 3 bilhões para universalizar o serviço em 85 municípios paraibanos ao longo de 25 anos. “Nesse modelo, a Cagepa permanece como responsável pelo controle da qualidade, garantindo que a cooperação com a iniciativa privada acelere as obras e a eficiência operacional sem abrir mão das nossas decisões estratégicas”, explica.

Em João Pessoa, por sua vez, a evolução do sistema aparece em obras mais recentes. No último mês, por exemplo, a Cagepa inaugurou o Centro de Controle Operacional e da Automação do Sistema Integrado de Abastecimento da Grande João Pessoa, obra de
R$ 28 milhões que beneficia mais de um milhão de pessoas. Nesse mesmo movimento, a empresa prepara para o próximo mês a entrega da nova Estação Elevatória de Esgotos Usina II, estrutura que deve recolher o esgoto dos bairros da orla e encaminhá-lo até a Estação de Tratamento de Esgotos do Baixo Roger. Para Marcus Vinícius, obras como essas colocam a Paraíba na direção certa. “Todos esses investimentos reafirmam o compromisso da Cagepa com as metas do novo Marco do Saneamento e com a transformação da realidade dos paraibanos”, finaliza o presidente da companhia.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de abril de 2026.