Um levantamento feito pelo Grupo Storm, responsável pelo monitoramento de eventos climáticos, em parceria com a Energisa Paraíba, apontou o registro de 271.804 descargas atmosféricas, de 1º de janeiro deste ano até o último dia 15. O número já é superior ao total de ocorrências contabilizadas durante todo o ano de 2025 — cerca de 230 mil —, sendo que a área com maior incidência é o Sertão, com mais de 76% dos registros. Em seguida, aparece a região da Borborema, com 22% e, por último, o Litoral, que soma 1% das descargas.
Diante de tantos casos, os especialistas orientam a população a proteger-se em situações de risco. Manter-se abrigado e evitar contato com a rede elétrica são os principais alertas.
Os raios podem provocar grandes danos, a exemplo de incêndios em zonas urbanas e rurais, prejuízos à rede elétrica e a morte de pessoas ou animais. “O risco do raio é que ele não precisa, necessariamente, atingir alguém para causar acidente. Pode se propagar pelo solo, por estruturas metálicas ou redes elétricas. Por isso, mesmo quem não esteja exposto a raios ainda corre um risco significativo”, explicou o professor Pabllo Araújo, doutor em Engenharia Civil e Ambiental.
Ao ser atingida por uma descarga elétrica, uma pessoa pode sofrer, como consequência, uma parada cardíaca, queimaduras graves e até danos neurológicos. Em meio a tempestades, a primeira orientação é abrigar-se em um local seguro. “Mantenha-se longe de grandes descampados, terrenos baldios e praias. Os raios ‘buscam’ os pontos mais altos para atingir e migrar para o solo. Evite também o contato com objetos metálicos — como cercas, portas e equipamentos elétricos que estejam em locais externos, porque são condutores de energia”, alertou o especialista.
Em casos de danos a postes e rompimento de cabos, o ideal é entrar em contato com a concessionária de energia responsável. Bruno Correa, coordenador do Centro de Operações da Energisa, salientou: “O mais importante é que ninguém tente manusear a rede elétrica, mesmo que os fios estejam sobre o chão. É necessário fazer contato com a Energisa, por meio dos nossos canais de atendimento, para que a intervenção seja feita por profissionais qualificados”.
Já Pabllo Araújo ressaltou que os cuidados também são necessários dentro de casa. “Recomenda-se não utilizar equipamentos que estejam ligados à energia, como celulares, notebooks e eletrodomésticos. Tire esses equipamentos eletrônicos da tomada, mantenha-se em um local seguro dentro de casa, distante de portas e janelas metálicas”, indicou o engenheiro.
Quem estiver no trânsito deve permanecer dentro do veículo, que funciona como proteção contra descargas atmosféricas, por conta do isolamento dos pneus. Os condutores devem evitar estacionar próximos a torres de transmissão ou placas de propaganda. Durante as rajadas de vento, o mais aconselhável é não se abrigar debaixo de árvores. Também não é recomendado ficar perto de piscinas, lagos ou açudes. Em casa, se perceber que alguma parede apresenta umidade, não é indicado que o morador ligue equipamentos elétricos em tomadas instaladas nela nem faça manutenções quando estiver chovendo.
Vigilância
A Energisa Paraíba informou que realiza o monitoramento permanente das previsões climáticas em todo o estado, preparando suas equipes para contingências ocasionadas por chuvas intensas. De acordo com a companhia, as principais ocorrências, durante as chuvas, são sobretensão e surtos elétricos, danos aos transformadores e para--raios, queima de isoladores, rompimento de cabos e falta de energia.
“Temos um plano estruturado para atuar em situações críticas, que visa a uma atuação rápida e um menor impacto para os clientes. São medidas preventivas que permitem a alocação de equipes em pontos estratégicos, por exemplo, e uma recomposição mais rápida diante das adversidades climáticas apresentadas”, explicou Bruno Correa.
Causas
Quanto ao alto registro de raios no Sertão, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta que o período de janeiro a abril costuma, de fato, ser o de maior incidência na região. A causa está associada ao calor intenso e à elevação da umidade do ar nesta época. O quadrimestre coincide exatamente com a principal temporada de chuvas na área, já que, sem nuvens carregadas, não há formação de raios. “As características climáticas do Sertão influenciam que tenhamos essa maior incidência de raios na região”, ratificou Pabllo.
A descargas elétricas são geradas dentro das nuvens de chuva. O atrito entre partículas de água e de gelo provoca uma reação de separação das cargas. A partir do momento em que as nuvens perdem a capacidade de isolamento, a descarga é atraída pelo solo, que também apresenta grande concentração de cargas elétricas. Com isso, os raios chegam à Terra com uma alta intensidade de energia e temperatura elevada.
Casal de idosos passou por susto no Cariri

- Segundo a Energisa, danos em itens elétricos por oscilações de energia podem ser ressarcidos | Foto: Melody P/Unsplash
No dia 5 de abril, em pleno Domingo de Páscoa, Maria Aparecida Araújo Brito, de 67 anos, e Jarbas da Silva Brito, de 66, assistiam à transmissão da missa pela televisão, na sala de casa, pouco depois de saírem do quarto. O casal de aposentados reside na Rua Darci Antônio de Brito, no bairro Santo Antônio, na cidade de Livramento, no Cariri paraibano. Segundo os moradores, o nome da cidade define precisamente o que eles viveram naquele fim de tarde.
Inesperadamente, o momento de oração foi interrompido por um forte barulho, seguido de muita fumaça, escombros e sensação de medo. A residência havia sido atingida por uma descarga atmosférica. Imagens de câmeras de segurança posicionadas em casas vizinhas registraram o momento: depois de um clarão no céu, uma nuvem de poeira e fumaça é vista saindo do telhado do imóvel.
“Foi um pipoco tão grande, que passei uns três dias com dor de ouvido. Pode acreditar que foi o maior susto que já tive na minha vida. Na hora, eu nem sabia o que estava acontecendo. Só vim entender depois, quando os vizinhos chegaram para ajudar”, afirmou Maria Aparecida. “Quem estava fora disse que viu uma bola de fogo em cima da minha casa”, acrescentou.
O raio precedeu uma forte chuva. O teto do quarto foi danificado, o que causou um princípio de alagamento no local. Mesmo após o impacto, Jarbas e um filho do casal ainda se arriscaram no telhado para consertá-lo — atitude desaconselhada pela Energisa. “Era muita água dentro de casa e um fumaceiro preto, fedido. Eu me vi desesperada, porque nunca na minha vida imaginei passar por aquilo”, contou a aposentada.
A família relatou que sempre adota cuidados diante de temporais. Jarbas, que se aposentou como guarda municipal, mantém o instinto de segurança e “desliga todas as tomadas quando vê o mundo se preparando para a chuva”, como disse a esposa. No dia em que o raio caiu, contudo, o céu não apresentava sinais de grandes precipitações e, por isso, as precauções não foram tomadas.
Os danos foram apenas materiais. Mesmo com a proporção do raio, Maria Aparecida e Jarbas saíram ilesos, e somente equipamentos eletrônicos foram perdidos. “No quarto, queimou a antena, a televisão e o receptor. Na sala, só não queimou a televisão, mas até o aparelho da internet derreteu, não prestou mais para nada. E minha geladeira ficou com problema, tá parando de vez em quando, descongelando”, descreveu Aparecida.
O casal não procurou a concessionária de energia, mas o site da Energisa (https://www.energisa.com.br/para-sua-casa/servicos/outros-servicos/ressarcimento-de-danos-eletricos) aponta que clientes que tiveram aparelhos elétricos danificados por oscilações de energia podem solicitar ressarcimento. A orientação é relatar o caso, por meio de um dos canais de atendimento da empresa, que avaliará a situação.
Recuperados do susto e, aos poucos, reavendo os bens materiais comprometidos, Maria Aparecida e Jarbas agradecem pelo livramento que viveram. “Foi Deus que botou a mão por cima de nós. Se a gente não tivesse saído do quarto para assistir à missa na sala, poderia ter acontecido coisa pior”, concluiu.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de abril de 2026.