Nos últimos quatro anos, a Paraíba registrou uma redução de 14,3% na mortalidade por doenças cardiovasculares, de acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES-PB). Em 2022, foram contabilizados 8.667 óbitos em decorrência de complicações do sistema cardíaco no estado. Já em 2025, esse número caiu para 7.429 mortes. Apesar da queda, o infarto do miocárdio permanece como a cardiopatia mais letal na região, tendo sido responsável por cerca de nove mil mortes de paraibanos ao longo do período analisado.
Como explica o cardiologista Luiz Prota, as patologias que acometem o aparelho circulatório representam a principal causa de morte no Brasil. Trata-se de enfermidades frequentemente agravadas por distúrbios silenciosos, cujo tratamento, muitas vezes, é negligenciado. Entre elas, a doença arterial coronariana — caracterizada pelo entupimento das artérias do coração — é a mais comum.
O especialista expõe que os principais fatores de risco, como hipertensão arterial, diabetes e colesterol elevado, são, em sua maioria, assintomáticos. No entanto, quando as cardiopatias já se encontram em estágio mais avançado, podem surgir sinais clínicos. “Dor no peito ou sensação de peso no tórax, especialmente durante caminhadas ou esforços físicos mais intensos, são sintomas típicos da doença coronariana. Além disso, podem ocorrer falta de ar sem causa aparente, cansaço excessivo e, eventualmente, palpitações associadas a quadros de arritmia”, detalha. 
O médico ressalta que as cardiopatias estão interligadas: o descuido com uma delas pode favorecer o surgimento de outras e desencadear complicações ainda mais graves. Por esse motivo, mesmo na ausência de sintomas, pessoas com histórico familiar de doenças cardiovasculares ou com fatores de risco associados devem realizar avaliações clínicas periódicas. “Se a pessoa apresenta fatores de risco já diagnosticados ou antecedentes familiares, o ideal é iniciar o acompanhamento mais cedo. Para a população em geral, recomenda-se a partir dos 35 aos 40 anos, sempre lembrando que a prevenção é melhor do que o tratamento de qualquer doença”, orienta.
Foi justamente uma dor no peito que levou o empresário José Venâncio, de 49 anos, a procurar um cardiologista em Alagoinha, no Agreste paraibano, em dezembro de 2025. Inicialmente, os exames solicitados não apontaram alterações cardíacas, o que levantou a hipótese de um quadro de ansiedade. No entanto, o incômodo persistiu com intensidade suficiente para tornar até mesmo os afazeres cotidianos difíceis de serem realizados.
José relata que os primeiros sinais surgiram de forma sutil, com um cansaço intenso no corpo, especialmente nos ombros e na mandíbula. Com o tempo, após um esforço físico maior, passou a sentir mal-estar e dores fortes no peito, acompanhadas de uma leve dormência que se estendia pelo braço esquerdo até o dedo mindinho da mão. “Eu acordava com aquela dor insuportável que não passava e, depois de cinco a 10 minutos, tudo voltava ao normal, como se nada tivesse acontecido. Já estava acreditando que fosse ansiedade”, recorda.

Somente após buscar a avaliação de outro profissional e realizar uma angiotomografia coronariana foi identificada uma obstrução na artéria principal do coração. Diante do diagnóstico, José foi transferido para o Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires, em Santa Rita, onde se submeteu a um procedimento de cateterismo com implante de stent — um tubo utilizado para dilatar vasos sanguíneos comprometidos.
Depois do tratamento, a rotina do empresário passou por mudanças significativas. “Agora mudou tudo. Procurei uma nutricionista para ajustar a alimentação e o médico me orientou a levar uma vida mais suave, mais leve. Já fui liberado para atividades físicas, que sempre pratiquei. Estou me sentindo ótimo e seguindo em frente”, avalia.
As orientações também são reforçadas pelo cardiologista Luiz Prota, que destaca a importância de hábitos simples na prevenção das doenças do sistema circulatório. Dormir bem e não fumar, por exemplo, são medidas fundamentais para reduzir o risco de patologias cardíacas. O controle do estresse cotidiano e a inclusão de momentos de lazer em família na rotina também contribuem para o bom funcionamento do aparelho cardiovascular.
Segundo o especialista, essas práticas melhoram a qualidade de vida e diminuem a incidência de doenças coronarianas. “Pessoas que já têm hipertensão, diabetes ou colesterol elevado precisam tratar essas condições de forma adequada. Não basta apenas tomar a medicação sem acompanhamento. É essencial realizar exames de rotina”, reforça.
Criado em 2023, Coração Paraibano completará três anos salvando vidas
Diante do cenário epidemiológico no que diz respeito a doenças cardíacas na Paraíba, foi instituído, desde 2023, o programa Coração Paraibano, voltado ao atendimento de pacientes com sintomas de síndrome coronária aguda (SCA). Com equipes em plantão 24 horas por dia, a iniciativa oferece serviços de cirurgia cardiovascular, hemodinâmica e internação especializada em todo o estado. A rede conta com dois Centros Especializados, localizados em Campina Grande e Patos, além de 12 Centros de Referência distribuídos nas unidades regionais e nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), incluindo ainda o Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires.
Segundo o cardiologista e coordenador da rede, Ivson Braga, a principal contribuição do programa está na qualificação da assistência por meio das estratégias de regionalização, interiorização e universalização do atendimento. “Isso envolve a criação de serviços de alta complexidade no Sertão e em áreas distantes, que antes não existiam, além da implantação da telemedicina, que agiliza o diagnóstico, e da trombólise precoce, quando indicada. O atendimento começa nas unidades de saúde, onde o objetivo é realizar um eletrocardiograma nos primeiros 10 minutos”, explica.
A iniciativa funciona de forma hierarquizada e é regulada pelo Complexo Estadual de Regulação Hospitalar (Cerh). Para garantir a agilidade no atendimento, o programa dispõe de uma estrutura de resgate composta por 62 ambulâncias, que atendem desde João Pessoa até Cajazeiras, além de duas aeronaves utilizadas nos casos em que o deslocamento terrestre ultrapassaria 120 minutos. Os resultados já são expressivos: nos últimos três anos, o Coração Paraibano impactou 34.879 vidas por meio de triagens, telemedicina e atendimentos de urgência. Somente em 2025, mais de 13 mil pessoas receberam assistência pelo programa.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de fevereiro de 2026.
