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Inconfidência Mineira

Novas leituras revisitam o movimento

publicado: 21/04/2026 00h00, última modificação: 21/04/2026 08h34
Historiadores questionam mitos consolidados e aproximam o debate de episódios paraibanos e do cenário político atual
Tiradentes © Lia Priscila_ALMG.jpg

A atuação de Tiradentes contra os altos impostos e a opressão colonial de Portugal transformou-o em símbolo nacional | Foto: Lia Priscila/ALMG

por Joel Cavalcanti*

O Dia de Tiradentes costuma reafirmar uma imagem conhecida: a de Joaquim José da Silva Xavier em uma caracterização próxima à de Jesus Cristo, com o mineiro retratado como herói da liberdade, precursor da Independência e mártir de um projeto coletivo de nação. Mas e se essa figura associada ao lema “Liberdade ainda que tardia” tiver sido moldada por escolhas políticas fora do seu próprio tempo? O que a escolha desse feriado nacional ainda revela sobre o Brasil de hoje?

Ao revisitar a Inconfidência Mineira, historiadores questionam o que foi elevado à condição de símbolo e o que permaneceu à margem, criando um diálogo entre a trajetória de Tiradentes e outros processos históricos, inclusive na Paraíba, suscitando novas interpretações sobre o presente. Para a historiadora Ariane Sá, a Inconfidência deve ser compreendida menos como um marco isolado e mais como uma conspiração inserida nas tensões do fim do século 18.

“Hoje, em geral, enxergamos a Inconfidência Mineira como uma conspiração de fins do século 18, atravessada por disputas locais, interesses de grupos letrados e proprietários, circulação de ideias ilustradas e, ao mesmo tempo, por limites muito concretos do mundo colonial escravista”, afirma. “Ela coloca em perspectiva as tensões estruturais do império ultramarino português no Brasil: tributação, crise do ouro, disputas entre Coroa e elites locais”, acrescenta a historiadora.

O historiador e professor de Direito da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Herry Charriery, situa o movimento em um contexto internacional. “É importante deixar claro que a Inconfidência Mineira não foi um movimento isolado. A rebeldia anticolonial está inserida em um cenário mais amplo, influenciado pelos ideais iluministas e por transformações que ocorriam em outras partes do mundo”, explica, citando processos como a Independência dos Estados Unidos e as revoluções europeias.

Naquele momento, a queda na produção do ouro e a pressão fiscal da Coroa portuguesa, com a ameaça da derrama (imposto forçado e violento, cobrado especialmente em Minas Gerais), alimentavam o descontentamento entre setores da elite mineira. A conspiração, no entanto, não chegou a se concretizar como levante armado e foi desarticulada antes de ganhar as ruas. Ainda assim, o episódio ganharia novos significados ao longo do tempo.

“Pela lente da criação de uma memória nacional, Tiradentes e a Inconfidência são também exemplos de como o Brasil construiu símbolos cívicos, principalmente a partir da República”, afirma Ariane Sá. “A força deles talvez esteja mais aí: no modo como a sociedade escolhe certos eventos para expressar valores, como liberdade, patriotismo e resistência, e silenciar outros que marcaram profundamente a sociedade colonial”, diz.

Essa construção ajuda a explicar alguns dos equívocos mais comuns sobre o período. “Um erro é tratar a Inconfidência como um movimento que precedeu a Independência de forma linear, como se tudo apontasse inevitavelmente para 1822”, afirma a historiadora. “Isso apaga as incertezas do período e o fato de que havia projetos distintos e interesses locais”, pondera.

Na mesma linha, Charriery destaca que compreender o episódio exige observar conexões mais amplas. “É preciso desconstruir a ideia de isolamento e entender a relação com processos internacionais e com a circulação de ideias sobre direitos naturais e organização política”, destaca. A ideia de “liberdade”, frequentemente associada à Inconfidência, também exige cautela. “É preciso perguntar: liberdade para quem? Quem fica de fora?”, questiona Ariane Sá, ao lembrar que o Brasil da época era uma sociedade escravista.

Reflexos em todo o país

O debate ganha novos contornos quando comparado a outros movimentos ocorridos no país, especialmente na Região Nordeste.

Um dos exemplos é a Revolução Pernambucana de 1817, que teve desdobramentos na Paraíba e contou com o jovem paraibano José Peregrino de Carvalho, de 19 anos, como um dos protagonistas. Inicialmente engajado na revolta pela independência, ele acabou convencido a entregar as armas, quando já se percebia que o movimento não prosperaria. O gesto, porém, não lhe garantiu clemência. Preso, foi levado a Recife, condenado à forca e, em seguida, esquartejado. Sua cabeça e seus restos foram expostos em postes públicos de diferentes pontos da cidade, como advertência contra a insurreição.

“Nos dois casos, há crise econômica, insatisfação com impostos e circulação de ideias políticas”, explica Ariane Sá, pontuando uma diferença fundamental. “Mas 1789 ficou na conspiração, enquanto 1817 virou revolta, instaurou um governo e desafiou diretamente a monarquia”. Charriery reforça essa diferença. “Segundo a historiografia, [a Revolução Nordestina] foi o único movimento emancipacionista do período colonial que conseguiu efetivamente tomar o poder, ainda que por pouco tempo, instaurando uma república em Pernambuco”, afirma.

Apesar das semelhanças, o tratamento histórico dado a esses episódios é distinto. “Memória pública é decisão política. Tiradentes foi transformado em símbolo nacional na Primeira República, enquanto 1817 ficou mais marcada como história do Nordeste”, resume Ariane Sá. Na Paraíba, outros episódios ajudam a compreender essa dinâmica. “Movimentos como a Confederação do Equador e o Quebra-Quilos mostram como revoltas ligadas a impostos e participação popular foram tratadas de forma diferente ao longo do tempo”, observa a historiadora.

Atualmente, o cenário internacional é marcado por tensões geopolíticas e disputas por influência econômica e militar. Nesse contexto, surgem comparações com o passado. “A Inconfidência ajuda a pensar como relações de poder desiguais se manifestam, combinando pressão econômica, controle político e diferentes formas de violência”.

Para Charriery, o episódio também pode ser interpretado como referência contemporânea. “Os exemplos inconfidentes podem ser compreendidos como um paradigma de luta contra a opressão fiscal e econômica e contra formas de controle neocolonial”, analisa, destacando debates sobre soberania e organização política. Ao revisitar Tiradentes, as leituras históricas colocam em evidência não apenas o passado, mas os processos que definem como ele é lembrado. “Cada época escolhe seus heróis para dar sentido ao presente”, resume Ariane Sá.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de abril de 2026.