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Pesquisadores redescobrem áreas “escondidas” de JP

Documentos antigos encontrados há apenas alguns anos e tecnologia ajudam a identificar como era a antiga capital

por publicado: 31/07/2022 00h00 última modificação: 01/08/2022 11h29
Exibir carrossel de imagens Imagem: Divulgação Mapa da antiga cidade da Parahyba datado de 1634 faz parte do acervo pesquisado

Mapa da antiga cidade da Parahyba datado de 1634 faz parte do acervo pesquisado

por Nalim Tavares*

 

Um desdobramento de pesquisa com uma série de documentos do século 19, descobertos em 2018 no acervo da Câmara Municipal de João Pessoa, uniu dois professores de diferentes continentes: o professor Ângelo Pessoa, do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e o professor Massimiliano Grava, da Universidade de Pisa, na Itália. Em parceria com o Programa de Pós-Graduação em História da UFPB, os pesquisadores têm alinhado cartografia antiga e informática, a fim de identificar as transformações sofridas no mapa pessoense ao longo dos anos e situar áreas invisibilizadas na trama urbana da cidade — locais onde viviam as classes trabalhadoras e pessoas escravizadas, apagados pelas mudanças que foram sendo verificadas desde o século 19.

Há apenas quatro anos, em um processo de reorganização interna, um arquivista da Câmara Municipal encontrou, por puro acaso, um conjunto de documentos com descrições da João Pessoa de dois séculos atrás, que supostamente estariam perdidos. Associados há muitos outros registros, de diferentes datas e regiões da cidade, esses manuscritos têm ajudado a contar uma parte escondida da história pessoense.

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Professores Ângelo Pessoa, da UFPB, e Massimiliano Grava, da Universidade de Pisa, na Itália
“A ideia é utilizar a cartografia atual, e sobrepor esse mapa ao que temos da cartografia do passado”, explica o pesquisador Massimiliano Grava, que atualmente está em João Pessoa, como professor convidado da UFPB. “Vamos usar esse tipo de tipologia, de informações históricas e referências geográficas, para ver como a cidade mudou, como foi transformada. O professor Pessoa tem mapas de diferentes anos, de diferentes regiões. Assim, seria uma análise de tipo diacrônico”.

O método diacrônico consiste em analisar, através de um tempo relativamente longo, o fluxo contínuo de acontecimentos e mudanças a que um lugar ou evento são submetidos. Essa análise pode ser feita tanto de forma progressiva quanto regressiva no tempo, e é uma excelente forma de verificar os fenômenos e acontecimentos que interagiram com o objeto de estudo ao longo da história. O método, no entanto, exige um vasto trabalho de pesquisa, e uma quantidade significativa de dados. “O professor Massimiliano e eu estamos juntos há vários dias, indo em arquivos, no centro da cidade, no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano”, conta o professor Ângelo Pessoa. “Fomos em um arquivo da prefeitura e fomos no Setor de Geoprocessamento para levantar dados. E já andamos muito pelo Centro, segurando o mapa de 1858, localizando pontos e notando as mudanças nos arredores.”

O mapa de 1858 é uma das principais documentações cartográficas utilizadas para essa pesquisa. A versão original estaria perdida, mas uma cópia feita em 1905 permitiu que vários estudiosos da área trabalhassem com a planta. “A documentação cartográfica, especialmente uma Planta da Cidade da Paraíba, de 1858, de autoria do engenheiro Alfredo de Barros e Vasconcelos, tem sido usada no âmbito desses estudos”, Ângelo diz.

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Além disso, há também uma publicação, intitulada Sete Plantas da Capital Paraibana (1858-1940), de Alberto Sousa e Wylnna Vidal, publicado em 2010, auxiliando no levantamento de dados dos professores. “Esse foi o principal levantamento cartográfico feito mais recentemente, bem como uma publicação dos anos 1980, Iconografia da Paraíba, que levantou a cartografia do período colonial. Estamos partindo desses estudos para seguir um pouco adiante”, Ângelo informa.

O trabalho conta, também, com o Gepehto, um grupo de História do Trabalho do Programa de Pós-Graduação da UFPB, e com o auxílio de uma tecnologia espacial, um sistema de informação geográfica (Geographic Information System - GIS), utilizada pelo professor Massimiliano. “É isso o que nos permite fazer uma geolocalização de informações, fazer uma análise de caráter sincrônico”, ele explana. O GIS, que conecta dados a um mapa, é capaz de fornecer uma base para mapeamento e análise, que ajuda a entender padrões e um determinado contexto geográfico. Através do sistema, é possível ter acesso a todo tipo de informações descritivas, e construir diversas camadas de imagens de um mesmo local, com os dados e análises pertinentes ao objeto de estudo. “Distâncias entre construções, avenidas, onde estavam localizadas, em que região, como estão, análises de produção…tudo isso em camadas de mapa 2D.” O professor Ângelo complementa: “É uma história visual das transformações da cidade, ao longo de mais de 150 anos. A gente vai ver esse mapa em movimento.”

“Estamos utilizando as informações produzidas aqui em João Pessoa, pelo Setor de Geoprocessamento da prefeitura, porque queremos produzir dados que possam conversar com os que se produzem atualmente, de forma que esse mapa imenso, de um trabalho colaborativo, possa somar”, relata Massimiliano.

Desbravando ruas perdidas; áreas pobres não “sobreviveram”

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Um dos enfoques da pesquisa dos professores Ângelo Pessoa e Massimiliano Grava é tentar localizar áreas invisibilizadas por todas as mudanças que aconteceram em João Pessoa, em um período de, pelo menos, dois séculos. “Estamos buscando situar certos lugares pouco visíveis na trama urbana da cidade, especialmente os que dizem respeito às marcas da presença das populações trabalhadoras e escravizadas, cuja maior parte está apagada pelas mudanças urbanas.”, conta o professor Pessoa. “Há áreas ‘invisíveis’, como a Rua da Palha, Rua da Ponte e algumas outras, que foram regiões de habitação e circulação dessa população mais pobre. O patrimônio edificado preservado em geral testemunha os segmentos sociais mais abastados, ou as instituições mais destacadas.”

O pesquisador explica que as construções remanescentes dos séculos 18, 19 e 20, usualmente, são instituições e construções governamentais, igrejas, casarões e sobrados das famílias endinheiradas. “Você imagine: uma casa de palha, depois de 200 anos, não está mais no lugar. Mas pela cartografia, pela denominação de algumas ruas, a gente tem como saber que elas estiveram lá. Seguindo as poucas pistas, pesquisando em documentos, a gente tem como tentar localizar onde essa população se situava.”

Uma das áreas localizadas é, atualmente, a Rua Irineu Ferreira Pinto. Ângelo conta que, “na época, essa rua se chamava Rua da Palha, porque as casas ali eram feitas de barro e palha. Um outro caso, por exemplo, é essa região da Lagoa, que não está cartografada no mapa de 1858. Mas sabe-se, por relatos, que havia aqui moradias de pessoas pobres.”

O trabalho de campo realizado a fim de coletar dados para a pesquisa também tem sido bastante extenso. “É preciso analisar, por exemplo, os declives. Aqui na Rua da Areia, por exemplo. As ladeiras são muito íngremes, e essa posição dela é interessante. Como os carros eram de tração animal, você precisava de uma subida suave para não estafar os animais. Imagina colocar uma carroça para subir aquela ladeira da Casa da Pólvora? A mercadoria cai, o animal morre, machuca alguém lá embaixo.” Nas palavras do pesquisador: “Essa era uma cidade onde não havia automóveis, e a cidade era desenhada sob essa lógica. As ladeiras eram mais suaves. Hoje, temos automóveis. Então as ruas vão ser alargadas, e muitas demolições vão acontecer para possibilitar esse alargamento, além dos viadutos que vão surgir.”

Os professores contam que existem alguns documentos com detalhadas descrições da cidade, feitos por portugueses e holandeses, e registros antigos da Câmara Municipal, que antigamente desempenhava a função da prefeitura. “Nós achamos um documento muito interessante, de 1825, que havia dessa região, dessa rua, que hoje em dia chama-se Maciel Pinheiro. Um padre mandou cercar as terras aqui do Varadouro, dizendo que eram dele. E começou a cobrar um pagamento em dinheiro do povo que tinha roças aqui, que plantava coco, que fazia pescaria, tinha uma série de atividades sendo desenvolvidas nesse local”, Ângelo conta. “Tinha uma cacimba, que fornecia água para o povo. O padre cerca a cacimba e começa a cobrar pela água. Aí a confusão começou. Mas isso é uma história fragmentada, escondida por trás dos grandes nomes. E tudo bem, a gente não vai dizer que os grandes nomes não têm importância na história, porque eles tem sim, esse povo todo é importante”, diz o professor. “Mas tem o outro lado, menos visível, que a gente pode procurar, retomar e dar visão. Os trabalhadores constroem a história, mas costumam ser escondidos. Agora, o enigma é saber onde foram parar essas populações pobres.”

Sobre os documentos encontrados em 2018, o professor fala: “Não é uma quantidade imensa de documentos, é relativamente pequena. Mas nos dá uma ideia muito rica do que deve ter existido, e você acha pequenas informações que acabam vindo para esses mapas. Por exemplo, você acha uma pessoa pedindo autorização para construir um trapiche no lugar do Zumbi, aqui próximo ao Porto do Capim. Você acha informações sobre uma ponte caindo em tal lugar que precisa de reparos. Então, você consegue ver um pouco, digamos assim, as pessoas se movendo no cenário. Infelizmente, são fragmentos. Mas, para quem não tem nada, um fragmento é um universo.”

Ao longo da pesquisa e após o gerenciamento dos dados alcançados, os professores esperam que mais elementos sujam, para adicionar informação a pesquisas futuras, que continuarão a ser desenvolvidas na capital pessoense. “Temos que juntar diferentes peças para construir o quebra-cabeças”, diz Massimiliano.

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Mapa da antiga cidade da Parahyba datado de 1634 faz parte do acervo pesquisado

Curso do professor Grava
Em agosto, o pesquisador Massimiliano Grava vai ministrar um curso na UFPB, sobre Cartografia Histórica e Informática, utilizando os dados coletados ao longo da pesquisa que atualmente está sendo desenvolvida em João Pessoa, aliados à tecnologia GIS. As inscrições para o curso encerraram em apenas duas horas. A coordenação do Departamento está trabalhando, junto com o professor Massimiliano, a possibilidade de uma segunda turma.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 31 de julho de 2022.

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