O acesso à informação pode determinar o rumo de uma vida. Por meio da educação em Direitos Humanos, por exemplo, o caminho à Justiça é facilitado e encontram-se meios para reduzir desigualdades e combater a violência. É com esse objetivo que surge o projeto Defensoras Populares, iniciativa nacional lançada na Paraíba com o propósito de capacitar 120 mulheres para reconhecer situações de risco, perpetuar conhecimentos e fortalecer a rede de proteção, especialmente, em territórios mais vulneráveis, aproximando-os dos serviços públicos.
Lançado oficialmente em março deste ano, o Defensoras Populares surgiu mediante o programa pátrio Antes que Aconteça, em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e vinculado ao Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio. A ação também conta com o apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e com a participação de instituições estaduais, como a Defensoria Pública do Estado (DPE-PB), para promover oito meses de formação híbrida para as participantes, que receberão uma bolsa de R$ 700 reais ao longo do curso.
De acordo com a senadora Daniella Ribeiro, coordenadora do projeto Antes que Aconteça, a iniciativa surge para levar informação, orientação e acolhimento para dentro das comunidades. As Defensoras Populares, mulheres que vivem ou já viveram em situação de vulnerabilidade, serão uma ponte entre os canais de denúncia, as redes de apoio e as pessoas que precisam, ajudando a prevenir e combater a violência. “A formação proposta não se trata, apenas, de transmitir conteúdo, mas de construir consciência, fortalecer lideranças e ampliar o acesso à informação qualificada, para que essas mulheres possam se tornar referências em suas comunidades, apoiando outras na busca por direitos, proteção e acesso à rede de atendimento,” diz a senadora. 
A seleção das defensoras ocorreu a partir de um edital, além de análise curricular e relato histórico das participantes. Para Daniella, a pluralidade de experiências é muito valorizada dentro do projeto, que é composto, majoritariamente, por mulheres que já atuavam em prol de causas sociais. “Também é importante destacar a diversidade territorial: o grupo inclui mulheres de áreas urbanas, rurais e de comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, pesqueiras e ciganas,” explica.
Atualmente, o primeiro grupo de defensoras está finalizando o Módulo 1 do curso, que trabalha a participação das mulheres na conquista da democracia, a fim de estabelecer uma base histórica e política que ressalte a importância da atuação delas. A formação é composta por videoaulas, encontros síncronos que promovem troca de saberes e por momentos de estudo individual, que ajudam na consolidação da aprendizagem. A previsão é que o curso seja concluído em novembro deste ano e, ao longo deste período, as cursistas serão apresentadas aos instrumentos que compõem a rede de segurança e apoio à disposição da sociedade.
“Essa formação tem impacto não apenas individual, mas coletivo. Cada mulher que participa do projeto amplia sua capacidade de compreensão sobre direitos e políticas públicas, e também passa a ter mais condições de orientar, acolher e encaminhar demandas em sua comunidade,” afirma Daniella Ribeiro. Segundo ela, esse caráter cooperativo, que visa o bem-estar coletivo, é uma das maiores forças do projeto Defensoras Populares.
Por isso, pensando em ampliar, cada vez mais, o alcance da iniciativa, a senadora revela que, em breve, haverá o lançamento de um novo edital, desta vez para um projeto intitulado Jovens Defensores, que segue linha semelhante ao Defensoras Populares: informar, capacitar e desenvolver o pensamento crítico dos jovens, com o objetivo de torná-los cidadãos conscientes de seus direitos na sociedade.
Curso une conhecimento formal à vivência das participantes
Ao investir na educação em Direitos Humanos, o Defensoras Populares procura unir o conhecimento institucionalizado, formal e prático, àquele adquirido pelas participantes por intermédio de suas vivências. Com base na experiência, espera-se que as 120 mulheres que compõem esse projeto sejam capazes de se aproximar de pessoas em vulnerabilidade, e de acolhê-las com empatia e compreensão, guiando-as para a rede de proteção do Estado.

- Carolina Vieira (C) integra o projeto e sonha em construir uma sociedade mais igualitária | Foto: Arquivo pessoal/Carolina Vieira dos Santos
Entre as participantes, está a publicitária e ativista Carolina Vieira dos Santos, vice-presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Paraíba (CEDD-PB). Ela conta que, em 2017, sofreu um acidente de trânsito que deixou sequelas de paraplegia e, desde então, tem se empenhado para construir uma sociedade mais plural e inclusiva.
“Também sou mãe de coração, de um rapaz com Deficiência Intelectual (DI) e que está no transtorno do espectro autista (TEA), vítima de violência física da mãe biológica. Quis participar do Defensoras Populares por crer que, com o apoio e mentoria das profissionais que coordenam o projeto, vou melhorar minha atuação nos segmentos aos quais pertenço, para ajudar a construir uma sociedade mais igualitária,” ela relata.
Mulher negra e moradora da periferia, Carolina fala que já sofreu diversas formas de discriminação e entende que a formação proporcionada pelo projeto vai agregar às ações que executa no seu cotidiano de ativismo. “Através dessa formação, eu não apenas amplio o meu acesso às políticas públicas, como também consigo levar outras pessoas para esses espaços comigo. É preciso que se amplie, cada vez mais, o conhecimento e o protagonismo de mulheres que, por exemplo, são como eu, negras, com deficiência e moradoras de comunidade, para que esse grupo saia da condição de invisibilidade e alcance a justiça social,” anuncia.
Encarando a jornada junto com Carolina, está a empreendedora social, mãe e artista visual Fany Miranda, atual presidenta da Associação de Mulheres Empreendedoras da Paraíba (AME-PB) e fundadora da ONG Jampa Invisível, voltada ao apoio de pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social. Para ela, “o curso vem sendo desenvolvido de forma muito dinâmica, com encontros, debates, reflexões e atividades práticas que conectam teoria e realidade. Isso faz com que cada aprendizado possa ser aplicado diretamente nas comunidades, ampliando nossa capacidade de orientar, acolher e transformar vidas,” defende a artista.
Agentes de mudança
Segundo Fany, ver redes de proteção sendo fortalecidas e ampliadas é um sinal de esperança, força coletiva e avanço social. “Formar lideranças femininas significa multiplicar conhecimento, ampliar vozes que historicamente foram silenciadas e criar referências positivas dentro dos territórios. Mulheres preparadas se tornam agentes de mudança, capazes de acolher, mobilizar e abrir caminhos para tantas outras,” declara.
Ao longo de sua trajetória, Fany conta que sempre buscou orientar mulheres para que desenvolvessem suas capacidades, conquistassem independência financeira e ocupassem espaços com mais segurança e confiança. “Esse é um caminho importante de enfrentamento à violência, especialmente quando falamos sobre vulnerabilidade social, dependência econômica e silenciamento feminino. Hoje, me sinto ainda mais preparada para unir empreendedorismo, cidadania e defesa de direitos, contribuindo para que mais pessoas rompam ciclos de violência e construam novos caminhos.” Para ela, o Defensoras Populares é um projeto que representa um avanço significativo no enfrentamento às desigualdades, ao procurar garantir que nenhuma mulher precise lidar sozinha com situações de violência ou exclusão.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de maio de 2026.