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esporotricose humana

Quantidade de casos diminui 25%

publicado: 25/03/2026 08h53, última modificação: 25/03/2026 08h53
No ano passado, foram registradas 52 ocorrências no estado; infecção é causada pela ação do fungo Sporothrix
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Um dos principais vetores de transmissão da doença para os humanos são os gatos contaminados | Foto: Carlos Rodrigo

por Camila Monteiro*

De janeiro a 6 de março deste ano, a Paraíba registrou 52 casos de esporotricose em humanos — uma redução de quase 25% no número de casos em comparação ao mesmo período do ano passado, quando foram contabilizadas 69 ocorrências.

De acordo com o médico infectologista André Luís Celestino, a esporotricose é uma infecção provocada pelo fungo Sporothrix. A doença atinge tanto pessoas quanto animais, sendo o gato doméstico um dos principais afetados. Por isso, é classificada como zoonose, ou seja, pode ser transmitida para animais e humanos. A infecção ocorre, principalmente, por arranhões ou mordidas de felinos contaminados, além do contato com solo infectado. Historicamente, a enfermidade era associada ao manuseio da terra, já que o fungo vive, naturalmente, nesse tipo de ambiente, o que expõe trabalhadores rurais e jardineiros, em função do tipo de trabalho executado, a um maior risco de contaminação que se desenvolve por meio de ferimentos.

O sintoma mais comum é o surgimento de lesões cutâneas. “São úlceras que se formam na pele e, caracteristicamente, evoluem em forma de um caminho”, explicou o especialista. Esse padrão é conhecido como “ferida em rosário”. Inicialmente, surge um nódulo avermelhado no ponto de entrada do fungo, que pode evoluir para uma ferida aberta. Com o tempo, novos nódulos aparecem ao longo dos vasos linfáticos, geralmente nos braços ou nas pernas.

Foi justamente esse padrão de lesão que fez a médica-veterinária Marina Spinelli suspeitar que estava com a doença. “Eu comecei com um ferimento no braço que não cicatrizava. Percebi, por causa do tipo de lesão, que era arredondada e em fileira, indício de que poderia ser esporotricose. Quando fui ao médico, ele concluiu o diagnóstico”.

Em pessoas com imunidade comprometida, a doença pode evoluir para a forma disseminada, atingindo diferentes órgãos como pulmões, ossos, articulações e o sistema nervoso central. Nesses casos, podem surgir sintomas como tosse, falta de ar, febre, mal-estar e comprometimento de órgãos internos.

O diagnóstico, considerado padrão-ouro, é realizado por meio da cultura do fungo, a partir da secreção das lesões ou de outros locais afetados. “Suspeitamos quando o paciente apresenta uma ferida que não melhora, mesmo após o uso de antibióticos. Com a cultura, conseguimos confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento adequado”, destacou o médico.

A esporotricose tem cura e o tratamento é ofertado pelo Ministério da Saúde de forma gratuita. Também é possível buscar atendimento por meio das secretarias de saúde dos municípios, mediante as unidades básicas de saúde (UBS). O tratamento é feito com antifúngicos. “O itraconazol é a principal escolha, mas há outras opções, como terbinafina, iodeto de potássio e, em casos mais graves, a anfotericina B”, detalhou o infectologista.

A prevenção passa por cuidados simples, especialmente ao lidar com o solo. O uso de luvas e outros equipamentos de proteção é recomendado durante atividades como jardinagem. Além disso, segundo André Luís, tratar animais infectados é fundamental para conter a transmissão.

Caráter zoonótico

Nos gatos, os sinais mais frequentes incluem lesões ulceradas, principalmente na face, focinho e patas, feridas de difícil cicatrização, secreção purulenta, inchaço, espirros e secreção nasal quando há comprometimento das mucosas. Em estágios avançados, também pode ocorrer emagrecimento e fraqueza.

De acordo com o médico- -veterinário Paulo Wbiratan Lopes, os felinos desempenham papel importante na transmissão, pois eliminam grande quantidade de fungos pelas lesões e secreções. Contudo, o especialista ressalta que “o gato não é o vilão”, destacando, também, a existência de tratamento para a doença e a importância do diagnóstico precoce, fundamental para melhorar, significativamente, o prognóstico. Levar o animal ao veterinário, portanto, é uma atitude tanto de cuidado tanto com o próprio pet quanto com a saúde pública, de um modo geral.

Capacitações

A Secretaria de Estado da Saúde (SES) promoveu, no início deste mês, uma série de capacitações com o objetivo de ampliar, para todo o estado, a coleta do exame de detecção da esporotricose. A iniciativa foi realizada em parceria com o Laboratório Central da Paraíba (Lacen-PB).

A proposta é descentralizar a coleta do material, permitindo que ela seja realizada nos próprios municípios. Após a coleta, as amostras serão encaminhadas ao Lacen-PB, em João Pessoa, onde serão analisadas.

Para a técnica responsável pela esporotricose da SES, Petrúcia Matos, a descentralização é um avanço para o diagnóstico e tratamento da doença. “Uma das nossas preocupações é que, hoje, a maioria dos diagnósticos é clínico e, como a doença tem sintomas semelhantes a outros agravos, muitas vezes o diagnóstico pode ser equivocado. Daí a importância do exame laboratorial que proporciona um resultado mais seguro. Além disso, com essas capacitações de profissionais que trabalham em diversas cidades do território estadual, vamos diminuir a quantidade de deslocamento dos pacientes do interior para a capital, com o objetivo de fazer o exame”, disse.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de março de 2026.