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Quatro cursos ficam abaixo da média

publicado: 21/01/2026 08h41, última modificação: 21/01/2026 08h43
Com nota 2 no Enamed, faculdades privadas deverão passar por supervisão e medidas cautelares do MEC
COBRANÇA DE ESTACIONAMENTO DA UNIPÊ-F-ORTILO ANTÔNIO (24).JPG

Um dos cursos de Medicina com desempenho insatisfatório na Paraíba foi o da Unipê | Foto: Ortilo Antônio

por Samantha Pimentel*

Divulgados na última segunda-feira (19), os dados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025 apontam que, dos nove cursos de Medicina existentes na Paraíba, quatro — cerca de 44% — apresentaram desempenho insatisfatório. Todas as instituições que obtiveram resultados negativos são privadas, e receberam nota 2, em uma escala de 1 a 5. Com isso, deverão passar por supervisão e sofrer medidas cautelares da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres), do Ministério da Educação (MEC).

Das cinco graduações com desempenho satisfatório no estado (aproximadamente 55%), três são públicas, todas computaram nota 4, e duas são privadas, com nota 3. Os cursos com avaliação insatisfatória estão vinculados ao Unipê — Centro Universitário de João Pessoa; à Faculdade de Medicina Nova Esperança (Famene), em João Pessoa; à Afya — Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba, em Cabedelo; e à Unifacisa, em Campina Grande. Já os cursos que alcançaram conceito regular (nota 3) são o Unifip, em Patos, e o Centro Universitário Santa Maria (UNIFSM), em Cajazeiras. O conceito 4, considerado bom, foi atribuído à Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, e à Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), tanto no campus sede quanto no Campus Cajazeiras.

Os resultados da Paraíba acompanham a tendência nacional, na qual as instituições públicas concentram as notas mais elevadas. Em todo o país, 351 cursos de Medicina participaram do Enamed 2025. Os melhores desempenhos foram registrados entre os 6.502 estudantes de instituições federais, com média de 83,1% de proficiência, seguidos pelos 2.402 alunos de universidades estaduais, que alcançaram média de 86,6%. Os piores resultados foram observados entre os 944 estudantes da rede municipal, com média de 49,7% da pontuação máxima, considerada insuficiente pelo exame. Já os 15.409 alunos da rede privada com fins lucrativos obtiveram média de apenas 57,2% da pontuação total.

Para o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), José Geraldo Ticianeli, os dados confirmam o potencial da universidade pública, que vai além da sala de aula. Segundo ele, nas instituições federais, a formação médica está diretamente integrada à pesquisa e à extensão, o que contribui para a qualidade do ensino. Ticianeli ressalta, ainda, que é nessas universidades que surgem respostas concretas para a sociedade, como o desenvolvimento de vacinas, pesquisas em tratamentos inovadores contra doenças como o câncer e soluções na área da Saúde. Ele destaca também o papel das universidades públicas na formação de profissionais que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de hospitais universitários, clínicas e projetos de extensão. Mesmo diante de limitações de recursos e infraestrutura, afirma, as instituições públicas mantêm qualidade e compromisso social, resultado do trabalho de professores, técnicos e estudantes, reforçando a importância do investimento na Educação Superior pública.

A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), que havia ingressado com ação para impedir a divulgação das notas do Enamed 2025 — pedido negado pela Justiça —, informou, por meio de nota, que recorreu judicialmente  após a confirmação de divergências entre os dados apresentados às entidades em dezembro passado, pelo MEC às Instituições de Ensino Superior e os números divulgados, nesta semana, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A associação afirma que aguarda esclarecimentos técnicos antes de se posicionar de forma conclusiva. A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) também se manifestou, demonstrando preocupação com a condução adotada pelo MEC e com a aplicação imediata dos resultados para fins punitivos.

Conforme a Abmes, a primeira edição do Enamed ocorreu sem ampla divulgação prévia de seus critérios e das consequências associadas aos resultados. Para a entidade, a consolidação dessas regras apenas após a aplicação da prova fere princípios de previsibilidade, transparência e segurança jurídica que devem orientar as políticas públicas de avaliação educacional. A associação defende que os resultados do Enamed 2025 sejam tratados como um diagnóstico inicial, voltado ao aperfeiçoamento das próximas edições, com a suspensão imediata dos efeitos punitivos anunciados.

Entre as instituições privadas da Paraíba com desempenho insatisfatório, a Unifacisa divulgou nota oficial informando que entrou em contato com o MEC e que acredita na retificação dos dados. A instituição afirma que mais de 70% de seus estudantes atingiram proficiência na prova, o que, segundo os resultados individuais divulgados em dezembro de 2025, a classificaria como conceito três. A Famene optou por não se pronunciar, enquanto Unipê e Afya não responderam aos contatos da reportagem.

Classificados na faixa dois, os cursos paraibanos com desempenho insatisfatório deverão sofrer medidas cautelares. A Unifacisa, com proficiência de 59,9%, e o Unipê, com 56,9%, devem ser submetidos à proibição de aumento de vagas, sem sanções adicionais. Já a Famene, com 45,6%, e a Afya, com 42,5%, por não atingir 50% de proficiência, terão redução de 25% das vagas, além de ficarem impedidas de ampliar a oferta e de participar do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e de outros programas federais. Caberá à Seres-MEC notificar as instituições sobre a instauração de processo administrativo de supervisão, garantindo prazo de 30 dias para manifestação e eventual solicitação de tempo para sanar as deficiências apontadas. As medidas permanecem válidas até a publicação do Conceito Enade 2026.

Conselho Regional diz acolher os dados com atenção e preocupação

Em todo o país, 99 cursos de Medicina (32%) obtiveram conceitos 1 e 2 do Enamed 2025, o que indica que menos de 60% de seus estudantes apresentaram desempenho considerado adequado no exame. Na Paraíba, esse índice ficou acima da média nacional, com mais de 40% dos cursos avaliados apresentando desempenho insatisfatório.

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB) e integrante do Conselho Federal de Medicina (CFM), Bruno Leandro de Souza, os dados devem ser analisados com atenção e preocupação. Segundo ele, os resultados reafirmam uma tendência já observada em avaliações nacionais anteriores: a existência de fragilidades relevantes na formação médica, especialmente em parte dos cursos ofertados no país. “O fato de, entre os nove cursos de Medicina existentes na Paraíba, quatro terem obtido nota 2 — considerada insuficiente — é um dado que não pode ser relativizado, pois aponta para possíveis deficiências estruturais, pedagógicas e assistenciais no processo formativo desses futuros profissionais”, alerta.

O presidente do CRM-PB destaca, ainda, que o predomínio de instituições públicas entre as mais bem avaliadas em todo o país reforça a importância da adoção de critérios rigorosos para a abertura, o funcionamento e a avaliação contínua dos cursos de Medicina, sejam eles públicos ou privados. Para ele, os resultados também evidenciam que a expansão desordenada, sem a devida garantia de qualidade, tende a impactar negativamente a formação médica e a repercutir diretamente na sociedade. “Uma formação inadequada compromete a segurança do paciente, a qualidade da assistência prestada e a própria confiança da população no sistema de saúde. A Medicina é uma atividade de alta complexidade e elevado risco, que exige sólida base científica, formação ética consistente e treinamento prático supervisionado em cenários adequados”, ressalta.

Bruno Leandro reforça que a avaliação do Enamed não deve ser encarada como punição, mas como um mecanismo que permite às instituições identificar falhas e corrigi-las. Ele também reafirma a necessidade, defendida pelo Sistema de Conselhos, da criação de uma Prova de Proficiência Nacional para o exercício da profissão. “Essa medida busca assegurar que médicos com formação insuficiente não ingressem automaticamente no mercado de trabalho, atendendo a população sem a devida qualificação técnica e ética. Trata-se de uma iniciativa alinhada ao interesse público, à segurança do paciente e à valorização da boa Medicina”, conclui.

Exame

Criado em abril de 2025, por meio de portaria do Ministério da Educação (MEC), o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) é uma adaptação do Exame Nacional de Avaliação dos Estudantes (Enade) voltada aos concluintes do curso de Medicina. O objetivo é avaliar a qualidade da formação médica no Brasil. A prova é obrigatória, e o resultado obtido pelos estudantes pode ser utilizado no ingresso em programas de residência médica unificados pelo MEC e organizados pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), por meio do Exame Nacional de Residência (Enare).

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de janeiro de 2026.