Mesmo com a alta temperatura registrada nas últimas semanas, com a chegada do verão e das férias e, consequentemente, com o maior consumo de água, não há risco de crise hídrica na Paraíba. Essas são as palavras do gerente de Hidrometereologia e Eventos Extremos da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa), Alexandre Magno. O estado conta com 135 reservatórios de água — como açudes e barragens.
De acordo com o monitoramento do órgão, realizado em 17 de dezembro, a Paraíba apresentava dois reservatórios sangrando: os açudes Poções e São José II, localizados no município de Monteiro. Ainda havia outros 91 em situação de normalidade e mais 19 em estado de observação. “De um modo geral, estamos em situação confortável. O período chuvoso foi normal, acima da média em muitos pontos. Apresentou certa irregularidade no final, mas nada que trouxesse situação crítica. O estado não tem passado por esse tipo de situação nos últimos anos. Nós podemos ter uma situação crítica, por exemplo, se até março não chover”, coloca Magno.
Ele acrescentou que, “se a partir de março, ou meados de abril, não ocorrerem as chuvas de recuperação, grande parte dos reservatórios da região semiárida — que são de pequeno porte — entra em colapso”. “Aí haveria uma situação crítica para essa região, em virtude da falta de aumento do reservatório. Mas que ainda não ocorreu. A situação crítica se caracterizaria mais entre um período de chuvas e outro”, coloca.
Os 23 reservatórios restantes, quase 20% do total existentes no estado, estavam indicados pela Aesa como em “situação crítica”. Porém, Alexandre explica que eles não necessariamente afetam o abastecimento da população ou isso significa que a reserva está com algum problema. Ele contou que há reservatórios pequenos, feitos para durar cerca de um ano. Isso não quer dizer que a área sofrerá sem água, mas que a “situação crítica” faz parte da vida útil da reserva.
“Reservatórios podem ser de pequeno porte e serem construídos pra suportar apenas um ano. Essa é a capacidade dele para o local. Não significa que vá passar dois, três anos cheio, de forma nenhuma. E, quando você aumenta o consumo, essa capacidade de evoluir para volumes baixos aumenta mais rápido. Não dá para pegar um reservatório de 10 mil m³ e dizer que ele está em situação crítica. Não, ele está na situação normal dele. Só que está seco”, explica o gerente.
Evaporação impacta mais do que o consumo humano
O gerente de Hidrometereologia e Eventos Extremos da Aesa, Alexandre Magno, afirmou que o grande problema do verão para as estações hídricas não é o impacto do aumento do consumo de água nos reservatórios, como pode-se pensar, mas o nível de evaporação. “O consumo humano é desprezível em relação à evaporação. Por outro lado, há uma maior evaporação durante o verão, e isso equivale, relativamente, ao dobro ou triplo do impacto do consumo humano no reservatório”, explica Alexandre.
De todo modo, após a estação mais quente do ano, é comum a regularidade das precipitações de chuvas para repor o volume evaporado e utilizado pela população. No caso do Cariri, Curimataú e Sertão, os meses de chuvas são de fevereiro a maio. De abril a julho, por sua vez, é o momento de mais precipitações no Agreste, Brejo e Litoral. Segundo Alexandre, desde 2020, a quantidade de chuva tem ajudado muito a Paraíba. “De 2020 até agora, nós entramos em um período de abundância de recursos hídricos e de chuvas acima da média. A variabilidade de chuva do Nordeste é comum, mas esse período que vem desde 2017, quando ocorreu a última grande estiagem, nós tivemos períodos normais e acima da média, de 2018 a 2020. ‘Acima da média’ não significa a plenitude da recuperação dos reservatórios, mas sim uma situação mais confortável”, declara Magno.
Capital e CG
No dia 17 de dezembro de 2024, o site da Aesa indicava que o Açude Gramame/Mamuaba, que abastece a Grande João Pessoa, constava de cerca de 70% de volume, enquanto Boqueirão, que abastece Campina Grande e cidades vizinhas, marcava 51,5% de volume. “A situação de Gramame/Mamuaba e Boqueirão está muito confortável, com volumes acima de 50%. Boqueirão entrou em colapso faz 10 anos, praticamente, mas hoje alcançou a chamada redenção hídrica. Boqueirão não tem problema de abastecimento de colapso urbano para Campina Grande, já que ele está dentro do Rio São Francisco, com a vazão mínima de 2 a 4 m/s [metros por segundo], completando a água que sai do reservatório”, coloca o gerente.
Maiores Reservatórios
- Barragem Coremas/Mãe d’Água: localizada no Sertão e com capacidade hídrica de mais de 1,3 bilhão de m³, a maior do estado e a quinta maior do Brasil;
- Açude Epitácio Pessoa, mais conhecido como Boqueirão, localizado no Cariri e responsável por abastecer Campina Grande e cidades vizinhas, com mais de 400 milhões de m³;
- Barragem Engenheiro Ávidos, ou Boqueirão de Piranhas, em Cajazeiras, com capacidade em torno de 255 milhões de m³;
- Açude Argemiro de Figueiredo, ou Acauã, no município de Itatuba, abastece o Agreste, e reúne, aproximadamente, 253 milhões de m³;
- Açude Gramame-Mamuaba, que abastece a Grande João Pessoa, com 56 milhões de m³;
- Barragem de Farinha, em Patos, com mais de 25 milhões de m³ de capacidade;
- Açude Marés, também responsável por abastecer a Grande João Pessoa e que condensa cerca de 2 milhões de m³.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa 21 de dezembro de 2024.