Viagens perdidas, atendimentos precários e atrasos para agendar consultas e exames. Essas são as principais queixas de quem procura os serviços da Unidade de Saúde da Família (USF) Integrada Colinas do Sul II, em Gramame, que também atende as comunidades Irmã Dulce e Portal da Colina, na Zona Sul da capital. Ter acesso à saúde, para os usuários da USF, exige paciência — ou um deslocamento maior para outra unidade de assistência médica, como é o caso de Valdenora da Cruz, moradora do bairro Portal do Sol.
“Quando você precisa de um remédio controlado, dão um prazo de três dias para vir pegar. Mas, quando a pessoa chega, ele ainda não está pronto. Agora mesmo eu vim saber se consigo um laudo para meu netinho, porque não sei se vai ser logo e tenho pressa para receber o leite especial dele. [Itens da] farmácia é melhor buscar em outro lugar; eu mesma vou para um lugar mais longe. É tanto que o [exame] citológico eu faço no Sesc Gravatá. Vou atrás da secretaria e já fui várias vezes, estava até envergonhada. Quando eu chego lá, todo mundo já sabe quem eu sou. Me humilhar é pouco. Eu pareço um carrapato, aquele mais pegajoso do mundo”, desabafa Valdenora.
Essa espera, segundo ela, também afeta o período para a liberação de procedimentos médicos de rotina, a exemplo de avaliações e exames preventivos. A moradora só conseguiu realizar uma mamografia e um ultrassom transvaginal recentemente, um ano depois do encaminhamento médico inicial. “Eu pedi uma ressonância do meu crânio. Já faz dois anos, mas ainda não foi liberada”, afirma.
Outra usuária, Cíntia Amorim, relata obstáculos quando tenta se consultar. Mãe de Chloe, de 10 meses, ela aguardava a chegada da ginecologista, sem saber se o atendimento realmente ocorreria. A chave da sala da médica estava perdida e, caso a equipe não a encontrasse, os acompanhamentos do dia seriam suspensos.
“A gente chegou logo cedo para pegar a ficha. Não acharam a chave. Está todo mundo aqui esperando. Da outra vez, para marcar o psicólogo, eu vim quatro vezes e não consegui. Agora, a gente marcou e não tem a chave da porta. É sempre assim: [a gente] dá viagem perdida e não tem nenhuma solução. Até para dar vacina [à filha], eu precisei vir umas cinco vezes aqui”, lembra.
De acordo com os moradores, essa precariedade abrange todo o funcionamento da USF. As alegações apontam volume de atendimentos insuficientes, quadros médicos reduzidos e situações de troca de exames, quando uma pessoa recebe um diagnóstico de outra. Rosilda Fernandes, que mora no bairro Colinas do Sul, carrega uma insatisfação de anos com os serviços prestados na unidade.
“Eu venho todo mês, mas é do mesmo jeito. Falta médico. Um dia vem, outro dia não vem. O atendimento é péssimo. A gente chega pedindo informação e não sabem. Como é que você trabalha em um posto médico e não sabe informar? É na recepção, é em sala, é em tudo. É muita falta de atenção. A farmacêutica um dia está, outro dia não está. Às vezes, a gente vem e tem. Outras vezes, não tem e mandam ir para outro posto”, revela.
Respostas
Questionado sobre as denúncias, o gerente da USF, Breno Rufino, informou que três equipes atuam no local. Dentre elas, apenas uma não consta com um médico no quadro de funcionários, diante do deslocamento de uma profissional para um programa de residência médica. Durante a semana, os dois outros times e reforços de unidades vizinhas dão continuidade aos atendimentos para evitar que a população e os servidores fiquem desassistidos.
“Toda unidade de saúde, hoje, tem um cronograma de atendimento. Ele é exposto na porta da sala da médica e é repassado a esses usuários, por meio de grupos de WhatsApp, pelos próprios agentes comunitários de saúde. Muitas vezes, esses pacientes vêm no horário em que a médica não está no cronograma, mas está em uma visita domiciliar ou atendendo pré-natal. Nesse caso, a unidade tenta rearticular o atendimento desse paciente para que ele não saia prejudicado. Mas nem sempre isso vai ser possível e ele vai ter que voltar. Se veio de manhã, às vezes é orientado a retornar no período da tarde para ser atendido. Existe um cronograma e um horário a ser cumprido”, explica.
Breno assegura que todos os procedimentos solicitados são inseridos no sistema no prazo de dois a três dias. A liberação de exames, a partir disso, depende da avaliação de um médico regulador externo à USF. “Por dia, a gente recebe em torno de 50 procedimentos. O que pode acontecer é o paciente passar pela médica da unidade e ela solicitar esse atendimento, consulta ou exame com urgência, só que, pela descrição, o médico regulador [pode] não ver um caso urgente e mude a classificação. É aí quando pode ou não demorar. Não é a unidade que demora na liberação”, detalha.
No centro médico, reposições de medicamentos acontecem semanalmente às terças-feiras. Se houver um atraso na rota dos caminhões responsáveis pela distribuição, as entregas ocorrem no dia seguinte. A farmácia, então, precisa conferir caixa por caixa, a fim de verificar, contabilizar e cadastrar os pedidos antes de dispensar as medicações, motivo para uma espera maior dos pacientes. “Mas, até o presente momento, não está havendo atraso de entrega ou falta de medicação. Da lista que a unidade de saúde recebe, de todas as medicações que são fornecidas, graças a Deus, não tem falta. Continua em ordem”, reforça.
Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde esclareceu que a farmácia da USF segue funcionando normalmente, visando garantir a entrega dos medicamentos disponíveis na rede. O órgão também explicou que adotou os procedimentos para preencher a vaga para médico aberta em uma das equipes da unidade.
“O profissional encontra-
-se em processo de contratação. Enquanto isso, os demais serviços ofertados pela unidade seguem funcionando regularmente. Quanto à eventual falta de medicamentos, a secretaria solicita que o usuário informe qual item procurou e não conseguiu obter, para que a situação possa ser verificada com maior precisão e sejam prestados os esclarecimentos necessários”, informa.
A USF Integrada Colinas do Sul II está localizada na Rua Aposentado Manoel Justino de Lima, nº 86, em Gramame. Ela funciona das 7h às 16h, com horário de acolhimento e triagem das 7h às 7h30.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de junho de 2026.