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afastamentos de trabalhadores

Transtornos mentais são maior causa

publicado: 14/04/2026 08h50, última modificação: 14/04/2026 09h32
Campanha do MPT-PB alerta para a necessidade de criar um ambiente saudável e seguro para a dinâmica laboral
2026.04.13 afastamento por doenças mentais © Carlos Rodrigo (18).JPG

Em 2025, houve 52,34 afastamentos por 10 mil trabalhadores no estado, número que pode ser reduzido com ações preventivas | Foto: Carlos Rodrigo

por Emerson da Cunha*

A cada dia, 26 pessoas afastam-se dos seus trabalhos por conta de adoecimento mental no estado. O número tem preocupado o Ministério Público do Trabalho da Paraíba (MPT-PB), que aponta uma taxa de 52,34 afastamentos por 10 mil trabalhadores. Em números absolutos, o estado teve 9.457 trabalhadores afastados, apenas no ano de 2025, devido a doenças e transtornos mentais, sendo as principais causas depressão, transtorno do pânico e ansiedade.

Os dados do MPT-PB foram elaborados com base no número de benefícios concedidos pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) em 2025, junto ao cruzamento com o total de habitantes do estado e que são integrantes da força de trabalho. No Nordeste, apenas o Rio Grande do Norte tem uma proporção de afastamentos maior, com uma taxa de 55,12 por 10 mil trabalhadores.

“A gente verifica que, ao longo dos anos, vem aumentando bastante essa incidência de transtornos e danos mentais, que têm uma relação direta com o que chamamos de riscos psicossociais relacionados ao trabalho”, observa o procurador do Trabalho Marcos Almeida, que é coordenador regional da Coordenadoria Nacio-
nal de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho (Codemat).

Ele aponta uma série de práticas que podem colaborar com esse adoecimento, como assédio moral, assédio sexual, discriminação no trabalho, a própria organização da rotina com cobrança de metas abusivas, jornadas extenuantes e a não observância do direito à desconexão do trabalho. “Todas essas são circunstâncias que tornam o ambiente de trabalho um espaço muito hostil, que leva a esse tipo de adoecimento, ao transtorno mental”, alerta.

O procurador defende, ainda, que as contratantes precisam fazer sua parte para garantir um lugar mais saudável para trabalhadores. Uma ferramenta, nesse sentido, é o gerenciamento dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho. “A empresa precisa formatar a sua organização do trabalho de maneira a não tornar esse ambiente hostil, com constante pressão e ambiente que leva, muitas vezes, a esse adoecimento mental. A partir desse diagnóstico, a empresa vai poder, diante da sua realidade, tomar medidas efetivas que evitem os trabalhadores de serem acometidos por esse tipo de adoecimento”, explica Almeida.

Denúncia

Caso uma trabalhadora ou trabalhador esteja reconhecendo uma situação de adoecimento mental relacionado às dinâmicas e formas de trabalho, o procurador orienta que se busque o MPT para registrar uma denúncia formal, que pode ser feita de modo anônimo e on-line, por meio do site do órgão. “[A denúncia serve] para que se abra um procedimento de investigação e, identificando falhas na gestão desses riscos psicossociais, se cobrem das empresas as adequações necessárias”, finaliza Marcos.

Através deste link, acesse o site de denúncias do MPT-PB

Mudanças climáticas afetam rotina produtiva

Como parte da programação do Abril Verde, o MPT realizou, na tarde de ontem, uma audiência coletiva sobre o tema “Impactos das Mudanças Climáticas no Meio Ambiente do Trabalho”. A relevância da discussão está no fato de que, mesmo as transformações ocorrendo em um contexto externo ao local de trabalho, é necessário antecipar-se ao que já está acontecendo e ao que pode surgir em termos de mudanças climáticas, entendendo de que forma isso afeta a dinâmica de trabalho e a vida dos próprios trabalhadores.

“Todas as empresas são obrigadas a fazer o programa de gerenciamento de risco [PGR]. Dentro desse programa, você tem que identificar tudo isso e precisa adotar medidas de controle. Desde o acompanhamento, há formas para que isso, quando ocorrer, seja mitigado e seja reduzido o dano”, pontua o engenheiro e perito do MPT, Artur Sartori.

“A empresa tem que acompanhar o meio ambiente de trabalho e o que está vindo de fora, porque, se ocorre uma queimada e isso interfere dentro do seu ambiente de trabalho, você tem que saber o que fazer, se vai fazer evacuação. Ou, por exemplo, quando ocorre uma enchente, você tem que trazer essas externalidades para uma gestão interna da empresa. Mesmo que [o impacto] seja mais reduzido, porque, às vezes, depende de fatores externos, a empresa tem que tomar alguma ação”, esclarece.

Um exemplo citado pelo engenheiro é a situação de profissionais da limpeza urbana, cuja exposição ao sol, invariavelmente, faz parte de sua jornada. Devido ao aumento dos raios ultravioletas, o trabalho pode ser feito em um horário primeiro da manhã, até as 8h, evitando o período mais próximo do meio--dia, quando a exposição ao sol e ao calor pode trazer problemas de saúde, como câncer de pele e pressão alta. Outro exemplo é como as enchentes no Rio Grande do Sul afetaram a saúde mental dos trabalhadores e isso impactou o ambiente de trabalho.

Exposição e cordel alertam para precaução

Por: Camila Monteiro

Ainda ontem, o MPT-PB promoveu a abertura da exposição Abril Verde e o lançamento do cordel Quando o clima muda, o trabalho sente. O evento foi realizado na sede do órgão e contou com a presença da procuradora-chefe do MPT-PB, Danielle Lucena, do procurador do Trabalho, Marcos Almeida, e de servidores e integrantes da Associação de Motogirls e Entregadoras da Paraíba (Amen-PB).

A solenidade integra as ações desenvolvidas pelo MPT-PB dentro da campanha Abril Verde, que busca conscientizar a sociedade sobre a prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. De acordo com Marcos Almeida, a Paraíba possui um quadro alarmante de acidentes de trabalho e de doenças ocupacionais. Segundo ele, as estatísticas demonstram que há um acidente de trabalho e doença ocupacional notificado por hora. “Por isso, o Ministério do Trabalho, junto com diversas outras entidades parceiras, promove a campanha do Abril Verde, que tem justamente o objetivo de sensibilizar empresas, trabalhadores e a sociedade em geral acerca da necessidade da prevenção dos acidentes de trabalho e das doenças ocupacionais”, relatou.

De acordo com a procuradora-chefe, Danielle Lucena, as ações da iniciativa acontecem durante todo o mês, em diversos municípios do estado, e são necessárias principalmente pelos números alarmantes do estado. “A campanha acontece o ano inteiro, mas abril é mês de destaque. Por isso as ações foram pulverizadas ao longo desse período e vão acontecer também em Campina Grande, Cabaceiras, Esperança e Montadas”, revela.

O momento foi marcado pelo lançamento do cordel da poetisa Anne Karolynne, intitulado Quando o clima muda, o trabalho sente, que aborda os impactos das mudanças climáticas no ambiente laboral. “A gente juntou toda uma equipe técnica para pensar quais os trabalhadores mais afetados com as mudanças climáticas e, a partir dos dados reais, eu fiz um caso em cordel, trazendo a história de uma família em que a filha é formada em Técnica e Segurança do Trabalho e os pais trabalham expostos ao sol”, explicou Anne. Ela também frisou que a ideia do formato de cordel surgiu pela sua linguagem acessível e cultural, que permite que a mensagem chegue de maneira lúdica a quem realmente importa: os trabalhadores.

Durante a manhã, também foram entregues à presidente da Amen-PB, Mírian Araújo, os kits direcionados para os trabalhadores, contendo camisas de proteção UVB, protetor solar, o cordel, entre outros materiais informativos. Para ela, estar presente no evento, representando a associação, significa o reconhecimento da classe, que, atualmente, corresponde a um total de 25% da classe dos entregadores no país.

Abril Verde

A campanha Abril Verde foi criada na Paraíba em 27 de novembro de 2013, durante o 4o Encontro Paraibano de Segurança e Saúde no Trabalho, por iniciativa de Nivaldo Barbosa,  presidente da Federação Nacional dos Técnicos em Segurança do Trabalho (Sintest-PB).

De acordo com Nivaldo, a iniciativa surgiu para conscientizar toda a sociedade para que haja uma cultura permanente de prevenção de acidentes de trabalho e de doenças ocupacionais. “Nós trabalhamos de janeiro a janeiro, mas precisamos de um mês para reforçar essa ideia, principalmente porque temos números alarmantes. Oito trabalhadores morrem por dia no país, por conta de acidentes de trabalho”, detalhou.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de abril de 2026.