O Legislativo estadual uniu-se a órgãos fiscalizadores para combater a comercialização de bebidas adulteradas e garantir a proteção do consumidor nas festas juninas deste ano. Foi lançada, ontem (21), no plenário da Casa de Epitácio Pessoa, a campanha São João Livre de Metanol.
Além da Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB), participam do projeto a Autarquia de Proteção e Defesa do Consumidor do Estado da Paraíba (Procon-PB), a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), a Fundação Parque Tecnológico e a Agência de Vigilância Sanitária do Estado (Agevisa).
Como fruto dessa articulação interinstitucional, serão disponibilizados dois mil kits rápidos de detecção de metanol em bebidas destiladas, tecnologia que permite identificar possíveis adulterações de forma ágil.
Para o deputado Chió (PV), responsável pela convocação da audiência de ontem, a Paraíba “saiu na frente” com o desenvolvimento de tecnologias que identificam a adulteração de bebidas com metanol. Segundo o parlamentar, a urgência da ação fundamenta-se nos episódios graves de intoxicação ocorridos pelo país, de agosto a setembro do ano passado. “O turista que vier para as grandes festas da Paraíba terá a certeza e a segurança de que não tomará bebidas falsificadas. Isso é muito importante para atrair ainda mais turistas, para dar segurança e saúde para quem vem brincar no melhor São João do mundo, que é na Paraíba”, declarou.
O superintendente do Procon-PB, Félix Araújo Neto, explicou que a fiscalização será intensificada nos principais polos onde ocorrem os festejos juninos no estado, como Campina Grande, Patos e Bananeiras. Conforme o gestor, a autarquia já está em contato com os organizadores de festas para realizar uma vistoria nas bebidas ainda estocadas. “[Para] quem quiser levar a garrafa ao ponto de apoio, nós estaremos com equipamento dentro do Parque do Povo [em Campina Grande]. Esse equipamento vai girar a Paraíba, para que a gente possa garantir e ter de fato um São João livre do caos que foi a presença do metanol aqui no Brasil”, explicou.
A chefe de Gabinete da Agência Estadual de Vigilância Sanitária (Agevisa), Camilla Paulo Neto, enfatizou o compromisso da autarquia em capacitar os agentes sanitários para a utilização dos kits de teste, desenvolvidos pela UEPB. De acordo com a gestora, os agentes sanitários da agência contribuirão com a fiscalização, realizada pelo Procon, “até mesmo para que eles possam fazer isso também em fiscalizações de outras situações”.
A secretária de Turismo e Desenvolvimento Econômico, Marianne Gaudêncio, destacou que a tecnologia de detecção desenvolvida pela UEPB “vem para somar” às ações do Governo do Estado voltadas à segurança durante os festejos. “[Que] todos possamos passar um São João de muita paz, sabendo que temos uma grande ferramenta de prevenção para que atenda à Paraíba inteira com essa inovação maravilhosa”, desejou.
Inovação
A base para essa tecnologia foi lançada há três anos, por meio do programa de pós-graduação em Química da UEPB, que já investigava a qualidade das bebidas. No entanto, foi a ocorrência da crise sanitária causada por bebidas contaminadas que acelerou o processo.
Para transformar o conhecimento em soluções práticas de campo, o Governo do Estado investiu R$ 2,2 milhões, permitindo que os pesquisadores dessem uma resposta técnica imediata aos órgãos de fiscalização.
A pró-reitora adjunta de Pós-graduação e Pesquisa da UEPB, Nadja Oliveira, relembrou que, quando a crise sanitária de contaminação por metanol surgiu no ano passado, a UEPB já possuía pesquisas avançadas no Departamento de Química, com métodos de detecção validados internacionalmente. O Ministério da Justiça e Segurança Pública reconheceu a iniciativa, por meio da Secretaria Nacional do Consumidor, adotando a tecnologia paraibana como Padrão Ouro em notas técnicas de referência pelo país.
A docente defendeu, ainda, que o investimento em educação e ciência é o único caminho para a soberania nacional e o desenvolvimento, ressaltando o papel transformador da instituição. “Muitas vezes, as pessoas se questionam: qual é o papel da universidade pública brasileira? Todos os grandes problemas nas mais diversas áreas temáticas que a gente tem no Brasil e no mundo, é na academia e em centros tecnológicos que estão essas soluções”, concluiu.
Metodologia
A tecnologia desenvolvida pela UEPB divide-se em dois mecanismos distintos, adaptados para diferentes necessidades de fiscalização.
O teste instrumental utiliza um equipamento que identifica uma “assinatura digital” da amostra, por meio da emissão de luz infravermelha. A partir da interação entre a luz e o líquido, o sistema verifica com precisão a presença de metanol, sem precisar abrir a embalagem e estar em contato com a bebida.
Já o teste colorimétrico, de uso mais simplificado e que se assemelha a um teste de gravidez, utiliza reagentes químicos que provocam uma mudança visível na cor da bebida caso o contaminante seja detectado.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de maio de 2026.
