Em uma megaoperação considerada a maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado, as polícias Federal e Civil, com apoio da Receita Federal, cumpriram mais de 350 mandados de busca e apreensão e 14 mandados de prisão ontem. As operações, que mobilizaram 1.400 agentes, em oito estados, visam desarticular esquemas de lavagem de dinheiro que movimentaram estimados R$ 52 bilhões de origem criminosa, com impacto direto na cadeia produtiva de combustíveis.
Destaque foi dado para a Operação Tank, que desmantelou uma das maiores redes de lavagem de dinheiro já identificadas no Paraná. O grupo, que atua desde 2019, é suspeito de ter lavado pelo menos R$ 600 milhões, movimentando o montante de R$ 23 bilhões por meio de uma rede composta por centenas de empresas. Para ocultar a origem do dinheiro, o esquema utilizou depósitos fracionados em espécie que superaram R$ 594 milhões.
De acordo com as autoridades, o Primeiro Comando da Capital (PCC) é responsável pelo esquema de fraudes financeiras. As investigações constataram irregularidades em pelo menos 46 postos de combustíveis em Curitiba, envolvendo adulteração de gasolina e a prática de “bomba baixa”. Como resultado, foram bloqueados bens de 41 pessoas físicas e 255 jurídicas, totalizando uma contração patrimonial superior a R$ 1 bilhão.
A Receita Federal informou que o PCC usou mais de mil postos de combustíveis para movimentar R$ 52 bilhões, de 2020 a 2024. De acordo com a Receita, o grupo valia-se de fintechs e de, pelo menos, 40 fundos de investimentos para ocultar a real origem do patrimônio.
Paralelamente, a Operação Quasar cumpriu 12 mandados de busca e apreensão no estado de São Paulo para desarticular uma organização especializada em lavagem de dinheiro por meio de fundos de investimento. A Justiça Federal autorizou o bloqueio de bens e valores até o limite de R$ 1,2 bilhão, valor correspondente às autuações fiscais já realizadas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enalteceu a ação integrada, que reforçou o compromisso de “cortar o fluxo de dinheiro ilícito, recuperar recursos para os cofres públicos e garantir um mercado de combustíveis justo”. As investigações, que se estenderam por dois anos, continuam em andamento para apurar a total extensão das operações criminosas.
Refinaria do crime
De acordo com o ministro Haddad, da Fazenda, as operações não foram “obra do acaso”, mas fruto de uma decisão política. “Criamos, em 2023, uma equipe para decifrar fraudes estruturadas que contam com mecanismos financeiros sofisticados, usando, inclusive, expedientes próprios de grandes investidores no mercado financeiro”, disse.
Nesse sentido, foi usada a inteligência do Estado para chegar aos verdadeiros líderes do crime. Segundo Haddad, mais de mil servidores do plano federal e subnacional participaram das operações. “Estamos desmantelando a refinaria do crime”, comemorou o ministro.
“Conseguimos decifrar o caminho do dinheiro, que é muito sofisticado, com muitas camadas, envolvendo fundos fechados [de investimentos]. Para chegar ao patrimônio do criminoso, você precisa da inteligência dos auditores-fiscais, que abriram as contas e entenderam o caminho do dinheiro”, acrescentou.
“Não fosse por isso, não teríamos conseguido chegar a mais de mil postos de gasolina, quatro refinarias e mais de mil caminhões que estavam à disposição do crime para transportar o combustível, geralmente, adulterado”, complementou Haddad.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de agosto de 2025.