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palácio dos despachos

Governo retorna ao Centro Histórico

publicado: 19/01/2026 08h39, última modificação: 19/01/2026 08h39
Restaurado, prédio do século 19 passa a concentrar gabinete do governador, secretarias e galeria de arte
2026.01.16 Palácio dos despachos © Carlos Rodrigo (36).JPG

o longo dos séculos, imóvel foi sede de diversas instituições | Fotos: Carlos Rodrigo

por Joel Cavalcanti*

Na próxima segunda-feira (19), às 10h, o Governo da Paraíba inaugura o Palácio dos Despachos, no prédio histórico onde funcionava o Comando-Geral da Polícia Militar, na Praça Pedro Américo, no Centro de João Pessoa. A entrega do equipamento marca não apenas a conclusão de uma das maiores obras de restauração já realizadas pelo Estado em um imóvel tombado, mas também o retorno simbólico e administrativo do governo à área central da capital.

Construído em 1868, ainda no período do Brasil Império, o edifício atravessou diferentes funções ao longo de mais de um século e meio. Originalmente projetado para ser o teatro público da cidade, acabou destinado a abrigar o Tesouro Provincial. O imóvel sediou repartições como a Câmara Municipal, o Tribunal do Júri, a Assembleia Legislativa, secretarias de Estado, o Arquivo Público, os Correios e, mais recentemente, o Comando-Geral da Polícia Militar. Agora, reabre com nova configuração, mantendo a estrutura histórica e incorporando usos administrativos e culturais.

Segundo o governador João Azevêdo, a inauguração do Palácio dos Despachos integra uma estratégia de ocupação do Centro Histórico por equipamentos públicos. “O palácio está belíssimo. Isso vai recolocar o governo no Centro Histórico de João Pessoa, para que a população entenda que queremos mesmo ocupar aquela área, que é tão bonita. Lá ficará instalado o gabinete do governador e algumas secretarias de apoio estarão naquele prédio”, afirmou durante entrevista.

A obra foi conduzida pela Superintendência de Obras do Plano de Desenvolvimento do Estado (Suplan) e integra o projeto Viva o Centro. De acordo com a ficha técnica, o investimento total chega a R$ 22 milhões, com recursos próprios do Estado. Os trabalhos tiveram início em maio de 2024 e envolveram desde intervenções estruturais até a restauração de elementos arquitetônicos originais, respeitando as diretrizes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep). 

Reforma do espaço custou R$ 22 milhões e seguiu diretrizes estabelecidas pelo Iphaep

O engenheiro civil Jassonkadir Franco, responsável pela fiscalização da obra, relata que o estado do prédio exigiu uma intervenção ampla. Foram substituídos pisos de madeira, forros, esquadrias e sistemas elétricos, além da implantação de um novo sistema de climatização, iluminação interna e externa e circuito de câmeras. “A situação realmente estava muito complicada. O prédio estava muito comprometido”, explica o engenheiro.

Uma das principais dificuldades do projeto, segundo Franco, foi a recomposição dos pisos e forros em madeira. “A quantidade de madeira que tem lá é gigante. Encontrar a madeira, cortar as peças sob medida, foi um desafio grande”, afirma. O material utilizado foi madeira ipê, considerada de lei, aplicada tanto no piso quanto no forro, em conformidade com o padrão original do edifício.

Além das substituições, parte significativa do trabalho foi dedicada ao restauro. Fachadas, portas, esquadrias, pisos de ladrilho e de mármore passaram por recuperação, preservando elementos históricos do imóvel. O entorno da Praça Pedro Américo também recebeu intervenções, com novo piso em concreto intertravado, áreas ajardinadas, iluminação cênica, casa de gerador e reservatório.

Arquitetura reflete diferentes períodos da capital paraibana

O prédio, que originalmente possuía apenas dois pavimentos, passou por uma grande ampliação na década de 1930, durante o Governo João Pessoa, quando ganhou mais dois andares, totalizando quatro. Essa configuração permanece até hoje. Do ponto de vista arquitetônico, o imóvel é marcado pelo estilo neobarroco, com aberturas em arcos no térreo, balcões com balaustradas no primeiro pavimento, janelas em arco abatido e guilhotinas nos andares superiores, além de cornijas salientes, frontões e pináculos no coroamento.

O Palácio dos Despachos passa a concentrar diferentes áreas do Governo Estadual. No térreo, além do grande hall de acesso, funcionam auditório, cerimonial, setores administrativos, áreas de atendimento, monitoramento e espaços de apoio. O primeiro pavimento abriga a Casa Civil; o segundo, a Secretaria de Comunicação Institucional (Secom), incluindo estúdios e áreas de produção; e o terceiro pavimento é destinado à Governadoria, com o gabinete do governador, chefias e áreas de articulação política.

Reaberto como Palácio dos Despachos, local incorpora usos administrativos e culturais

Um dos diferenciais da nova configuração é a abertura parcial do prédio à visitação pública. O hall principal passa a funcionar como a Galeria de Arte Chico Pereira — espaço cultural permanente, instalado logo na entrada do Palácio. De acordo com o secretário de Estado da Cultura, Pedro Santos, a galeria terá acesso livre e circulação independente das áreas administrativas.

“A Galeria de Arte Chico Pereira é aberta ao público. As pessoas que estiverem no Centro poderão entrar e conhecer. É uma homenagem ao grande artista visual Chico Pereira, que nos deixou no fim do ano passado”, explica o secretário. O espaço receberá exposições temporárias de artistas visuais paraibanos, brasileiros e estrangeiros, com renovação periódica das mostras.

Além das exposições, a galeria abriga uma linha do tempo que apresenta a trajetória do próprio edifício, desde 1868, quando foi concebido, passando pelas mudanças de uso e pelas reformas ao longo do século 20, até a reabertura, em 2026, como Palácio dos Despachos. A proposta é conectar a história do prédio à formação institucional da Paraíba e ao processo de ocupação do Centro Histórico.

Inserido em um conjunto urbano que inclui o Theatro Santa Roza, o prédio do 1º Batalhão da Polícia Militar e o Paço Municipal, o Palácio dos Despachos volta a ocupar posição central na paisagem histórica de João Pessoa. A reabertura devolve ao edifício uma função pública de destaque, agora associada à administração estadual e à fruição cultural, mantendo viva a memória de um espaço que atravessou diferentes fases da história política e urbana da capital paraibana.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de janeiro de 2026.