O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou, ontem, durante visita de Estado a Seul, que a colaboração com empresas sul-coreanas em setores focados no desenvolvimento do conhecimento é uma prioridade para o Brasil. Em discurso no encerramento de um fórum empresarial que reuniu 230 companhias dos dois países, Lula destacou a expectativa de fabricação conjunta de vacinas, fármacos e insumos médicos, à medida que a Coreia do Sul amplia seus investimentos em pesquisa e o Brasil avança na construção do laboratório de biossegurança Órion, conectado ao acelerador de partículas Sirius. “Instituições públicas de saúde, como a Fiocruz e fundações estaduais, estão fortalecendo sua cooperação com a Coreia”, afirmou.
A ênfase na saúde concretizou-se com a assinatura de três Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) destinadas à produção nacional dos medicamentos bevacizumabe, eculizumabe e aflibercepte, com transferência de tecnologia e fabricação em território brasileiro.
O investimento do Ministério da Saúde está estimado em até R$ 1,104 bilhão no primeiro ano. A medida, segundo a Pasta, amplia a capacidade produtiva nacional, fortalece a soberania do setor, reduz vulnerabilidades do Sistema Único de Saúde (SUS) diante de oscilações do mercado internacional e diminui o risco de desabastecimento, além de estimular o desenvolvimento tecnológico e gerar empregos.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que integrou a comitiva oficial, ressaltou que os acordos representam transferência de tecnologia, produção local, fortalecimento da base industrial e previsibilidade para o setor privado, além de demonstrarem compromisso de longo prazo do Estado brasileiro.
Também foi firmado um Memorando de Entendimento em Saúde entre os ministérios dos dois países, estabelecendo bases para cooperação em inovação biomédica, saúde digital, ecossistemas de dados, terapias avançadas e fortalecimento da resiliência dos sistemas de saúde.
Ao todo, seis novos acordos para produção conjunta de tecnologias em saúde foram assinados, envolvendo testes diagnósticos, medicamentos biológicos e tratamentos oncológicos e oftalmológicos.
Em seu discurso, Lula citou ainda oportunidades de cooperação mutuamente vantajosas em outras áreas. Mencionou a possibilidade de parcerias na exploração de minerais críticos, insumos essenciais para cadeias de semicondutores e baterias, setor em que a Coreia é líder mundial.
“O papel de meros exportadores de matérias-primas não condiz com nosso potencial. Buscamos parcerias que nos permitam agregar valor e produzir tecnologia de ponta em solo brasileiro”, declarou.
Na área aeroespacial, lembrou as operações da startup coreana Innospace no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, e defendeu o aprofundamento do diálogo entre as agências espaciais para compartilhamento de dados de satélites e projetos de exploração lunar.
Em cosméticos, destacou que o setor de beleza brasileiro superou US$ 1 bilhão em exportações em 2025, enquanto a indústria coreana rivaliza com a francesa no mercado global. “O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo. Unindo nosso potencial à tecnologia coreana, podemos multiplicar nosso alcance”, afirmou.
Lula também abordou a economia criativa, lembrando que, na Coreia, ela supera exportações de setores tradicionais como eletrodomésticos, enquanto no Brasil responde por mais de 3% do PIB, acima da indústria automobilística. “Do funk ao k-pop, de ‘Parasita’ a ‘Agente Secreto’, das telenovelas aos k-dramas, nossa música e produção audiovisual conquistam o mundo”, disse.
No campo comercial, o presidente observou que a corrente de comércio bilateral, atualmente em US$ 11 bilhões, está aquém do recorde de US$ 15 bilhões registrado em 2011. “Significa que já fomos melhores em negócios”, ponderou, informando que a ApexBrasil identificou 280 oportunidades para produtos brasileiros na Coreia, de alimentos a químicos.
Mais cedo, em encontro com o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, foram firmados 10 atos de cooperação, com destaque para um acordo de cooperação comercial e integração produtiva focado em indústria, tecnologia e agricultura, além de cadeias de suprimentos resilientes e minerais estratégicos.
Lula defendeu o multilateralismo e criticou guerras comerciais e protecionismo, que dificultam o crescimento econômico e social. “A melhor resposta à tentativa de usar o comércio como arma é mostrar que é possível alcançar entendimentos mutuamente benéficos por meio do diálogo”, disse. Para ele, somente o desenvolvimento do trabalho pode resolver problemas como a fome e melhorar a qualidade de vida das populações.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de fevereiro de 2026.