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democracia algorítmica

Meios digitais transformam eleições

publicado: 01/06/2026 09h32, última modificação: 01/06/2026 09h32
Sistemas automatizados moldam comunicação política, ao definir quais informações serão entregues ao público
Tik tok eleiçoes © João Pedrosa.JPG

Eleitor pode receber versões diferentes de um mesmo fato, a depender de seus hábitos de consumo virtual e preferências ideológicas | Foto: João Pedrosa

por Eliz Santos*

A disputa política já não acontece apenas nos palanques, nos programas eleitorais de televisão ou nos debates tradicionais. Cada vez mais, ela ocorre silenciosamente nas telas dos celulares, entre vídeos recomendados, publicações impulsionadas e conteúdos selecionados por algoritmos, que decidem, em segundos, o que milhões de eleitores vão ver — ou ignorar.

O impacto do uso da inteligência artificial (IA) nas últimas eleições e as transformações estruturais no modo como a informação circula e influencia o eleitorado são temas centrais do livro Democracia algorítmica: o futuro do voto. A obra analisa como, na era das redes sociais, o cidadão passou a consumir conteúdo político mediado por plataformas digitais que utilizam sistemas automatizados para direcionar conteúdos personalizados de acordo com interesses, preferências e comportamentos on-line.

Nas últimas eleições, redes sociais a exemplo do Instagram, TikTok, YouTube e WhatsApp consolidaram-se como espaços centrais de comunicação política. Segundo pesquisadores, os algoritmos deixaram de exercer apenas uma função técnica de organização de conteúdos e passaram a influenciar diretamente a formação da opinião pública. Isso ocorre porque as plataformas priorizam publicações com maior potencial de engajamento — geralmente, conteúdos emocionais, polêmicos ou capazes de provocar reações imediatas.

Na prática, isso significa que dois eleitores podem receber versões completamente diferentes da realidade política, dependendo de seus hábitos de consumo digital e preferências ideológicas. O avanço acelerado da IA generativa — sistemas capazes de criar conteúdos inéditos, como textos, imagens, áudios e vídeos a partir de comandos humanos — alterou ainda mais as estratégias das campanhas.

Para Lívia Karol Araújo, especialista em Comunicação Estratégica e Marketing Político, a segmentação de conteúdo tornou-se uma condição essencial da comunicação política no ambiente digital. Segundo ela, as campanhas passaram a trabalhar com públicos cada vez mais específicos, utilizando temas e linguagens direcionadas para ampliar a conexão e o engajamento nas redes sociais.

“Hoje, quanto mais segmentado e mais claro for o perfil do público, mais eficiente será a comunicação política na internet. Estar nas redes sociais exige uma estratégia bem definida sobre com quem falar e quais temas levar para cada público”, destaca.

A influência das plataformas sobre o comportamento do eleitor vem se consolidando a cada novo ciclo eleitoral. De acordo com Lívia Karol, a presença digital já é indispensável para candidatos e lideranças políticas, sobretudo no Brasil, já que o país lidera os rankings globais que avaliam o tempo de permanência nas redes. Dessa maneira, a consolidação das redes sociais na política representa uma transformação comparável ao impacto histórico do rádio sobre a comunicação de massa no século passado.

“Desde 2018, a gente percebe uma evolução não apenas da presença, mas da influência dos conteúdos compartilhados na formação da opinião pública. O ambiente digital é um espaço de intensa participação, onde cada pessoa consegue produzir e disseminar informação”, analisa Lívia Karol.

Além da segmentação e do uso estratégico das plataformas, a construção da reputação política também ganhou nova dimensão na era digital. Assim, as redes sociais ampliaram a visibilidade das lideranças políticas, mas a credibilidade continua sendo construída diariamente, tanto no ambiente on-line quanto fora dele.

“Reputação é construção diária. Ela não acontece apenas na rede social, mas também na postura pública, nas pautas defendidas e na coerência do mandato. As redes ampliam essa percepção, mas não substituem a construção real da imagem política”, adverte a especialista em Comunicação Estratégica e Marketing Político.

Riscos da desinformação

Embora a tecnologia reduza custos e acelere a produção de material eleitoral, ela também acende o alerta sobre transparência e manipulação informacional. Especialistas apontam que o principal desafio vai além dos conteúdos falsos ou deepfakes — montagens digitais hiper-realistas capazes de fazer alguém parecer dizer ou fazer algo que nunca aconteceu. O risco central está na capacidade das plataformas de moldar o ambiente informacional no qual o eleitor constrói suas opiniões, ampliando as chamadas “bolhas digitais” e a polarização política.

Essa percepção de que o problema vai além da tecnologia em si é compartilhada por juristas. Cláudio Lucena, especialista em Direito Digital e Proteção de Dados, aponta que os riscos da inteligência artificial nas eleições vão além da tecnologia. Segundo ele, a sociedade ainda não desenvolveu uma cultura digital capaz de lidar de forma crítica e ética com o novo ambiente informacional.

“Para a integridade das eleições no Brasil, hoje, o principal risco não é especificamente o uso de inteligência artificial; o que nos falta é uma cultura digital, uma cultura de proteção e preservação. Fomos empurrados para dentro dessa vida transformada pela revolução digital sem tempo para fazer reflexões”, avalia.

Conforme o especialista, essa ausência de maturidade digital afeta desde o compartilhamento excessivo de dados pessoais pelos usuários até a capacidade de partidos, candidatos e órgãos reguladores lidarem com os desafios impostos pelas novas tecnologias.

Cláudio Lucena aponta que um dos pontos mais delicados do debate atual envolve o uso de dados pessoais e da segmentação extrema de conteúdos políticos nas redes sociais. Segundo ele, apesar de o Brasil possuir um conjunto avançado de normas eleitorais e de proteção de dados, o grande desafio continua sendo garantir a aplicação efetiva dessas regras diante da velocidade das transformações tecnológicas.

“Nós temos uma legislação avançada para lidar com os usos mais sofisticados da tecnologia nas eleições. O problema não é apenas criar novas regras, mas conseguir fazer com que elas funcionem bem, com fiscalização eficiente, educação digital e participação da sociedade”, frisa.

O especialista cita o caso Cambridge Analytica — envolvendo o uso indevido de dados de 87 milhões de usuários do Facebook nas eleições norte-americanas de 2016 e no plebiscito do Brexit, no Reino Unido — como um dos principais alertas mundiais sobre o poder do microdirecionamento político nas plataformas digitais. Conforme Cláudio Lucena, práticas de segmentação psicográfica — em que conteúdos específicos são direcionados a perfis emocionalmente mapeados — já motivaram mudanças na legislação brasileira e reforçaram o papel do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no controle do uso de conteúdos sintéticos e de estratégias de manipulação eleitoral.

“A integridade democrática não pode ser responsabilidade apenas do Estado ou da Justiça Eleitoral. Partidos, plataformas digitais e a própria população também precisam participar desse processo, com ética, fiscalização e consciência sobre os impactos da desinformação e do uso indevido da tecnologia”, argumenta.

TSE atualiza norma para garantir transparência a conteúdos

Diante do avanço tecnológico, o TSE atualizou as regras para o ambiente digital. O debate vem sendo acompanhado de perto pela cúpula do Judiciário. Durante discurso de posse na presidência da Corte, o ministro Kassio Nunes Marques alertou para os riscos do uso descontrolado das novas ferramentas ao longo das Eleições 2026.

“Devemos estar atentos às novas tecnologias, que, quando mal utilizadas, podem representar ameaças ao nosso processo democrático. Refiro-me, em especial, ao perigo potencial do uso desordenado das ferramentas de inteligência artificial”, afirmou o ministro.

A regulamentação está fundamentada na Resolução TSE no 23.610/2019, atualizada para o pleito de 2026. A norma estabelece que conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial devem ser identificados de forma clara, garantindo transparência ao eleitor.

As regras também proíbem que plataformas digitais utilizem algoritmos para favorecer ou recomendar candidatos e partidos aos eleitores. Além disso, conteúdos produzidos por inteligência artificial utilizando voz ou imagem de candidatos ficam proibidos nas 72 horas anteriores à eleição e nas 24 horas posteriores à votação.

Outra medida determina que perfis falsos — anônimos ou automatizados — que disseminem desinformação eleitoral poderão ser removidos das plataformas após decisão judicial. O TSE também prevê parcerias com universidades e órgãos especializados para auxiliar na identificação de conteúdos manipulados por inteligência artificial.

As normas ainda vedam o pagamento de influenciadores digitais para publicação de propaganda político--eleitoral em perfis pessoais mediante vantagem financeira. Paralelamente, a Justiça Eleitoral mantém ativo o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (Siade), permitindo que cidadãos denunciem conteúdos falsos ou fora de contexto relacionados ao processo eleitoral.

Em um cenário em que algoritmos disputam atenção em tempo real, o desafio da democracia brasileira será preservar a capacidade do eleitor de decidir com autonomia — e não sob influência invisível de sistemas e plataformas digitais.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de maio de 2026.