Notícias

memória paraibana

Prefeito contrariou regime militar

publicado: 04/05/2026 09h45, última modificação: 04/05/2026 09h45
Hugo Saraiva editou documento que denunciava arbitrariedades cometidas pela ditadura em Itabaiana, no Agreste
Hugo assina posse_Foto cedida por Renato Almeida EDITADA.jpg

Por defender a legalidade democrática, gestor foi vítima de perseguição e, para evitar cassação e suspensão de direitos, acabou renunciando ao cargo | Foto: Rep./Associação Cultural Memória Viva - Memorial Itabaianense

por Eliz Santos*

Na manhã em que o Brasil acordava sob o impacto do Golpe Militar de 1964, uma pequena cidade do Agreste da Paraíba decidiu não se calar. Em Itabaiana, o então prefeito Hugo Saraiva, eleito no ano anterior, contrariou o clima de medo que se espalhava pelo país e posicionou-se contra a ruptura democrática — um gesto que custaria caro a ele e a seus aliados, como o secretário Arnaud Costa, alvo de perseguições do regime.

Logo após a deposição do presidente João Goulart, Saraiva adotou uma postura firme e incomum para o período: recusou-se a apoiar o golpe e buscou agir institucionalmente contra os abusos. Ele solicitou a seu secretário Arnaud Costa a redação de um documento oficial, no qual intercedia em favor de moradores presos e denunciava as arbitrariedades cometidas pelos militares, em defesa da legalidade democrática.

O episódio, pouco conhecido fora do município, é resgatado pelo escritor Fábio Mozart, filho de Arnaud Costa e testemunha indireta das consequências daquele período. Segundo ele, a reconstrução da história baseia-se principalmente na memória de quem viveu os acontecimentos. “[Dá-se] através de depoimentos do próprio Arnaud Costa e de outras pessoas de sua geração”, diz Fábio Mozart.

Enquanto parte da sociedade cedia à pressão ou colaborava com o regime, a gestão municipal tomou caminho oposto. “A bancada do partido na Câmara de Vereadores era do PSD anti-golpe”, destaca Mozart, ao explicar que havia um núcleo político de resistência no município.

À época presidente da Câmara, o major Nonato recusou uma ordem de militares para colocar em votação a cassação do prefeito. Armados, integrantes do Exército chegaram a invadir o plenário, mas foram confrontados pelo vereador, que exigiu a retirada dos oficiais, em um dos momentos mais tensos da crise institucional local.

Apesar disso, a pressão aumentava. Em meio a denúncias e perseguições — muitas vezes, incentivadas por adversários políticos locais —, o cerco ao prefeito intensificou-se. Para evitar a cassação e a suspensão dos direitos políticos, Hugo Saraiva acabou renunciando ao cargo.

Fábio Mozart relembra que seu pai precisou deixar a cidade para escapar do regime. “Nos primeiros momentos da repressão, após 1968, ele teve que fugir para a Zona Rural. O Exército esteve na nossa casa algumas vezes”, conta.

Segundo o escritor, Arnaud Costa e outros políticos refugiaram-se em cidades do interior de Pernambuco. “Ele e outros se esconderam em Salgadinho”, recorda. Mesmo sob risco, Arnaud Costa manteve sua atuação em defesa de perseguidos políticos. “Depois, foi testemunha de defesa de muitos militantes de Itabaiana que enfrentaram inquéritos militares”, evidencia Fábio Mozart.

Resistência

O Litoral Norte e o Sertão do estado também foram palco de reações ao golpe — ainda que pontuais e duramente reprimidas.

Hugo Saraiva foi eleito em 1963, um ano antes do golpe | Foto: Enoque Bernardo Santos/Arquivo pessoal

Em Rio Tinto, o prefeito e líder sindical Antônio Fernandes de Andrade, conhecido como “Bolinha”, protagonizou uma das ações mais ousadas do período.

Conforme o historiador Paulo Giovani Antonino, Bolinha liderou operários e camponeses em uma tentativa de barrar o avanço militar. “O prefeito de Rio Tinto tentou uma reação: tomou a fábrica de tecidos, paralisando suas atividades e isolou pontos estratégicos da cidade com arame farpado antes de ser reprimido e preso”, relata.

O movimento foi rapidamente sufocado pela Polícia Militar. Bolinha chegou a fugir, mas acabou se entregando e permaneceu preso por meses. Assim como Hugo Saraiva, perdeu o mandato.

Outro caso citado pelo historiador ocorreu em Sousa, onde o então prefeito Antônio Mariz fez um discurso público contra o golpe e acabou preso. Os episódios reforçam que, embora minoritária, a resistência no interior existiu e manifestou-se de diferentes formas — institucional, política e até operária.

Repressão atingiu sociedade e instituições

A reação ao Golpe de 1964 na Paraíba foi marcada por divisões e contrastes. De acordo com Paulo Giovani Antonino, enquanto alguns setores opuseram-se, outros apoiaram o novo regime.

“Houve segmentos que resistiram e foram punidos com torturas e cassações, enquanto outros apoiaram a ditadura, como a Igreja Católica, na figura do arcebispo Dom Mário de Miranda Villas Boas, e a Assembleia Legislativa, por meio de seu presidente, Clóvis Bezerra”, pontua.

Conforme o historiador, até mesmo lideranças políticas que inicialmente demonstraram hesitação acabaram aderindo ao regime, como o então governador Pedro Gondim.

A repressão política também se traduziu em cassações em larga escala na Paraíba. Levantamentos sobre o período indicam que cerca de 35 detentores de cargos eletivos — entre deputados federais, estaduais, prefeitos e vereadores — tiveram seus mandatos interrompidos pelo regime. Entre eles, o vereador Antônio Augusto de Arroxelas, em João Pessoa, além de lideranças como o ex-prefeito de Campina Grande Ronaldo Cunha Lima e o próprio Pedro Gondim, que chegou a apoiar o regime, mas acabou cassado posteriormente, quando exercia mandato de deputado federal.

O regime também atingiu outras instituições: houve afastamento de magistrados, intensificação da censura à imprensa e perseguição a jornalistas e agentes do setor cultural. No meio acadêmico, mais de uma centena de estudantes foi afastada de instituições como a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e a antiga Furne, enquanto sindicatos sofreram intervenções, com dirigentes destituídos e presos.

Cicatrizes

As consequências para quem se opôs ao regime foram severas. Prisões, torturas e assassinatos marcaram o período, especialmente entre lideranças políticas e camponesas.

Dados históricos indicam que, ao menos, 14 paraibanos morreram ou desapareceram durante a Ditadura Militar, e cerca de 125 pessoas foram submetidas à tortura. Parte dessas práticas ocorreu em espaços clandestinos, como uma propriedade em Campina Grande conhecida como “Granja do Terror”.

“A ditadura no estado caracterizou-se por forte repressão, com mortos, desaparecidos, torturados e intervenções em diferentes setores da sociedade”, destaca Paulo Giovani Antonino.

O historiador cita os casos de João Alfredo, conhecido como “Nêgo Fuba”, e Pedro Inácio de Araújo, o “Pedro Fazendeiro”. “Eles foram presos, liberados pelo Exército e assassinados em seguida. São considerados desaparecidos políticos até hoje”, diz.

Além desses, outros episódios evidenciam a violência do período, como a repressão a grupos que tentaram organizar resistência armada, a exemplo do movimento conhecido como “Guerrilha de Catolé do Rocha”, cujos participantes foram presos.

Esses episódios revelam que o caso de Itabaiana não foi isolado, mas parte de um cenário mais amplo de tensões, resistências e repressões no interior da Paraíba. Ao refletir sobre isso, Fábio Mozart chama atenção para a fragilidade das instituições democráticas. “A democracia pode ser mais frágil do que parece. Os líderes que enfrentaram a ditadura não tiveram apoio do povo, muito pela desinformação e pelo terrorismo de Estado”, avalia.

Apesar da relevância dos episódios, a resistência no interior ainda ocupa espaço limitado na memória histórica. Para Paulo Giovani Antonino, isso se deve ao foco tradicional dos estudos nos grandes centros. “Durante muito tempo, a historiografia privilegiou regiões como o Sudeste. Só mais recentemente surgem pesquisas voltadas ao interior, ainda de forma incipiente”, explica.

Segundo o historiador, novas produções acadêmicas começam a ampliar esse olhar. “Já existem trabalhos que destacam o impacto da ditadura em pequenos municípios, inclusive na Paraíba, mas ainda há uma lacuna a ser preenchida para dar visibilidade a esses atores e suas histórias”, conclui.

Para Fábio Mozart, a principal lição permanece atual: “A democracia não é um estado permanente, mas um processo que exige vigilância, compromisso e participação contínua”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de maio de 2026.