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Projeto paraibano torna-se modelo

publicado: 27/04/2026 08h32, última modificação: 29/04/2026 09h06
CNJ reconheceu boas práticas na recomposição do acervo histórico da Justiça Eleitoral em sua fase inaugural

Poucos tribunais no país possuem registro de documentos editados na década de 1930 | Foto: Divulgação/TRE-PB

O projeto “Origens do TRE-PB: Recomposição, Cidadania e Legado de um Acervo Invisibilizado (1932–1937)” foi reconhecido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) como boa prática a ser seguida pelos demais órgãos do Poder Judiciário. A iniciativa consiste na recomposição do Fundo Histórico Arquivístico do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba referente à sua fase inaugural, cujos documentos originais desapareceram após a extinção da Justiça Eleitoral pelo Estado Novo.

O compilado ressignifica o arquivo como ferramenta viva de cidadania, utilizando atas publicadas no jornal A União para restaurar a memória institucional. Foram editados quatro volumes dos Livros de Actas (1932–1935), disponibilizados em acesso aberto via sistema AtoM e base de dados da Universidade de Brasília. Além disso, a prática resultou na instalação do Museu Eleitoral, no Casarão dos Azulejos, em João Pessoa.

Para a arquivista da Seção de Documentação (Sedoc) do TRE-PB, Gabriela Garcia Londres, o reconhecimento do CNJ traz esperança à comunidade de pesquisadores, com a valorização da memória institucional. “Esses documentos eram considerados desaparecidos, causando uma lacuna na historiografia dos arquivos nacionais. Então, voltamos a visibilizar esse acervo com uma metodologia sofisticada do ponto de vista intelectual e viável, devido ao baixo custo. Se o jornal A União não tivesse o acervo preservado, uma parte da história ficaria inacessível. A União assume papel fundamental enquanto fonte documental, especialmente pela preservação de exemplares que registram o funcionamento da Justiça Eleitoral em seus primeiros anos”, explicou.

A diretora-presidente da Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), Naná Garcez, relembra que, no período de 1904 a 1957, A União funcionava como veículo oficial de atos oficiais, ao mesmo tempo que realizava coberturas jornalísticas. “Nós temos registrado tudo o que aconteceu na história da Paraíba, a exemplo de relatos de pracinhas paraibanos durante a guerra, artigos, indicações de prefeitos em atos oficiais — já que, naquela época, não havia eleição —, entre outros registros importantes. Afinal, o documento só tinha vigência se fosse publicado no Diário Oficial”, declarou.

Naná Garcez destacou, ainda, a importância das imprensas oficiais para a perenidade dos atos e a preservação da história e da memória institucional. “Quase 30 trabalhos acadêmicos da Universidade Federal da Paraíba utilizaram o acervo de A União como fonte de pesquisa. Em relação ao projeto ‘Origens do TRE’, a importância dele é que essa pesquisa resultou no surgimento do Museu Eleitoral — Memorial da Democracia, já que o Casarão dos Azulejos foi a primeira sede da Justiça Eleitoral. Portanto, A União é patrimônio cultural e histórico da Paraíba. Tenho muito orgulho de gerir essa instituição”, enfatizou.

Segundo o historiador e servidor do TRE-PB Renato César Carneiro, essa prática de recomposição do acervo histórico servirá de referência a outros tribunais do país. “A maioria dos TREs não possui documentos originais do período de 1932 a 1937. Os historiadores, em seus estados, não tinham uma fonte oficial para contar a história das eleições. A Paraíba é um dos poucos estados que possui esse registro”, afirmou.

Resgate histórico

A iniciativa surgiu em 2012, durante uma pesquisa no acervo de A União, em comemoração aos 80 anos de existência da Justiça Eleitoral na Paraíba. Nesse período, a equipe da Seção de Documentação do TRE-PB constatou a ausência de documentos históricos da primeira fase da Justiça Eleitoral no estado (1932–1937). À época, o jornal funcionava como veículo oficial de publicação dos atos da Justiça Eleitoral, conforme determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nele, eram divulgadas atas, editais, convocações e decisões judiciais.

Os idealizadores do projeto — Renato César Carneiro e Gabriela Garcia Londres — ressaltaram a importância da parceria com o jornal A União para que o projeto fosse possível. “As atas publicadas se tornaram peças-chave para a reconstrução do acervo, servindo como ponto de partida para identificar reuniões, decisões e a atuação institucional do tribunal em seus primeiros anos. Esse material permitiu rastrear documentos considerados perdidos, compondo o chamado ‘fundo documental’. Isso é confirmado por Paolo Ricci, um dos principais pesquisadores ligado ao TSE e responsável pelo Almanaque de Dados Eleitorais. Então, a Paraíba passa a ser o primeiro estado que apresenta essas atas de maneira contínua”, detalhou Gabriela Londres, ao relembrar que esse resgate histórico ocorreu na época em que o servidor Hélder Barbosa era secretário Judiciário da Informação.

O historiador Renato César relembra que, ao longo de seus 30 anos como servidor da Justiça Eleitoral, observou que, nas cerimônias de posse de desembargadores, a história da instituição sempre era mencionada a partir de 1945. “A ausência de registros sobre o período de 1932 a 1937 — fase inicial da Justiça Eleitoral — decorre do fato de que ela foi extinta em 1937 e só voltou a funcionar após o Estado Novo. Foi a partir dessa lacuna que surgiu a necessidade do resgate histórico”, explicou.

A iniciativa resultou na publicação do livro Origens da Justiça Eleitoral na Parahyba: de 1932 a 1937, lançado como parte das comemorações pelos 80 anos da Justiça Eleitoral na Paraíba. Em 2022, a servidora Gabriela Londres ganhou o reconhecimento do CNJ pelo Plano Geral de Classificação e Destinação de Dados, Informações e Documentos — mérito compartilhado com o Programa de Pós-Graduação em Gestão de Documentos e Governança Arquivística (PPGDARQ) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e com o respaldo acadêmico da professora Eliete Correia dos Santos.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de abril de 2026.