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1970, o ano em que o sonho acabou

por publicado: 11/03/2020 09h28 última modificação: 11/03/2020 09h28
Gravação de 'Let it be', que completa 40 anos este ano

Gravação de 'Let it be', que completa 40 anos este ano


Ao longo de 2020, muitas histórias dos Beatles serão lembradas. O ponto de partida, 1970, foi ano em que os Beatles, efetivamente, chegaram ao fim. Mas não é o único fato que merece nota. Afinal, tanta coisa aconteceu naquele ano: saiu o álbum
Let it Be (precedido pelo single de mesmo nome, lançado em 6 de março daquele ano), Paul McCartney e Ringo Starr estrearam suas discografias solo, George Harrison deu ao mundo a obra-prima All Things Must Pass e John Lennon, após três discos experimentais, entregava o que os fãs queriam ouvir: Plastic Ono Band, descrito por um amigo meu como o melhor “disco Beatles” feito por um ex-Beatle (mais: fãs haverão de lembrar, no próximo 9 de outubro, os 80 anos do autor de ‘Imagine’). 

Há 40 anos, Lennon disse que o sonho havia acabado. Era o ponto final de uma longa história de brigas, desgastes, batalha de egos e desacordos, afinal, o The Beatles era maior que os próprios Beatles, e boy, esse foi um fardo que eles carregaram por muito tempo (como canta Paul em ‘Carry that weight’).

O fim da mais famosa banda pop de todos os tempos não é algo simples de ser contato em poucas linhas. Envolve muita coisa. Segundo os livros, o fim da banda começou ali pela ressaca da beatleamania. O quarteto chegou a conclusão que não dava mais para fazer shows - afinal, naquela loucura toda, o que menos importava para os fãs - as fãs, sobretudo - era a música. A gritaria gerada em estádios impedia que a música fosse ouvida, restando assim um burburinho que não interessava aos Beatles.

Para Lennon, a banda meio que perdeu o sentido ali. Mas eles continuaram, agora numa versão mais caseira, trabalhando em estúdio. Foi a fase que se iniciou com a gravação de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, repleta de experimentalismo e trucagens. O próprio Lennon parece não ter gostado do resultado, reclamando que a vontade de Paul havia sido preponderante. Para o primeiro, os discos tinham que ter um punch, uma sonoridade mais agressiva, mais rock ‘n’ roll; o segundo era da praia das ‘Silly love songs’ (canções de amor bobinhas, em tradução livre)

Esses gostos antagônicos, traduzidos em sonoridades distintas - como o Lennon de ‘Come together’, versus o Paul de ‘Let it be’ - iria permear toda essa fase e agravar o abismo que havia entre o grupo, incluindo aí os outros dois, George e Ringo, que procuravam abrir espaço na parceria Lennon-McCartney para ascender da condição de coadjuvantes - por essa época, George chegou a reclamar que Yoko tinha mais moral que ele nas decisões das banda.

No imaginário popular, Yoko Ono ficou como a pivô do fim dos Beatles. Depois de mergulhar nas muitas biografias que saíram sobre o quarteto - incluindo as biografias “solo” de seus integrantes - eu cheguei a conclusão que Yoko pouco teve a ver com o fim do quarteto.

A artista japonesa entrou na vida de Lennon logo após a separação do ex-Beatle com Cinthya. Lennon encontrou em Yoko sua cara-metade artística, e até renovou seu fôlego enquanto criador. Como o dono da bola, ou seja, o cara que criou The Beatles, se achou no direito de ter a figura nipônica nos ensaios e deixou que ela tivesse voz ativa na criação de algumas canções. Dizia que os dois eram um só, a ponto de estabelecerem uma comunicação não-verbal  entre eles que acabou por cortar a interação com os demais integrantes dos Beatles que, por sua vez, estavam pouco se lixando.

Mas Yoko não era o problema perto da sarna que os quatro arrumaram para se coçar: a gravadora Apple Corps. Eu confesso que não lembro de quem foi a ideia, mas quem disse que Paul, George, Ringo e Lennon, famosos e ricos, teriam tino de executivo para tocar a indústria, contratando artistas, planejando gravações e lançamentos de discos? Claro que isso não iria dar certo, apesar dos esforços de Paul, o mais empreendedor dos quatro.

A questão da Apple Corps - que acabou por levar os quatro rapazes de Liverpool ao tribunal - foi mais desgastante do que a eminência parda de Yoko. Mas ainda havia uma empada azeda nesse camarão estragado: Allen Klein, retratado como um oportunista que fizera a cabeça do casal Lennon-Yoko para se tornar o empresário dos Beatles (sob os protestos de Paul, que nunca fora com a cara do sujeito).

Allen Klein nem queria ser o quinto Beatle; queria ser o Beatle nº 1! O que os livros relatam é que foi um verdadeiro inferno a relação entre os cinco: de um lado, um empresário de olho no gordo faturamento da marca The Beatles; de outro, quatro Beatles de saco cheio de estarem juntos.

Mesmo assim, em 1969, um ano antes de jogarem a toalha, os quatro Beatles conseguiram entrar em estúdio e criar algumas das melhores canções já feitas pelo quarteto. Boa parte dessas faixas iriam formar os dois últimos discos da banda: Get Back e Abbey Road. Abbey Road acabou saindo primeiro, em 26 de setembro de 1969. Get Back, embora tenha sido gravado antes, só foi lançado depois, em 8 de maio de 1970, sob o título de Let it Be e acompanhado de um filme que mostrava o climão entre os quatro no ensaio das músicas para o disco. 

Esse filme, que nunca chegou a ser lançado oficialmente em DVD, deverá, enfim, ter seu lançamento confirmado em home-video em maio próximo, com cópia restaurada tanto em DVD, quanto em blu-ray. Pelo menos é isso que os fãs aguardam, após os relançamentos turbinados dos principais discos do quarteto nesses últimos anos.

*coluna publicada originalmente na edição impressa de 10 de março de 2020

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