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‘A Mulher da Casa Abandonada’ e as redes sociais

por publicado: 26/07/2022 00h00 última modificação: 26/07/2022 09h36
Foto: Willian Moreira/Futura Press/Estadão Conteúdo Curiosos em frente à residência de Higienópolis, no último dia 20 de julho

Curiosos em frente à residência de Higienópolis, no último dia 20 de julho

por André Cananéa*

A querida colega Gi Ismael já abordou o tema, aqui mesmo, em A União, na edição de 6 de julho, mas agora, finda a série e com todas as repercussões da semana passada, não consigo não compartilhar com você, leitor, algumas das impressões que eu tive sobre A Mulher da Casa Abandonadapodcast lançado pelo jornal Folha de S.Paulo em 8 de junho e que se tornou um fenômeno da chamada “podosfera”.

Podcast é a gravação, em estilo radiofônico, lançada em plataformas na internet – os tais “agregadores de podcast” (eu utilizo um, gratuito, no meu celular, chamado Castbox) –, e que abordam de tudo um pouco, de esportes a filmes de terror, de culinária a “nerdices”, de nuances do Direito à política internacional.

Em alta na podosfera, assim como nos serviços de streaming, está o true crime, ou “crime real”, em tradução livre. O interesse do público por crimes que, de fato, aconteceram, e são desenterrados através de séries, sejam elas em áudio ou vídeo, é tamanho que se tornou um dos carros-chefes do Netflix, e o HBO Max acaba de lançar Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez, sobre a atriz, morta em 1992.

A Mulher da Casa Abandonada é sobre um crime. Mas quando o jornalista Chico Felitti propôs a pauta, em 2021, ele ainda não sabia que o podcast teria essa abordagem. Em uma live na quinta-feira passada, ele confidenciou que a ideia era falar sobre uma mansão em ruínas, localizada em um dos bairros mais chiques de Higienópolis (São Paulo).

Mas ao pesquisar a casa, ele descobriu que havia uma mulher dentro dela. E que essa mulher tinha um passado sinistro, que ele foi descobrindo paulatinamente: ela, a mulher da casa abandonada, havia mantido, junto com o marido, uma outra mulher em condições análogas à escravidão por impressionantes 20 anos. E nos Estados Unidos.

podcast, então, é uma espécie de making of desse caso. Com um gravador em mãos, sempre ligado, captando sons e diálogos, Felitti foi registrando toda a sua pesquisa sobre o caso, de dezembro de 2021 a maio deste ano. Um trabalho que rendeu uma tremenda narrativa.

Com um texto que transborda literatura e uma narração para lá de envolvente, Chico Felitti nos conta uma história, a história de Margarida Bonetti, a tal mulher da casa abandonada, uma foragida do FBI que viveu tranquilamente em Higienópolis por mais de duas décadas, se apresentando como “Mari” e defendendo causas ambientais sobre o pretexto de teorias conspiratórias.

Essa pauta levou Felitti até os EUA, onde procurou ex-vizinhos do casal e chegou até um cartório, onde conseguiu uma cópia do processo sobre o caso que ocorreu em uma pequena cidade próxima à capital Washington DC e teve uma repercussão mundial em 2000. Fez descobertas impressionantes, como encontrar o paradeiro de René Bonetti, ex-marido de Margarida, que foi condenado e cumpriu toda a pena por diversos crimes em torno da doméstica que o casal mantinha como uma escrava dentro de casa. E chegou a falar com a própria vítima do caso, cujo nome ele preferiu omitir, mas que, segundo ele, está bem e vive em algum lugar dos EUA.

Não tenho espaço para discorrer sobre o ocorrido, em si, por isso vou me limitar a dizer que, como jornalista, muito me alegrou ouvir um material rigorosamente apurado, a partir de um repórter motivado, incansável, que não mediu esforços para encontrar todas as respostas para um caso repleto de becos sem saída. Tudo registrado no podcast, inclusive a única entrevista que Margarida Bonetti deu sobre o assunto, em maio passado, mais de 20 anos depois do julgamento do caso.

Me chamou a atenção como o público se envolveu na história. Na live que Chico Felitti apresentou na quarta-feira passada (20), poucas horas após a mulher da casa abandonada ter sido alvo de um mandado, não pelo caso ocorrido nos EUA, que acusa Margarida Bonetti, mas uma denúncia que a torna vítima de abandono de incapaz, o jornalista admite que foi o TikTok quem deu uma levantada no podcast.

De fato, A Mulher da Casa Abandonada tornou a tal casa abandonada uma atração turística e Margarida Bonetti, outrora apenas um “fantasma” habitando uma casa em ruínas, em celebridade. As imagens sobre a batida policial do último dia 20 mostram uma série de anônimos fazendo selfies e postando em suas redes sociais, inclusive com o rosto besuntado de pomada branca, como o jornalista descreve Margarida em seus primeiros encontros.

Quem são esses “digital influencers”? Pessoas pedindo justiça pelo crime cometido pela mulher da casa abandonada? Ou compadecido daquela senhora de 68 anos que, embora fosse uma foragida da justiça americana, mora em um local insalubre, como mostrou o Fantástico no domingo passado (24)?

Não… são apenas caça-cliques em busca de mais popularidade nas redes, de aumentar o número de seguidores e procurar faturar alguns trocados, ou permutas por roupas e outros mimos, e que nada contribuem com o debate social e político de um Brasil dormente, que não se choca com um crime bárbaro como é manter outro ser humano escravizado, não por uma semana ou um mês, mas 20 anos.

 *Coluna publicada originalmente na edição impressa de 26 de julho de 2022.

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