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‘Carlos, Erasmo’ faz 50 anos sem perder o frescor

por publicado: 08/06/2021 11h38 última modificação: 08/06/2021 11h38


Sábado passado, Erasmo Carlos completou 80 anos de idade. Portanto, acabara de fazer 30 quando Carlos, Erasmo chegou às lojas de todo o Brasil em julho de 1971, mostrando uma faceta mais madura, brasileira e diversificada do jovem que, cinco anos antes, aos 25, era um ídolo juvenil projetado pelos acordes de guitarra da Jovem Guarda, fenômeno que alavacara tanto a sua carreira, como a de seu amigo de fé e irmão camarada Roberto Carlos e da “Ternurinha” Wanderléa (que, cinco anos mais nova que o “Tremendão”, também aniversariou no dia 5 de junho).

Para contar a história de Carlos, Erasmo é preciso voltar à 1968, quando a Rede Record tirava do ar o programa Jovem Guarda (aquela altura, sem Roberto). Outros jovens cabeludos despontavam naquele ano, com uma música mais sofisticada, letras de contestação a um Brasil regido por uma ditadura militar e uma atitude de representatividade social que tornavam os “iê-iê-iês” da Jovem Guarda, coisa de criança. Eram os tropicalistas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes.

Prestes a sair dos 20-e-poucos e alcançar na idade “madura” dos 30, Erasmo entrava, por ali, numa crise artística, enquanto o Brasil se abria a outros tipos de sons e a música brasileira abraçava outros acordes (incluindo o próprio Roberto). Desse reflexo, nasceu a canção (creditada à dupla Roberto e Erasmo, mas composta mais pelo segundo, que pelo primeiro) pela qual Erasmo certa vez me disse que gostaria de ser lembrado para sempre: ‘Sentado à beira do caminho’.

Lançada em Erasmo Carlos e Os Tremendões, álbum que antecede Carlos, Erasmo, a letra de ‘Sentado à beira do caminho’ deixava de lado o tom arrogantemente juvenil de músicas como ‘Eu sou terrível’ (“Eu sou terrível, vou lhe contar / Não vai ser mole me acompanhar...”) para mostrar um artista mais vulnerável (“Preciso acabar logo com isso / Preciso lembrar que eu existo…”).

O disco de 1970 (que seria o último LP do Tremendão pela então RGE) já mostrava o interesse de Erasmo Carlos em abraçar novas sonoridades. Os arranjos refletem as orquestrações de Rogério Duprat que marcavam os LPs da turma do Tropicalismo, Erasmo (novamente, em parceria com Roberto) compunha um samba-rock (‘Coqueiro verde’, grande sucesso desse disco) e, de quebra, gravava uma música de Caetano (‘Saudosismo’).

O próprio Caetano iria fornecer uma canção inédita para abrir o próximo trabalho do ídolo da Jovem Guarda. Enviada do exílio do tropicalista em Londres, o também samba-rock ‘De noite na cama’ seria o carro-chefe de Carlos, Erasmo, disco que marcava a estreia do Tremendão na Phonogram (através do selo da Philips), gravadora que tinha em seu cast a turma da Tropicália e estava aberta a novas sonoridades, a ponto de entregar ao próprio Erasmo, a liberdade artística e criativa do disco, o que não acontecia na RGE.

Talvez por isso, o “Gigante Gentil” não tinha pressa para terminar seu álbum. Gravado em três estúdios diferentes (dois em SP e um no RJ), ao longo de dez meses (entre agosto de 1970 e maio de 1971), Carlos, Erasmo tinha nada menos que quatro produtores e três arranjadores, além de um punhado de músicos que entravam e saiam do estúdio, como se estivessem numa festa de aniversário na casa do titular do LP (antes da pandemia, claro).

O disco de 1971 é tido como uma das maiores reuniões de talento em um único álbum de música: estão lá o citado Duprat que, ao lado de Chiquinho de Moraes e Arthur Verochai, responde pelos arranjos e regência das faixas. Além disso, as guitarras foram gravadas com bambas como Lanny Gordin (famoso por acompanhar Gil e Gal), Sérgio Kaffa (O Terço) e Aristeu dos Reis (da banda Os Tremendões, que também forneceu o tecladista Régis Moreira). O bossanovista Sérgio Fayne gravou os violões, assim como a cuíca é de Oswaldinho da Cuíca, o agogô ficou com Antônio Filho e o baterista Dirceu Medeiros se ocupou do berimbau.

Os créditos também trazem Marisa Fossa (do grupo O Bando) fazendo dueto com o anfitrião em ‘Masculino, feminino’e três integrantes d’Os Mutantes (Liminha, Dinho e Sérgio Diaz), mas ignoram a participação de Marcos Valle e Taiguara, além de Os Titulares do Ritmo (por estarem em contrato com outras gravadoras, não puderam ter seus nomes no encarte).

O repertório, repleto de grande canções (99%, inéditas), traz composições de Homero Moutinho Filho (‘Masculino, feminino’), Taiguara (‘Dois animais na selva suja da rua), Marcos e Sérgio Valle (‘26 anos de vida normal’), Jorge Ben Jor (‘Agora ninguém chora mais’), Fábio e Paulo Imperial (‘Em busca das canções perdidas de nº 2’), além de toda uma safra creditada à dupla Roberto-e-Eramo, entre elas a controversa ‘Eu quero Maria Joana’, uma rumba que, marotamente, faz referência à maconha (o que levou muitos radialistas de então a questionarem se o puritano Roberto havia mesmo participado dessa faixa) e ‘Mundo deserto’, que acabou sendo lançada por Elis Regina, naquele mesmo ano, no álbum Ela.

As letras da dupla, assim como o repertório selecionado para o disco, têm muito a dizer até mesmo hoje, 50 anos depois. (Re)descoberto pela nova geração através do vinil, ali, em meados dos anos 2010, Carlos, Erasmo segue como um discão de múltiplas sonoridades, caminhos e leituras, reafirmando o oitentão Erasmo como um eterno gigante da música.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 08 de junho de 2021.

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