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‘Imagine’ faz 50 anos, atualíssimo

por publicado: 14/09/2021 08h00 última modificação: 14/09/2021 09h59
Foto: Spud Murphy/Divulgação Lennon (entre George Harrison e Yoko Ono) dá um tempo nas gravações de ‘Imagine’ para tomar um chá na cozinha da mansão de Ascot.

Lennon (entre George Harrison e Yoko Ono) dá um tempo nas gravações de ‘Imagine’ para tomar um chá na cozinha da mansão de Ascot.


Na última quinta-feira (9), o disco Imagine chegou aos 50 anos, vivo, inteiraço e, sobretudo, relevante, com repertório que aspira um mundo melhor (‘Imagine’), mostra que as aparências enganam (‘Crippled inside’ poderia ser inspirada no Instagram ou TikTok), protesta contra a guerra e a brutalidade armamentista (‘I don’t wanna be a soldier mama I don’t wanna die’), revela que homem também é o sexo frágil (‘Jealous guy’) e a insegurança do macho-alfa (‘How?’), e está assombrosamente conectado com a vida política do Brasil de hoje (vide os versos “Estou farto de ler coisas de políticos neuróticos, psicóticos e teimosos... Tudo que eu quero é um pouco de verdade, apenas me dê um pouco de verdade”, de ‘Gimme some truth’).

Ao redor do planeta, o aniversário do álbum de John Lennon (1940-1980) foi celebrado das mais diversas maneiras. Trechos da canção ‘Imagine’, por exemplo, foram projetados em prédios famosos de vários países, como a Catedral de São Paulo, em Londres, e a famosa Times Square, em Nova York.

O repertório de 10 faixas lançadas em 1971 é resultado de uma tremenda experiência caseira conduzida por Lennon e Yoko na mansão do casal em Ascot, ao Sul da Inglaterra. No imenso casarão branco, o ex-Beatle mandou erguer um baita estúdio com tudo que havia de melhor em termos de tecnologia para gravação de discos naquele raiar dos anos 1970. Recrutou técnicos e músicos bambas, e o disputado produtor Phil Spector para comandar o processo.

Assim, entre um chá com bolachas na cozinha, em meio a um entra-e-sai de convidados (como George Harrison), um cochilo no sofá da sala e um café da manhã no terraço com a bela vista campestre de Ascot, foram registradas as canções supracitadas, além de ‘It’s so hard’, ‘Oh my love’, ‘How do you sleep’ e ‘Oh Yoko!’, e ainda ‘Power to the people’, ‘Well’, ‘God save us’ (e suas variações, em protesto à prisão dos editores da revista Oz, como escrevi na edição de 6 de julho), mais o hino pacifista ‘Happy Xmas (War is over)’, lançadas em singles e coletâneas.

Creio que não há outro disco do universo da cultura pop mais dissecado que Imagine. Só o mercado possui dois documentários disponíveis em mídia física abordando o assunto: Gimme Some Truth e Above Us Only Sky, além de um livro, homônimo, e de uma superedição de luxo (Imagine - The Ultimate Collection) contendo quatro CDs e dois blu-ray áudios que reúnem praticamente tudo de relevante que foi gravado naquelas sessões de fevereiro, junho e julho de 1971, ambos lançados em 2018 (não no mercado brasileiro, infelizmente).

Gimme Some Truth é o chamado “making of” do disco. Durante as gravações de Imagine, o diretor Andrew Solt (que faria, mais tarde, o documentário This is Elvis) sacou sua câmera e registrou o processo criativo do álbum, bem como o cotidiano da mansão de Ascott. O filme, devidamente restaurado, foi lançado em 2018 tanto em DVD (com edição comercializada no Brasil), quanto em blu-ray.

Ambas as edições ainda trazem o filme experimental Imagine (não confundir com o filme homônimo de 1988, sobre a carreira de Lennon), dirigido, editado e estrelado pelo casal John e Yoko. Trata-se de uma colagem de cenas aleatórias, muitas delas embaladas pelas faixas do disco Imagine e que acabaram se tornando videoclipes promocionais. Mas o conjunto, de pouco mais de uma hora, vai além, rendendo sequências surrealistas, como quando John e Yoko jogam um xadrez completamente branco em um tabuleiro sem cor.

Above Us Only Sky (título extraído da letra da música ‘Imagine’) pode ser visto no Netflix e também saiu em DVD no Brasil. O filme procura dar a devida importância a Yoko Ono na confecção do repertório de Imagine, sobretudo na canção homônima, cujos créditos passaram a trazer o nome da artista visual como coautora a partir de 2017 – escrevi sobre o filme na edição de 7 de maio de 2019.

Todo esse material, devidamente filtrado pelo rigor de Yoko para com o espólio do marido, mas extremamente generoso com imagens e informações que traduzem bem a personalidade e o gênio criativo de Lennon, servem para compreender não só o que representa o conjunto de músicas abarcado naquele LP que os fãs passaram a ouvir a partir de 9 de setembro de 1971, assim como o pensamento de um artista que entendia a força e o poder de suas canções frente a um mundo polarizado, intransigente e socialmente confuso como o daquela época, um ano que ressoa no Brasil, e no mundo, 50 anos depois.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 14 de setembro de 2021.

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