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‘Sweet Tooth’: uma fábula para todas as idades

por publicado: 15/06/2021 08h00 última modificação: 15/06/2021 09h47
Christian Convery vive o ser híbrido Gus na série com a pegada clássica da jornada do herói com distopia para tempos de pandemia

Christian Convery vive o ser híbrido Gus na série com a pegada clássica da jornada do herói com distopia para tempos de pandemia


Um garoto cresce sozinho no meio de uma floresta, lendo livros costurados pelo pai e se divertindo com brinquedos artesanais feitos por seu guardião, que insiste em lhe dizer para temer caçadores e nunca, nunca ir para além das cercas que protegem os dois de um mundo caótico, perigoso e que se tornara desconhecido após um vírus transformar o planeta em um cenário digno de The Walking Dead, mas sem zumbis putrefatos com o olho caindo pelo lado.

Assim é a criação de Gus (vivido pelo fantástico Christian Convery, que sexta-feira revelou ser um torcedor do Atlético-MG), a estrela do seriado Sweet Tooth, o novo fenômeno audiovisual da Netflix, encantando adultos e jovens na mesma proporção. Afinal, com a pegada clássica da jornada do herói, o seriado de oito episódios tem um quê de fábula infantojuvenil e distopia para tempos de pandemia, afinal o vírus altamente contagioso e letal obriga pessoas a manterem distanciamento social e usarem máscara.

Nesse ambiente, a gente logo descobre que Gus é um híbrido entre humano e animal, uma criança de seus 10 anos de idade com orelhas e chifres de veado. Como ele, há várias crianças assim: uma garotinha com orelhas e focinho de porco (que, na tradução brasileira, é chamada por uma adulta de Rabicó), outros têm asas e penas, rabinhos, presas, tromba e tem até uma criança-topeira, mais bicho que gente.

Não se sabe quem veio antes, o vírus ou as crianças-híbridas, mas há personagens muito malvados dispostos a dissecar as fofas criaturas para descobrir isso e essa ameaça é o que movimenta a trama, coesa, enxuta, repleta de ideias e reflexões acerca de intolerância, segregação e sectarismo, ou seja, uma tremenda lição para os tempos de hoje, independente de coronavírus.

E se há caçadores dispostos a encontrar crianças-híbridas, há quem resolva protegê-los também. E é graças a eles que Gus sobrevive – pelo menos na primeira temporada, já que a segunda está a caminho, para meados de 2022 – em meio a jornada para encontrar sua mãe, depois que perde o pai e é obrigado a sair do seu “cercadinho”.

O primeiro a topar com o garoto cheio de energia e louco por chocolate (daí lhe dar o apelido do “bico doce”, que é meio que a tradução do título da série, mantido em inglês pela Netflix Brasil) e o acolher é o grandalhão Tommy Jepperd (o ator inglês Nonso Anozie, conhecido por pequenos papéis em Cinderela e o remake de Conan, O Bárbaro).

A contragosto, Jepperd topa escoltar o garoto até a cidade onde supostamente se encontra a mãe de Gus. No meio do caminho, entre os perigos de dar de cara com caçadores em um mundo caótico, sitiado por milicianos, regiões inteiras abandonadas, racionamento e o fim do dinheiro (aqui, voltamos ao escambo), a dupla encontra um grupo de garotos (que me lembrou os Garotos Perdidos de Peter Pan), onde irão contar com o apoio da Ursa (Stefania LaVie Owen).

A jornada de Gus é apenas uma das três pistas da trama. Em paralelo, a gente fica conhecendo o drama do médico Aditya Singh (o ótimo Adeel Akhtar, ator frequente em seriados) e sua esposa, vivendo em uma fortaleza onde pessoas doentes são sumariamente exterminadas, e a dinâmica Aimee (Dania Ramire, conhecida por pequenos papéis em filmes como X-Men American Pie). E essas três histórias hão de se encontrar em algum momento…

O elenco é ótimo e a história fará até o mais preguiçoso assinante do Netflix querer ver do primeiro ao último episódio em um fôlego só.

Em tempo: Sweet Tooth é inspirado em um quadrinho escrito e desenhado pelo canadense Jeff Lemire, o nome mais quente da nona arte no momento. O título já foi editado no Brasil como uma HQ voltada ao público adulto (há motivações bem diferentes para o mesmo personagem, por exemplo) e ganhou reedição agora em três volumes pela Panini.

Lemire, aliás, é um artista para você prestar atenção: entre escrever (ótimas) histórias para super-heróis ou personagens famosos do mundo dos quadrinhos, ele consegue publicar seus dramas soberbos por editoras independentes (procure O Soldador Subaquático Condado de Essex, apontados como obras-primas do autor) e ainda a série Gideon Falls, cujo o sexto e último número acaba de ser publicado no Brasil (com promessa de, também, virar seriado de TV).

E, claro, o título que conecta o criador de Sweet Tooth com a Paraíba: Berserker Unbound, escrito por Jeff Lemire e ilustrado pelo nosso Mike Deodato Jr.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 15 de junho de 2021.

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