Contraste

Você está aqui: Página Inicial > Notícias > Colunistas > André Cananéa > ‘Tubarão’: uma analogia com o coronavírus

Notícias

‘Tubarão’: uma analogia com o coronavírus

por publicado: 16/06/2020 00h03 última modificação: 15/06/2020 16h29
Após 45 anos desde sua estreia, o filme 'Tubarão' vem perdurando, conquistando fãs e sendo permanentemente revisitado

Após 45 anos desde sua estreia, o filme 'Tubarão' vem perdurando, conquistando fãs e sendo permanentemente revisitado

 

No próximo sábado, 20 de junho, os fãs de cinema irão celebrar os 45 anos da estreia do filme Tubarão nos cinemas. Influente longa-metragem, é um marco na carreira do diretor Steven Spielberg, talvez até mais que A Lista de Schindler, drama sobre o alemão que salvou centenas de judeus do nazismo e que levou nada menos que sete prêmios Oscar em 1994, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor.

Realizado em alto-mar, a produção foi um desafio para a equipe naqueles dias de 1974, mesmo com a Universal Pictures disponibilizando o tanque de água que fosse necessário para que Spielberg contasse a história de como uma pequena cidade litorânea lida com o ataque de um grande tubarão branco. Mas Spielberg, então com 26 anos e dois filmes elogiados no currículo (Encurralado, de 1971, e A Louca Escapada, de 1974), buscava ir além, e queria um filme que, acima de tudo, fosse autêntico.

Tubarão é o “filme de monstro” de Spielberg, como Os Pássaros é o “filme de monstro” de Hitchcock. Aliás, aquele é descaradamente influenciado por este, em várias de suas sequências e na ideia que Os Pássaros inaugurou uma corrente no cinema de terror em que os monstros não precisam ser distantes criaturas do folclore escandinavo, como Drácula, ou o monstro de Frankenstein, ou ainda insetos gigantes, que surgiram a reboque de explosões radioativas, como a bomba de Hiroshima. O “monstro” pode ser um canário fofo no seu quintal.

O diretor pegou esse conceito, que muitos chamam de “vingança da natureza”, e levou para a pequena ilha de Amity, repleta de famílias e crianças do dia-a-dia de todos nós. Isso, aliado a uma fábula universal, que remete a O Velho e o Mar, de Hemingway, e Moby Dick, de Melville, em uma estrutura clássica de roteiro, com personagens ricos e conflitantes (o trio interpretado por Roy Scheider, Robert Shaw e Richard Dreyfuss), criou um suspenso único, que apavorou muita gente ao redor do planeta. Afinal, quem não teve medo de ir à praia após sair com as pernas bambas do cinema?

Aliás, um dos fatores que faz com que Tubarão não tenha envelhecido um dia nesses 45 anos foi o “azar” que Spielberg e sua equipe tiveram de não conseguirem fazer os tubarões mecânicos, produzidos para o filme, funcionarem. A via crucis para produzir o marcante filme de 1975 é bem conhecida do público, e resultou em muita criatividade para contornar as dificuldades da filmagem.

Essas dificuldades geraram uma oportunidade única: criar um suspense a partir de uma ameaça que é apenas sugerida, e quase nunca mostrada (o espectador só vê o tubarão, de fato, com quase uma hora de projeção). O próprio Spielberg já disse que só teria tecnologia para fazer o filme que ele pensou na época nos anos 2000, e hoje, reavaliando essa ideia, diz que teria feito um filme muito mais fraco.

Fato é que o Jaws (título original, em inglês) vem perdurando, conquistando fãs e sendo permanentemente revisitado (a edição em blu-ray, lançada pelos 100 anos do estúdio Universal, reúne mais de quatro horas de análises, entrevistas e bastidores), mantendo o clima de tensão capaz de deixar o espectador longe do mar por vários dias – quem quiser (re)vê-lo, o filme está no catálogo do Netflix.

Tubarão também vem sendo reiteradamente reavaliado e nestes tempos de pandemia, guarda uma curiosa analogia com o coronavírus, retratada em memes que pulam de grupo a grupo no What’s App: depois de um episódio envolvendo um tubarão branco e a morte de uma jovem, o cauteloso policial Brody (Scheider) quer distribuir avisos pela praia, alertando para que os banhistas não entrem na água, sob o risco de virarem almoço de peixe grande.

É interpelado pelo prefeito Larry Vaughn (Murray Hamilton), que dá um conselho: se o policial gritar “barracuda”, ninguém liga. Mas se gritar “tubarão”, todo mundo sai correndo e a notícia que um predador dessa estatura estaria à espreita iria espantar os veranistas e atrapalhar os negócios da localidade.

Lembrou algum certo presidente de um certo Brasil? Pois é…

*publicado originalmente na edição impressa de 16 de junho de 2020.

registrado em: , ,

BR 101 - KM 03 - Distrito Industrial - João Pessoa-PB - CEP: 58.082-010
CNPJ 01.518.579/0001-41