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A Canção

por publicado: 20/11/2019 10h23 última modificação: 20/11/2019 10h30

 

Acredito que todo mundo tenha uma canção de estimação. Uma música que ouviu, grudou e não sai mais da cabeça. Uma obra capaz de congelar o ouvinte no tempo e no espaço, tirá-lo da Terra por alguns instantes e devolvê-lo impactado, arrebatado, mudado. Eu tenho. E embora seja um grande fã dos Beatles, ela não pertence ao cancioneiro dos quatro rapazes de Liverpool, que eu ouço há uns 40 anos e alguma coisinha. Um repertório que eu sei de cor e salteado e que tem várias canções capazes de me tirar de tempo, mas nenhuma delas é “a” canção.

‘Hey Jude’, talvez a mais querida composição dos Beatles, certamente é a minha canção preferida de todos os tempos. Tanto que nós temos uma filha chamada Jude. O nome dela não é, a rigor, uma homenagem à canção, muito embora a música de McCartney e Lennon (inverti propositadamente, afinal a música é mais do primeiro que do segundo) lançada em 1968 faça parte da nossa família de uma maneira muito presente e especial, e vem dos meus pais e já chegou aos nossos filhos. E, creio eu, seguirá de geração em geração daqui para frente.

A melodia de ‘Hey Jude’ bastaria para nos cativar, dos primeiros acordes ao piano ao fabuloso coro de 36 músicos entoando “na… na-na… na-na-na-na…  na-na-na-na… hey Jude!”, mas ainda tem a letra, uma mensagem de esperança, de superação, um tapinha no ombro de animação, desses que você dá naquele seu amigo borocochô: “Não leve o mundo nas costas”, “deixe-a entrar no seu coração, daí você vai começar a se sentir melhor”.

Mas ‘Hey Jude’ ainda não é “a” canção, como não é, também, ‘Heroes’. Essa música me persegue desde que eu era adolescente, com audições esporádicas, mas basta os primeiros riffs surgirem que desencadeiam um processo que começa na minha cabeça e termina no coração, ou vice-versa.

Eu cresci achando que a letra de ‘Heroes’ tratava de um casal de namorados em crise que tentava se ajeitar, mas quando nossos filhos nasceram, ela passou a ter um outro significado. Hoje, ‘Heroes’ soa, para mim, com um casal que precisa estar junto e vencer as adversidades para ser o herói de seus filhos, não “just for one day”, mas “forever and ever”. E quando a ouço, lembro de nós quatro, onde quer que eu esteja. E se o porta-retrato que temos em casa com a foto da família pudesse tocar uma canção, certamente seria essa.

Também não é ‘Comfortably Numb’, hit do Pink Floyd e uma das canções mais belas que eu ouvi em toda a minha vida e que assim como as outras, me acompanha de perto, aonde quer que eu vá, e que me soa como uma palavra de conforto em meio a uma crise de angústia. Assim como não são ‘Imagine’, ou ‘Happy Xmas (War Is Over)’, as “cartas” de amor e esperança cantadas por John Lennon e que costumam ecoar na minha cabeça a cada mês de dezembro, quando “um ano se vai e um novo está para começar”.

Ou as dezenas de músicas de Chico Buarque, Elis Regina, Luiz Gonzaga, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso e Gilberto Gil que me acompanham afetivamente desde que eu me entendo por gente (acredito que a primeira música que eu tenha ouvido com consciência do que estava ouvindo tenha sido ‘Alô alô marciano’, na voz de Elis, que tocava a exaustão quando eu tinha 5 anos de idade e eu me pegava pensando, com toda minha sabedoria infantil: será que dá mesmo para ligar para o marciano?).

Acho que “a” canção que realmente me intriga nem é tão antiga quanto as demais que eu citei acima, nem está no meu repertório afetivo. É uma canção nova, aliás. Se chama ‘Cold little heart’ e foi lançada em 2016, a bordo do disco Love & Hate, do londrino Michael Kiwanuka, uma das novas (e melhores) vozes do soul contemporâneo.

Conheci a música logo de seu lançamento, muito antes dela integrar a abertura do ótimo seriado Big Little Lies, da HBO. É uma música ambiciosa: seus quase dez minutos partem de um arranjo quase etéreo, lembrando as coisas do Pink Floyd. Ela começa bem baixinho, ao som do piano e violino, e lentamente vai crescendo até abraçar o dedilhado de uma guitarra, que pouco mais à frente, com a entrada da bateria, explode em um solo vigoroso, tudo isso acompanhado por um luxuoso arranjo vocal feminino, que dá o tom da melodia.

A “parte cantada”, por assim dizer, só vai entrar lá pelo meio, aos 5m03s, depois que a música muda surpreendente seu andamento: “Did you ever want it? / Did you want it bad? / Oh, my / It tears me apart…” canta a voz rascante de Kiwanuka.

Eu não saberia dizer ao leitor outra canção deste jovem e talentoso músico inglês. Eu não consigo passar dessa primeira faixa, quando ouço o disco. Quando ela termina, voltou para o começo e ouço-a novamente. Estou sempre nesse loop hipnótico de ouvir cada acorde atentamente, cada sílaba que ele pronuncia, sorvendo cada melodia, cada fraseado da canção e de como as cordas, a vocalização, a guitarra elétrica e a cozinha (baixo e bateria) se costuram nessa canção de amor pop soul moderna e extremamente elegante.

‘Cold little heart’ foi uma canção que me arrebatou desde o primeiro segundo que a ouvi. Não sei explicar a razão. Quando ouço-a, fico completamente inebriado por ela. Relendo 31 Canções, de Nick Hornby (Alta Fidelidade, Um Grande Garoto), ele cita o colega Dave Eggers para dizer que ele tem uma teoria de que ouvimos certas canções porque temos que “liquidá-las” e que no início de um namoro com uma nova canção, existe uma certa “perplexidade emocional”. Pois bem, estou vivendo essa perplexidade emocional junto a ‘Cold little heart’ desde 2016.

Agora, convido o leitor a ouvir a canção junto comigo, clicando no vídeo abaixo:

 

texto publicado originalmente na edição impressa de 19 de novembro de 2019

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