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A Cuca vem pegar...

por publicado: 16/02/2021 00h00 última modificação: 16/02/2021 12h46
Divulgação Marco Pigossi (E) vive um policial e José Dumond (D), o líder de um povoado em ‘Cidade Invisível’

Marco Pigossi (E) vive um policial e José Dumond (D), o líder de um povoado em ‘Cidade Invisível’


Recentemente, topei com uma postagem em uma rede social (Twitter?!) na qual uma moça provocava a indústria audiovisual brasileira a produzir títulos inspirados no Carnaval. “Os gringos têm uma porção de filmes sobre a magia do Natal, pois sugiro que a gente comece a investir na magia do Carnaval. Movimentaria a cultura, a economia e o coração gélido dos não foliões”, dizia o post.

Carlos Saldanha – o diretor brasileiro mais em alta em Hollywood, indicado ao Oscar pelo desenho O Touro Ferdinando, e conhecido pelas animações A Era do Gelo e Rio – percebeu que não só o Carnaval dava molho (como o fez em Rio), como extraiu do folclore brasileiro uma minissérie de fantasia que tem agradado aos assinantes da Netflix mundo à fora!

Cidade Invisível estreou semana passada direto no top 10 do serviço de streaming, não só do Brasil, mas de outros países, movido pela mistura de thriller policial com história sobrenatural. Já vi os oito episódios e, apesar de apostar nos clichês do gênero, a história prende a atenção e pode vir a despertar um mergulho mais profundo em criaturas tipicamente brasileiras, como Corpo-Seco, aquele figura que, de tão ruim, nem Deus nem o diabo quiseram saber dele, e por isso ele ficou na Terra a vagar e assombrar os vivos.

Se você prestar bem atenção nos serviços de streaming, vai notar uma predominância por histórias de fantasia baseadas em lendas e mitos de várias partes do mundo. Vikings (presente no catálogo da Netflix) mergulha nas lendas nórdicas para extrair um enredo de ação. Deuses Americanos (exclusivo do Amazon Prime) coloca em pé de guerra velhos deuses de um mundo politeista, com novas formas de adoração na América capitalista.

Atualmente, Carnival Row e His Dark Materials (ambos presentes no HBO Go) atraem jovens para o mundo da fantasia, e Once Upon a Time (Netflix) e Tell Me a Story (Amazon Prime) vão buscar nos contos de fada, a matéria prima para seus enredos. E é na pegada desses últimos que Cidade Invisível está inserida.

Na primeira investida de Saldanha do mundo live action, o diretor e produtor conseguiu colocar o Brasil nesse mapa com um sotaque próprio. Claro que, para isso, ele – que mora nos EUA e trabalha em Hollywood – entendeu que seria necessário seguir uma receita para que história tivesse apelo internacional entre os assinantes de streaming e, nesse aspecto, Cidade Invisível é muito similar ao supracitado Tell Me a Story, uma trama policial que traz personagens como Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau para o mundo contemporâneo, vivendo quase que anonimamente pelas ruas de Nova York.

Desse mesmo jeito se desenrola Cidade Invisível, só que  no Rio de Janeiro dos tempos atuais. Erick (Marco Pigossi) é um policial lotado na delegacia de crimes ambientais. Sua vida vira de ponta-cabeça quando sua esposa morre em um incêndio pra lá de estranho, enquanto participava de uma festa em uma vila de pescadores, no meio do mato.

A partir daí, ele começa a entrar numa espiral que envolve um boto cor-de-rosa, um saci, um curupira, uma sereia (a Iara) e outros seres encantados da floresta, incluindo uma Cuca que em nada se parece com o jacaré que habitava o Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas uma bruxa voluptuosa que se apresenta na forma da estonteante Alessandra Negrini, dona de um boteco na Lapa.

Negrini e Pigossi encabeçam o elenco, que tem sangue paraibano. Nosso José Dumont, aos 70 anos, tem papel de destaque na trama como Ciço, o líder do povoado de pescadores que deverá retornar na já alardeada segunda temporada da série.

O elenco ainda conta com Fábio Lago no papel do curupira (algo que fez o politicamente correto questionar o porquê de não escalar um ator indígena para o papel), Victor Sparapane como o boto cor-de-rosa, o baiano Wesley Guimarães na pele do saci, Jessica Córes como a bela e encantadora sereia, além do vocalista da banda de rock Matanza, Jimmy London, personificando o Tutu Marambá, personagem popularizado nas cantigas de ninar (como a Cuca e o Boi da Cara Preta), que sequestra crianças que choram na hora de dormir.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 16 de fevereiro de 2021.

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