Termino 2025 junto com a primeira temporada de Pluribus, a série-sensação do momento. Hoje disponível integralmente na plataforma Apple TV, o enredo parte de uma premissa curiosíssima: há um apocalipse “do bem”, em que 99% da humanidade torna- -se uma única consciência — o título é uma expressão em latim que pode significar “entre muitos” e pode ter surgido a partir do antigo lema dos Estados Unidos da América, “E pluribus unum” (ou “De muitos, um”).
Ou seja, como consciência única, todos os saberes são compartilhados nesse organismo fragmentado, de forma que uma criança de 12 anos pode pilotar um avião ou os habitantes de uma aldeia remota do Peru podem falar todas as línguas conhecidas. Pela premissa, não existem mais nações, nem sede de poder, nem guerra, nem cobiça, nem nada. É praticamente a canção “Imagine”, de John Lennon: “Imagine que não haja países (...) Nenhum motivo para matar ou morrer / E nenhuma religião também / Imagine todas as pessoas / Vivendo a vida em paz”.
Em paz, porém, com um propósito maior que não fica muito claro nessa primeira temporada de nove episódios, centrada na figura da escritora Carol Sturka (a ótima Rhea Seehorn), uma mulher amarga e pessimista que, em um piscar de olhos, vê o mundo ao seu redor transformar-se drasticamente, inclusive com a perda de sua companheira.
Carol é uma das 12 pessoas no planeta que não é afetada por esse “apocalipse”, na verdade, uma experiência extraterrestre concretizada pelos militares. Aparentemente, ela é a única que quer o mundo de volta como ele era antes. Afinal, uma das características dessa consciência única é agradar aos 12 que não tornaram-se parte desse coletivo e não podem ser afetados, a não ser que eles mesmos queiram.
Ter todos os carros que quiser, ocupar a suíte mais cara do mundo, relacionar-se com quem bem entender, degustar as comidas mais saborosas que o ser humano já experimentou: esse “gênio da garrafa” pode conceber qualquer coisa possível no mundo. E mais: as pessoas interconectadas são pacifistas, não matam um ser vivo — nem sequer arrancam um fruto da árvore, só utilizam os que já caíram ao chão — e sobrevivem de uma dieta que não vou detalhar aqui para não estragar a surpresa.
Por isso, Carol Sturka enfrenta resistência ao encontrar-se com os demais membros “independentes” em seu desejo de retomar o mundo tal qual ele era antes da invasão alienígena. Apenas um dos 12 não comparece ao encontro: um paraguaio que se revela ainda mais amargo e cético que a escritora norte-americana. A trama da primeira temporada, aliás, é pavimentar o terreno para o encontro entre ele — Manousos (o colombiano Carlos-Manuel Vesga) — e Carol, tendo como ponto nevrálgico Zosia (Karolina Wydra), a interlocutora da autora, escalada por ser muito semelhante à personagem mais famosa dos livros da escritora.
Idealizada por Vince Gilligan, responsável por sucessos do quilate de Breaking Bad e seu derivado, Better Call Saul, Pluribus é bem diferente de tudo que eu vi entre séries e filmes. É completamente fora da caixinha, embora seja filha legítima de Lost, por exemplo, com seus mistérios envolventes e labirintos cativantes.
Mas, assim como uma cebola, o novo sucesso de Gilligan é repleto de camadas. Há ali um questionamento muito claro do que busca-se muito hoje — sobretudo nas redes sociais —, a chamada felicidade plena. Se, por um lado, todos vivem como um, por outro, esse coletivo serve a poucos com muita presteza, sinceridade e nenhum questionamento. A premissa também tem sido comparada ao uso da inteligência artificial, cujos nossos desejos mais banais (bobos, até) são atendidos (digitalmente) em poucos segundos.
Mas o grande trunfo de Pluribus é, sem sombra de dúvidas, o desempenho extraordinário de Rhea Seehorn (que está em Better Call Saul). Intensa como poucas atrizes sabem ser, ela traduz com exatidão o contraponto desse mundo “Imagine”, ao compor uma personagem com fúria, determinada e bastante obstinada. Há um episódio que ela sustenta praticamente sozinha, como um monólogo televisionado. Ela, assim como a série, são dignos dos prêmios que hão de vir!
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 30 de dezembro de 2025.