No próximo domingo, dia 2 de março, o cinema vive seu ponto máximo no ano, com a entrega das cobiçadas estatuetas do Academy Awards, prêmio que passou a se chamar Oscar a partir de 1939 — reza a lenda, por causa de uma bibliotecária que achava o troféu entregue pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a cara do seu tio Oscar.
Perdão, Fernanda Torres, mas vai ter clima de Copa do Mundo, sim, afinal Ainda Estou Aqui pode não ter sido o primeiro filme brasileiro indicado ao Oscar, nem Fernanda a primeira brasileira a receber uma indicação na prestigiada categoria de Melhor Atriz (a mãe dela, Fernanda Montenegro, competiu em 1999 por Central do Brasil), mas é a primeira vez que o brasileiro vai para a arquibancada virtual gritar, torcer, desenhar esquema tático, xingar o adversário e beijar a camisa do seu time de coração — o Ainda Estou Aqui Futebol Clube — e exaltar todos os seus craques: Walter Salles, Fernanda Torres, Selton Mello e os demais envolvidos na produção que, até ontem, colecionava um total de 47 vitórias em meio a 62 indicações, provavelmente o filme brasileiro mais premiado da história — Central do Brasil fechou a conta com 44 vitórias, além de duas indicações ao Oscar, uma a menos que Ainda Estou Aqui.
A diferença do filme sobre o desaparecimento de Rubens Paiva durante a Ditadura e a liderança de Eunice Paiva nesse processo para Central do Brasil, e até mesmo para O Beijo da Mulher-Aranha, de Hector Babenco, um dos cinco indicados ao principal prêmio do Oscar de 1986, é a participação ativa de fãs de cinema (ou não) nas redes sociais. Estamos vendo não só uma projeção histórica para o cinema nacional com a belíssima campanha de Ainda Estou Aqui — e vale lembrar o prestigiado Urso de Prata obtido pelo filme O Último Azul, de Gabriel Mascaro, no sábado passado —, como a participação efetiva do público brasileiro, que opina desde a qualidade técnica de filmes até os modelitos vestidos por Fernanda Torres e as demais concorrentes deste ano.
Muita gente tem me perguntado quem leva o Oscar por melhor filme em 2025 e eu, honestamente, não sei. Não há um favorito, mas muitos favoritos, que é a mesma coisa de não ter nenhum. São 10 indicados e apenas um vencedor, ou seja, nove serão preteridos. Analistas buscam pistas, cutucam o histórico da premiação e observam de perto as campanhas para assinalar suas apostas.
Aliás, o que o Oscar deste ano deixa de legado é que ao menos nós, brasileiros, aprendemos como funciona a mais prestigiada premiação de cinema do mundo, e boa parte dos 10 mil votos que já foram depositados na disputa deste ano (a votação terminou na terça-feira passada) pode ter sido dada graças a essa movimentação feita por estúdios, produtores e atores nos meses que se passaram. Afinal, quem não viu a entrevista da atriz Karla Sofía Gascón atirando munição para cima de Fernanda Torres, ou o discurso de agradecimento de Demi Moore no Globo de Ouro praticamente dizendo que ela merecia levar também o Oscar deste ano? Isso tudo é estratégia de campanha.
O Brasil fez o dever de casa direitinho e temos essa dívida com Fernanda Torres, que se mostrou muito segura, mas também espontânea, inteligente e elegante na maratona de entrevistas que deu nos Estados Unidos e na Europa para promover seu filme. Sim, das frases ditas no Jimmy Kimmel Live e nos demais programas de prestígio da TV americana ao figurino utilizado em aparições públicas (li em algum lugar que o responsável pelo guarda-roupa da atriz quis que o figurino dela se conectasse ao da personagem que ela vive na tela), tudo faz parte da campanha para que o filme vença, quem sabe, nas três categorias para as quais está indicado.
E é justamente por essa campanha bem-feita, junto a um filme extraordinário, que tem lotado cinemas ao redor do mundo, que Ainda Estou Aqui não é carta fora do baralho na competição do Oscar, incluindo Melhor Filme, cuja bolsa de apostas inclui Anora, por ter vencido a premiação do Sindicato dos Diretores (forte termômetro do Oscar) e O Brutalista, pela coleção de prêmios que vem amealhando. Emilia Pérez, que vinha correndo como o grande favorito, tombou feio quando declarações e até postagens antigas de Karla Sofía Gascón vieram à tona e o filme praticamente sumiu da mídia justamente no momento mais crucial do Oscar, que são os oito dias que os votantes têm para escolher seus favoritos.
Não existe mais aquela coisa de “filme do Oscar”, que são as superproduções norte-americanas que dominaram a premiação por décadas. Somente nos últimos 10 anos, a galeria de vencedores inclui uma plêiade que até o fim do século 20 seria chamada de “azarões”: um filme coreano (Parasita), um filme indie (Nomadland), uma boa Sessão da Tarde inclusiva (No Ritmo do Coração) e uma comédia maluca (Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo).
Então, se me perguntarem se um drama brasileiro, 100% falado em português, sobre um crime praticado nos porões da Ditadura Militar e com mensagens claras à tirania da direita, tem chances de ganhar o mais importante prêmio do cinema no país governado por Trump, e que tem Elon Musk na equipe fazendo saudação nazista, eu diria que tem toda a chance. E torço por essa vitória.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de fevereiro de 2025.