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BaianaSystem, a axé (e-)music e as rezadeiras de Boa Vista

por publicado: 23/02/2021 08h33 última modificação: 23/02/2021 08h33
Foto: Reprodução Rita Jovem, paraibana cuja voz está no disco do BaianaSystem

Rita Jovem, paraibana cuja voz está no disco do BaianaSystem

É cada vez mais comum conversar com pessoas da minha geração - que cresceu ao som do rock dos anos 1980 -, às vezes um pouco mais velhas, às vezes, mais novas, que não encontram mais uma “nova” banda, mesmo no oceano de novidades que as plataformas de streaming de música despejam diariamente em fones de ouvido e alto-falantes mundo à fora.

Em 2021, parece que nossos ídolos ainda são os mesmos - os meus, dos meus pais e até dos meus filhos (o mais velho adora Beatles) - e as aparências não enganam mesmo não. Você pode até dizer que eu estou por fora, ou então que eu estou inventando (para não perder o fio da meada da letra de Belchior). Ou não? Bem, aqui e acolá aparece um grupo com algo a mostrar, embora sem uma musicalidade capaz de revolucionar a música brasileira.

Da nova geração brasileira, o BaianaSystem (que já tem mais de dez anos de carreira, portanto, já não participa mais da categoria “revelação”) é o que vem se destacando, sem o furor de um Chico Science & Nação Zumbi, quando surgiu, trazendo de volta a brasilidade da música brasileira (perdoem a redundância, mas é intencional) e liderando todo um movimento em direção a um mangue de ideias e sons, captados por antenas parabólicas em uma era pré-internet.

O BaianaSystem é um filho de Chico, de Science e da alquimia da Nação Zumbi que sacudiu a cena. Já animou muitos carnavais em Salvador com uma espécie de axé “e-music”, adicionando timbres eletrônicos à guitarra baiana e percussão de tambores e atabaques que são característicos do movimento que sacudiu o país nos anos 1990 a bordo de dezenas de micaretas.

BS está de disco novo na praça, Navio Pirata, em que reforça ainda mais as características eletrônicas, apresentando um som tribal baseado no dub, ragga, rap e na própria composição rítmica da Bahia. A mistureba é explosiva e tem como proposta unir a cultura baiana com a da Tanzânia, na África, em um projeto batizado de Oxeaxeexu, que é dividido em três “atos” - entendi que são três discos a serem lançados até o final de março: Navio Pirata, que já saiu; Recital Instrumental, que sai dia 5 de março; e América do Sol, previsto para o dia 26 do mês que vem.

Navio Pirata está navegando pelo imenso oceano do streaming desde o último dia 12. Esteticamente, o som do álbum nem é novidade. Remete, com muita proximidade, ao som que fez o Asian Dub Foundation circular o mundo a partir de meados dos anos 1990 - com uma escala no Abril Pro Rock, em Recife, na edição de 2001. Formado em Londres por integrantes indianos, o grupo mesclava música com ativismo e pregava por justiça social e um mundo livre de racismos.

É a praia do BS, sem sombra de dúvidas. Se Navio Pirata não inventa a roda, em se tratando de ideias sonoras, é na fala que constitui a riqueza desse trabalho, um álbum curto, com sete faixas apenas. Discursos anti-establishment, que busca igualdade racial e social, política (a começar pela capa, que traz a bandeira do Brasil em branco-e-preto) dão o tom das letras. “No clima não subestime na crise não vá pro crime / Entoando essa canção selva subindo sublime / Pobre tem que ajudar pobre / Do rico já tem quem cobre”, diz um trecho de ‘Nauliza’, que traz a participação do rapper africano Makaveli.

A malemolente ‘O que não me destrói me fortalece’ e a ‘Monopólio’, que abre com um sampler de ‘Pot-pourri’, faixa do LP Anticonvencional, álbum cultuado de Cyro Aguiar, dão o tom do disco. Aliás, Cyro é um dos resgates importantes de trabalho, que abre com os versos “Primeiro, nunca matar / Segundo, jamais ferir / Terceiro, estar sempre atento / Quarto, sempre se unir / Quinto, desobediência às ordens de vossa excelência que podem nos destruir”.

O sampler foi extraído do LP Cantata Para Alagamar (1979), de José Alberto Kaplan e W.J. Solha, abordado em matéria de capa, aqui mesmo, em A União, na última sexta-feira. Mas a conexão com a Paraíba não fica por aí: a faixa seguinte, ‘Raminho’, é, basicamente, trechos de uma reza feita por Rita Jovem, a Dona Rita, rezadeira aqui do Sertão do estado, que figura no documentário O Ramo (2013), rodado em Boa Vista (região metropolitana de Campina Grande), sob a direção de Breno Cézar.

Pesquisando, encontrei uma nota da prefeitura de Boa Vista, datada de 2 de junho do ano passado, lamentando a morte “Rita Rezadeira”, como também era conhecida. A nota não diz o motivo da morte, mas informa que Rita Jovem tinha 94 anos de idade. Agora, sua reza continua benzendo a música popular brasileira.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 23 de fevereiro de 2021.
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