Eu não tenho dúvidas: a 2ª temporada de Cangaço Novo é paraibana, e eu posso provar! Começo pelas gravações: realizadas entre setembro e dezembro de 2024 — tempo mais curto que o das gravações da 1ª temporada, em 2022, segundo apurei com quem trabalhou nos bastidores —, as filmagens se concentraram quase que exclusivamente nos arredores de Cabaceiras e Campina Grande, com algumas poucas diárias no município de Parelhas, no Rio Grande do Norte, já no limite com a Paraíba.
Agora o elenco: nunca vi uma concentração tão grande de atores e atrizes paraibanos em uma produção que não fosse eminentemente local. E não falo só dos figurantes que fazem número nas cenas, mas de personagens com nomes e falas, começando com Marcélia Cartaxo, reprisando, com mais destaque, a Tia Zeza, figura materna dos irmãos Vaqueiro — Ubaldo (Allan Souza Lima), Dinorah (Alice Carvalho) e Dilvânia (Thainá Duarte).
E não apenas ela: Daniel Porpino mostra seu talento visceral, assumindo um dos papéis principais da nova temporada, o político Paulino Leite, marido da destemida Leilianne (a pernambucana Hermila Guedes). Joálisson Cunha, elogiado por O Agente Secreto, mantém-se sob os holofotes no papel do bandido Tirolesa, que dá suporte aos irmãos Vaqueiro.
Mas bastam os dois primeiros episódios da 2ª temporada para que rostos conhecidos dos nossos palcos, cinema e TV pululem na tela. De largada, fui arrebatado por toda a força das interpretações de Marcélia e de Luiz Carlos Vasconcelos, que segue no papel do corrupto senador Deocleciano Maleiro.
Adiante, mais paraibanos vão surgindo: Rafa Guedes, no papel do (quase) secretário de Meio Ambiente; Lucas Veloso, como o meliante gago Fafafá; e ainda uma participação para lá de especial de Fernando Teixeira, como Seu Moacir, na arquibancada da vaquejada, que é cenário do segundo episódio. Buda Lira e Dudah Moreira, respectivamente Waldomiro e Dona Luzia, têm seus papéis ampliados na nova temporada.
Mas a lista nem para por aí: o novato Edvan Lima interpreta o bandido Baraúna, que reforça uma das cenas de ação mais eletrizantes da temporada; e ainda há Fábio Campos, Edigar Palmeira, a cantora Gitana Pimentel, no papel de uma repórter, e Kassandra Brandão, estreando nesta temporada no papel de uma policial.
Nascida em Santa Luzia e radicada em João Pessoa, Juciene Fernandes interpreta Zélia. Ela e o pernambucano Fábio Calamy interpretam os pais da pequena Vitória, criança que leva a história de Dinorah a um novo rumo e poderá surpreender na 3ª temporada, que se anuncia no último episódio (e é dada como certa nos bastidores, tendo até o roteiro já sido encomendado pela Prime). Vitória é vivida por uma moradora de Cabaceiras e já fez figuração em outra série badalada do streaming, também gravada por lá, Maria e o Cangaço. Isso sem falar em outros artistas paraibanos que eu, porventura, não tenha reconhecido.
E, se você achou pouco uma produção nacional, produzida pela tarimbada O2 Filmes, de São Paulo, em parceria com a norte-americana Amblin Entertainment (de ninguém menos que Steven Spielberg), para a multinacional Prime Video, ser rodada quase que integralmente na Paraíba e ter um elenco tão numeroso de paraibanos — em meio a um elenco majoritariamente nordestino —, a música de dois paraibanos embala momentos cruciais da trama: Zé Ramalho, com “A Terceira Lâmina”, lançada em 1981, e “Fênix”, música que abre o mais recente disco de Cátia de França, No Rastro de Catarina, lançado em 2024, aqui na voz (sim, na voz) de Dilvânia no clímax da história.
Oscilando entre a 1ª e a 2ª colocação das séries mais vistas da Prime Video desde que estreou, em 24 de abril, a 2ª temporada, com sete novos episódios, mantém a boa qualidade da primeira, com sequências de ação dignas de blockbusters norte-americanos (nos microfones da Parahyba FM, Buda Lira revelou que o diretor de ação da nova temporada é um espanhol que tem no currículo filmes como a franquia Indiana Jones), mas, desta vez, caprichando em um enredo mais intenso, que tem como pano de fundo a política municipal da fictícia Cratará e ressalta o poderio econômico do coronelismo.
A potiguar Alice Carvalho brilha não só na intensidade das ações de Dinorah, mas também nas tiradas espirituosas de um roteiro mais dinâmico e, por que não dizer, mais humano, equilibrando banditismo por uma questão de classe e misticismo (a partir da personagem de Thainá Duarte). Heróis e bandidos se confundem no arco narrativo, mas alguns vilões — como Gastão (do pernambucano Bruno Bellarmino) — não têm limites quando o assunto é crueldade.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 05 de maio de 2026.