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Chadwick Boseman forever

por publicado: 02/09/2020 10h58 última modificação: 02/09/2020 10h58

 

Em meio a um ano de muitas perdas e de uma pandemia que mudou drasticamente nossas vidas, a morte de um ator foi bastante sentida durante o fim de semana. Chadwick Boseman, astro do blockbuster Pantera Negra (2018) não sucumbiu ao novo coronavírus, mas a um câncer no cólon, doença que atinge 40 mil brasileiros por ano, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

A morte de Chadwick ganhou uma repercussão enorme por vários fatores: era jovem (43 anos) e estava no auge da carreira. A perda de astros de cinema nessas circunstâncias são trágicas por natureza, vide James Dean e Heath Ledger, para ficar nos dois que chegam mais rápido à minha mente. Mas no caso dele, dois outros fatores fazem pesar o pesar da perda: lutou com descrição e bravura e era um orgulho para o empoderamento negro (e calhou de falecer no dia em que milhares de pessoas se reuniram, nos EUA, para celebrar o aniversário do famoso discurso de Martin Luther King, “Eu Tive Um Sonho…”, clamando por justiça em uma época de muita perseguição racial).

Passando uma lupa na filmografia do ator, percebe-se que quando sua carreira ainda engatinhava em Hollywood, ele já sabia seu real papel no cinema: que black lives matters, ou “vidas negras importam”, em bom português! Daí, viveu ícones negros do esporte (Jackie Robinson, o primeiro afro-americano a integrar o alto escalação da liga de baseball nos EUA em 42: A História de uma Lenda, de 2013) e da música (James Brown em Get on Up, lançado no ano seguinte) – ambos com grande entrega profissional, reconhecida em inúmeras indicações a prêmios pelos dois papéis.

Também personificou com maestria um super-herói negro completamente devoto ao seu povo (Pantera Negra, primeira produção do gênero a receber uma indicação por Melhor Filme no Oscar) e ainda foi uma espécie de guru para um grupo de soldados durante a Guerra do Vietnã, em um filme de Spike Lee que busca lançar luz sobre a participação de militares negros durante a guerra (Destacamento Blood).

Entre filmes e séries, o ator fez 34 produções. A primeira, com apenas quatro anos, numa ponta no seriado All My Children (1970). Somente a partir de 2003 a carreira decolou para valer. Por quase dez anos, se dedicou somente às séries, com apenas um filme nesse meio tempo: No Limite - A História de Ernie Davis (2008), assim mesmo, como coadjuvante.

O protagonismo surgiu com o pouco conhecido The Kill Hole (2012), mas foi a partir de 42 que Hollywood começou a prestar atenção no talento do rapaz, conduzindo Chadwick Boseman a sua melhor fase no cinema – por uma triste coincidência, justamente quando foi diagnosticado com doença, no estágio 3 (já considerada grave, com o tumor chegando aos linfonodos). Por essa época, 2016, o ator estreava na tela como T’Challa, o Pantera Negra, em Capitão América: Guerra Civil, o primeiro dos três filmes da Marvel que ele faria no papel do super-herói, assinalando um lugar na história da moderna indústria cinematográfica e alcançando o coração de nerds que não param de homenagear o ator.

Um comunicado postado nas redes sociais do ator, anunciando sua morte na sexta-feira passada, o caracterizava como um “verdadeiro guerreiro”: “Chadwick perseverou e trabalhou em muitos filmes que você ama. De Marshall: Igualdade e Justiça a Destacamento Blood, Ma Rainey’s Black Bottom (ainda inédito) e muito mais, todos foram filmados durante e entre incontáveis cirurgias e sessões de quimioterapia”. 

Pantera Negra é dessa fase, assim como os demais citados no parágrafo anterior. Em Destacamento Blood, a participação dele é curta, mas fundamental para a trama. Assistindo-o agora, é de uma assombrosa coincidência: faz o papel de um soldado que já morreu, cuja lembrança segue a guiar os colegas por caminhos da perseverança e da honestidade. Um legado que corresponde ao que o ator deixa para a posteridade.

Destacamento... está disponível no Netflix. Outro filme recente dele, lançado nos cinemas no ano passado, Crime sem Saída, também está no streaming, no concorrente Prime Vídeo. No app do Telecine é possível ver Get on Up e Marshall

O ator deixa um filme inédito, Ma Rainey’s Black Bottom, ainda sem título oficial no Brasil, mas previsto para sair até o fim do ano pela Netflix, que bancou o projeto. Nele, Boseman vive um jovem e ambicioso trompetista, que acompanha a cantora Ma Rainey (papel de Viola Davis, que já havia trabalhado com ele na cinebiografia de James Brown).

O ator também tinha assinado contrato para viver outro personagem real, Yasuke, o único samurai de origem africana conhecido, e já havia sido contactado para voltar a vestir o uniforme de Pantera Negra na sequência do filme de 2018, cuja estreia estava prevista para 2022. Wakanda forever! E Chadwick Boseman também.

*coluna publicada originalmente na edição impressa de 01 de setembro de 2020.
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