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Cinema em xeque-mate?

por publicado: 08/12/2020 08h00 última modificação: 08/12/2020 09h56


Uns viram como um xeque-mate nas salas de cinema. Outros, mais otimistas, enxergaram o movimento feito pela Warner Media, no último dia 3, como mais uma crise para a indústria superar. Daqui de onde estou, vejo como o fato mais importante da história recente do audiovisual, um marco que resulta de várias forças agindo sobre o mesmo corpo.

Naquela quinta-feira, a Warner surpreendeu o mercado ao anunciar que todos, absolutamente todos os seus filmes planejados para 2021 serão lançados – simultaneamente – nos cinemas e no serviço de streaming da companhia, o HBO Max (que ainda não opera no Brasil, e é diferente do HBO Go, este sim disponível por aqui).

O desfile começa até mesmo este ano, com a estreia de Mulher-Maravilha 1984 no dia 25 de dezembro, que ficará disponível para os assinantes do serviço de streaming por 30 dias, incluso na mensalidade. Ou seja, o consumidor norte-americano vai escolher se quer ver a sequência do filme estrelado por Gal Gadot em 2017 no cinema, pagando ingresso e arriscando contrair covid, ou no conforto do lar, em uma TV de ultradefinição, longe do coronavírus e sem pagar um dólar a mais.

Nessa mesma lógica, o espectador poderá escolher onde ver – já na estreia – títulos como Duna, O Esquadrão Suicida, Godzilla vs. Kong, Matrix 4 e Invocação do Mal 3, entre outros blockbusters aguardado pelo público com a mesma ansiedade com que uma criança espera o presente do Papai Noel no dia 25, afinal estamos falando de mercado, não de cinema enquanto arte audiovisual, certo?!

A jogada da Warner é o resultado de um “novo normal” provocado pela pandemia do novo coronavírus. No período de quase um ano (e contando), a crise definiu novos hábitos, como uma maior permanência do público de cinema em casa, em frente a TV, com um leque cada vez maior de serviços que oferecem filmes pela Internet (dos títulos mais populares aos mais cults).

Com menos gente indo aos cinemas, lançar filmes de bilhões de dólares nesse circuito é certeza de fracasso de bilheteria. Afinal, é o resultado de uma matemática de mais subtrações que adições. O streaming, por sua vez, tem sua própria lógica de mercado, vide as produções próprias da Netflix e Amazon Prime, que têm se mostrado bastante lucrativas.

Aliás, a decisão da Warner também passa por essa planilha e por um fato tristemente verdadeiro: a outrora reluzente Hollywood vive, há anos, uma crise criativa, perdendo roteiristas, diretores e estrelas para os cada vez mais milionários serviços de streaming (vide cineastas de peso, como Martin Scorsese e, pasme, Steven Spielberg, que aderiu ao Apple TV+ depois de criticar a indicação de filmes da Netflix ao Oscar em 2019).

Covid, streaming e crise em Hollywood, portanto, levaram a Warner a quebrar a sacrossanta “janela de exibição” (intervalo de tempo que separa a estreia de um filme no cinema de sua chegada ao circuito doméstico, criada para valorizar a exibição na sala de projeção). 

O cinema, enquanto sala de exibição de filmes, claro, sai perdendo nessa queda de braço. Mas acredito que não perderá seu lugar no coração dos cinéfilos. Será muito como um restaurante: você tem comida em casa, certo? Mas vez ou outra, gosta de sair para comer fora. No entanto, para a grande massa, essa que costuma lotar as salas para ver filmes com muito tiro, pancada e bomba, esse público aí, muito provavelmente, vai preferir ficar em casa para ver uma estreia do que ir ao cinema. É essa a lógica com a qual a indústria encerra um triste ano de 2020.

*coluna publicada originalmente na edição impressa de 08 de dezembro de 2020.
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