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Cinema na pandemia: resistir é um desafio

por publicado: 06/10/2020 11h05 última modificação: 06/10/2020 11h05


O Jornal A União registrou, na quinta-feira passada, a reabertura gradual dos cinemas na Paraíba. Para fins históricos, Campina Grande largou na frente, com a volta do CineSercla à ativa. Localizado no shopping Partage, é o único complexo de cinemas da cidade, com cinco salas.

A prefeitura de João Pessoa ainda não liberou os cinemas da capital que, no início da pandemia, possuía um total de 27 salas, distribuídas por quatro shoppings e no Espaço Cultural José Lins do Rêgo. Patos, que tem – ou pelo menos tinha no início de 2020 – o segundo maior número de salas do Estado (oito, em dois shoppings) permanece inoperante. Os espaços de cinema em Guarabira, Solânea, Remígio e Catolé do Rocha também, segundo a reportagem.

Os detalhes da reabertura CineSercla estão lá: apenas três, das cinco salas, voltaram a operar, e, mesmo assim, com um número bastante reduzido de assentos disponíveis (cerca de ⅙ da capacidade), funcionários e públicos com máscaras, distanciamento e tudo o mais que os protocolos sanitários estabelecem.

A cereja do material é a entrevista – exclusiva – com o diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex), Caio Silva, que revelou: os prejuízos em todo o Brasil para as salas de cinema, por conta da pandemia, chegam a R$ 1,2 bilhões, que o setor espera recuperar pelos próximos quatro anos. Não será fácil!

Fico pensando, cá com meus botões, se o espectador mediano de cinema também não foi modificado pela pandemia. O ponto é o seguinte: muita coisa mudou nesses quase sete meses de isolamento social e, acredito eu, muita gente prefere trabalhar, fazer compras e se divertir a partir do conforto e da segurança de seu lar, através de um notebook ou celular. E se ficar em casa virou regra, muita gente adquiriu uma TV melhor para desfrutar de mais filmes e seriados através do streaming.

Para o bem ou para o mal, a pandemia nos aproximou ainda mais da Internet e até uma simples feira, que era feita na mercearia da esquina, passou a ser feita através da tela do celular. Então precisou de um cacho de bananas e uma bandeja de morangos? O celular resolve.

Daqui de onde estou, avalio a dificuldade que as companhias exibidoras terão de convencer o espectador a entrar em uma sala fechada, sem circulação de ar, e lá permanecer por umas duas horas ao lado de outras pessoas que lhe são estranhas ao convívio social, por mais que reduzam o número de pessoas nesse ambiente, afinal basta um contaminado para contaminar os demais. Além disso, será que, no escurinho do cinema, todos irão permanecer de máscaras?

Como eu disse, não vai ser fácil manter um cinema pelos próximos meses. Na prática, quando a porta-voz do CineSercla diz que vai limitar o acesso de espectadores às salas, ela está dizendo que, onde cabem 263 pessoas confortavelmente sentadas, só irão vender 40 entradas. Se já é difícil fechar a conta comercializando os 40 ingressos em todas as quatro sessões do dia, avalie o desafio que é manter o negócio girando quando, na realidade, a expectativa é vender bem menos na média mensal. E isso não é um problema exclusivo dos cinemas paraibanos, mas do mundo!

Força cinema! Você que já reinou absoluto até a chegada da televisão, sobreviveu ao home-vídeo (VHS, DVD, blu-ray) e, agora, ao streaming (Netflix, Prime etc.), não vai ser “uma gripezinha” que vai lhe derrubar. Ou vai?

Fiquei mais preocupado ao saber da situação do Cine RT, em Remígio. Está aí um cinema de resistência: foi aberto na raça por um mecânico apaixonado pela magia de uma sala de projeção, uma espécie de Francisgleydisson da vida real que tirou dinheiro de sua pequena oficina de motos para investir em seu “Cine Holliúdy”, com um projetor recuperado que comprou numa sucata, viu seu negócio prosperar em meio às adversidades, fez fama no Brasil e agora, mesmo que os decretos liberem o único cinema de rua da Paraíba (e um dos poucos do Brasil), ele não terá  a mínima condição de retomar o negócio por problemas técnicos que irão lhe custar a soma de R$ 40 mil, valor bem aquém das possibilidades do empresário.

À Regilson, o desejo de dias melhores para o Cine RT.

*coluna publicada originalmente na edição impressa de 06 de outubro de 2020.

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