Lançado recentemente no Prime Video, o documentário Paul McCartney: homem em fuga (no original, Paul McCartney: man on the run) cobre um capítulo importante da biografia do ex-Beatle: o momento em que ele fica desempregado. Ou seja, mergulha na mente do músico que dedicou toda uma vida ao fenômeno The Beatles e, em um intervalo de poucos meses, viu-se sozinho, recolhido em uma fazenda recém-adquirida na Escócia, recém-casado, com filhos pequenos, algumas ovelhas e muitas garrafas de scotch.
Mas não só isso: o filme também trata do Wings, a superbanda que Paul e Linda McCartney criaram no período pós-Beatles. A trajetória do Wings realmente merece ser bem explorada em um documentário à parte, mas, em Homem em fuga, dá para ter uma boa noção do percurso do grupo criado em 1971 e dissolvido 10 anos depois, em 1981.
Nesse intervalo, o grupo — que teve várias formações, mas sempre com Paul e Linda — lançou sete ótimos discos, incluindo o subestimado Wild life, o soberbo Red rose speedway e o badalado Band on the run (que inspirou o título deste filme), além de realizar uma turnê mundial, com destaque para a “perna” norte-americana e para um incidente no Japão, que acabou com Paul McCartney preso por uma semana.
Em suma, o filme retrata um “homem em fuga” da sombra de um sucesso retumbante, em busca de uma voz solo — ou melhor, em busca de si mesmo para, então, se reinventar e seguir uma carreira própria. Vale lembrar que Paul tinha apenas 27 anos quando os Beatles chegaram ao fim. “Eu passei pela infância, fui para a escola e, logo em seguida, me tornei parte desse quebra-cabeça dos Beatles”, afirma o músico logo no início do documentário.
Curiosamente, estou lendo uma biografia extraordinária que trata dessa mesma fase. Lançado pela editora Belas Letras em dois volumes (com o segundo anunciado para outubro), Paul McCartney: o legado – Vol. 1 vai de 1969 a 1973, ou seja, começa pelos dois últimos anos dos Fab Four e alcança os dois primeiros anos do Wings. O calhamaço detalha diversas passagens de Homem em fuga, como a fake news de que Paul teria morrido e sido substituído por um sósia, as confusões internas da Apple Corps Ltd. (de propriedade dos quatro rapazes de Liverpool), e as rusgas com o empresário Allen Klein, tido como o real motivo para o fim dos Beatles.
Paul anunciou publicamente o fim dos Fab Four em 10 de abril de 1970. A surpresa foi apenas para os fãs. O relacionamento entre os quatro já estava estremecido havia tempos. Se você assistiu à série Get back (Disney+), percebeu que, durante as gravações do LP Let it be, George Harrison e Ringo Starr chegaram a sair do grupo, mas retornaram depois.
Em 1969, John Lennon viu que a situação estava insustentável e, como legítimo criador dos Beatles (Paul entrou depois, levando consigo Harrison; Ringo chegou bem mais tarde), queria ser o integrante a anunciar o fim do grupo mais popular do planeta, mas o baixista queimou a largada.
O livro detalha — e o documentário apresenta bem — o vácuo em que Paul McCartney se encontrou depois que cada um foi para o seu lado. O reflexo dessa fase, que inclui quadros depressivos e uma bebedeira desenfreada, está “impresso” no disco McCartney, gravado solitariamente pelo músico, de maneira quase artesanal, e lançado 10 dias depois do anúncio do fim (que juridicamente só se concretizou em 29 de dezembro de 1974) e quase um mês antes do derradeiro álbum dos Beatles, Let it be.
Lançado no ano seguinte, em 1971, Ram, o segundo álbum solo de Paul, foi achincalhado pela crítica e acabou por levá-lo a decidir que era hora de criar outro grupo como parte de seu processo de reinvenção. Assim nasceu o Wings (ou “asas”, em português). “Ele queria que fôssemos tão conhecidos quanto os Beatles”, lembra o baterista Denny Seiwell.
A formação, os discos e as viagens do Wings ocupam a maior parte de Homem em fuga. Apenas com o nome da banda impresso em um ônibus, o grupo teve um início bem mambembe, com Paul e Linda levando os filhos a bordo, enquanto tocava para pequenas plateias pela Europa — isso até os promotores dos shows começarem a colocar o nome “Paul McCartney” em letras garrafais no cartaz da banda. Aí o jogo virou.
Nos shows de McCartney hoje em dia, é possível perceber que o público reage com a mesma empolgação tanto aos sucessos dos Beatles quanto aos do Wings, que emplacou hits como “Live and let die” (feita para o filme Com 007 viva e deixe morrer) e “Band on the run”, por exemplo.
Aos 83 anos de idade e prestes a lançar um novo álbum, The boys of Dungeon Lane, em 29 de maio, com 14 faixas inéditas (o primeiro single, “Days we left behind”, já está disponível nas plataformas de streaming), Paul McCartney é um assunto que não se esgota, provando que ele teceu uma carreira “off-Beatles” tão gloriosa quanto a de seu lendário grupo.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de abril de 2026.