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Discos raros

por publicado: 29/06/2021 08h00 última modificação: 07/07/2021 10h12


Com a volta das vitrolas às casas das famílias de classe média brasileira, o mercado de LP anda mais aquecido do que fogueira de São Pedro. E nesse comércio bastante legal de discos, em que a maioria dos álbuns passa de um colecionador para outro, muitas vezes intermediado por uma loja (e vale lembrar que João Pessoa já conta com quatro estabelecimentos físicos do ramo, e pelo menos outros três, por enquanto, virtuais), raridades aparecem em um piscar de olhos.

Semana passada, surgiu, de supetão, na Música Urbana, um exemplar do raríssimo Paraibô, disco lançado em 1978 pelo ex-The Gentlemen, produtor de disco de Cátia de França e amigo de fé e irmão camarada de Zé Ramalho, Hugo Leão (no álbum, assinando como Hugo Filho). O LP foi comercializado por “módicos” R$ 600 e, segundo o proprietário, Robério Rodrigues, não esquentou nem o banco da prateleira da loja: “Vendeu em segundos”, assegurou, informando que logo se formou uma lista com oito pretendentes à espera que o titular da compra desistisse, todo mundo disposto a sacar seis garoupas da carteira pela preciosidade.

O preço foi uma pechincha, se comparado aos R$ 2 mil que o Vinil Paraíba cobra em sua loja virtual no Mercado Livre pela tiragem original do disco. Aliás, no catálogo há outras preciosidades e a julgar pelos preços, Hugo Leão estaria milionário só com os discos que gravou, afinal lá também pode ser adquirido um LP da tiragem original do disco The Gentlemen (1972), clássico absoluto da discografia paraibana, por outros R$ 2.200.

Sentado na frente do PC também vejo outro tesouro paraibano, ainda mais raro e, consequentemente, mais caro: Transas do Futuro, compacto com quatro músicas lançado por Jarbas Mariz (há anos radicado em São Paulo) em 1977 e que se tornou um título venerado entre colecionadores e apreciadores da música underground brasileira. E por R$ 3.500, você pode contar para seus amigos que é um feliz proprietário de um raríssimo exemplar desse quilate.

Aliás, Jarbas Mariz é citado entre os agradecimentos do Paraibô, LP que reúne em sua execução, além de Hugo Leão, Zé Crisólogo, Enilton Araújo e Irapuã que, se não constam na ficha técnica, ao menos aparecem na foto da contracapa do disco, que tem oito faixas, todas assinadas por Pádua Carvalho, sendo duas em parceria com Zé Ramalho (‘Não me digam o que ser’ e ‘Meu sol’, ambas encerrando o lado A do vinil) e as demais, com Hugo.

Pádua Carvalho também responde pela direção de produção do disco, que foi gravado e mixado entre maio e julho de 1978 no estúdio Pro-Disco de quatro canais, em João Pessoa, tendo como técnico de gravação Enilton Araújo e o saudoso Golinha.

A capa é uma obra de arte, sem qualquer trocadilho a este respeito, afinal trata-se de uma criação do renomado artista Miguel dos Santos. Essa particularidade – de ter um renomado artista assinando uma capa de discos – me fez lembrar o CD de estreia de Seu Pereira e o Coletivo 401, cujo capa é assinada por Mike Deodato Jr., que por décadas projeto seu nome no mundo inteiro através dos super-herois da Marvel, e, mais ainda, o LP Jaguaribe Carne (também conhecido como Jaguaribe Carne Instrumental).

Disco de estreia do grupo homônimo formado pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró e lançado em 1994 (embora a Wikipedia e o Discogs informem, erroneamente, 1993), Jaguaribe Carne sequer consta no Mercado Livre, de tão raro que é – possui uma particularidade: cada exemplar tem uma capa exclusiva, assinada por um artista paraibano, de modo que cada um dos mil exemplares colocados à venda naquele ano é único e, por conseguinte, uma obra de arte.

Feitas à mão e assinadas por Chico Ferreira, Oriebir, Marcos Pinto, Dyógenes Chaves, Josildo Dias e tantos outros, o LP acaba tendo um valor duplo: pela arte visual, afinal cada capa é a obra em si, não é uma reprodução, e musical, já que o repertório de 11 faixas escritos, ora por Pedro, ora por Paulo, e em apenas duas faixas por ambos, a que abre (‘Fome? Que fome?’) e a que fecha (‘Entrevista’) o disco, constituem um marco na discografia paraibana.

Disco assim, não tem preço!

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 29 de junho de 2021.

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