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Feliz Natal (A guerra ainda não acabou)

por publicado: 22/12/2020 13h24 última modificação: 22/12/2020 13h51


Um exercício que faço todos os anos, na semana que antecede o Natal: uma conversa imaginária com John Lennon a partir da canção ‘Happy Xmas (War Is Over)’, como forma de refletir o ano que passou.

Mais uma vez, coloco a canção para tocar e começo a conversa imaginária...

– Então é Natal, e o que você fez? Outro ano se foi, e mais um está para começar...

– Tentei sobreviver, John, como muita gente neste planeta. Foi um ano difícil, provocado por uma pandemia, com efeitos devastadores na saúde e na economia. Uns contraíram covid e sobreviveram (alguns, com sequelas no pulmão, por exemplo); outros, não! Infelizmente. Milhares de famílias choram a morte de quase 1,7 milhão de entes queridos em todo o mundo no momento em que este jornal foi impresso. Muita gente perdeu casa, carro, negócios… outros procuraram se reinventar para ter o que comer no fim do mês. Tomara que o ano que está para começar seja muito melhor…

– Então este é o Natal… espero que você tenha se divertido, com os próximos e queridos, os velhos e os jovens.

– Não, não foi um ano “fun”. A pandemia criou o isolamento social. Não estive junto dos “velhos” tanto quanto queria, mas tive os bem jovens por perto. Ou seja, encontrei meu pai e minha mãe menos do que gostaria. Minhas irmãs, idem, e os amigos, nem se fala! E aprendemos a comemorar os aniversários pelo “Meet”. Mas sabe o que dói mais, John? A falta de um abraço, de um contato. E não abraço meus pais há quase um ano, desde janeiro, quando foi o meu aniversário. Depois que o coronavírus se instalou, passamos a usar máscaras e nos foi recomendado que ficássemos em casa, cada um na sua. E isso mexeu muito com todos nós. O apoio ficou com o núcleo familiar mais próximo. Lílian, a fortaleza que eu escolhi como esposa há 13 anos, e nossos pequenos Gael e Jude. Na medida do possível, eles foram o “fun” do ano.

– Um ótimo Natal e um feliz ano novo. Vamos torcer para que seja um ano melhor, sem qualquer tipo de medo.

– É, vamos… torcer que a vacina chegue logo e comece a imunizar a população deste país continental. Tenho fé na vacina, e em dias melhores. Não me iludo que 2021 seja um ano fácil, mas ao menos tivemos todo 2020 para aprender a lidar com o coronavírus.

– E então é Natal, para os fracos e para os fortes, para os ricos e para os pobres… 

– Sim, o Natal é para todos e todas, assim como o tempo passa igual para todo o mundo. Mas como em todos os natais passados, a celebração dos ricos é diferente dos pobres e embora nesta época do ano a gente tente doar um pouco de esperança para quem não tem, 2020 está tendo um número maior de gente para receber e menor para dar, infelizmente.

– E então bom Natal, para negros e brancos, amarelos e vermelhos… vamos parar todas as brigas.

– Ah, sim, vamos parar todas as brigas… (breve pausa). Sabe, John, eu realmente pensava que o coronavírus pudesse unir mais a nossa nação, que se mostrou uma nação bastante dividida ao eleger Bolsonaro em 2018. Em 2020, o presidente mostrou que é um desastre, baseando a sua administração em crenças pessoais e encontrando, por isso, uma forte resistência da maioria, inclusive do próprio eleitorado. As pesquisas mostram que a popularidade dele cresceu um pouco, é verdade, mas é uma das mais baixas da história e a esmagadora maioria desaprova seu (des)governo. E a desunião ainda impera, atrapalhando que a gente vença essa guerra contra o coronavírus. Então, que em 2021, a gente entenda que o importante é saber que a união nos faz fortes, e que o racismo, a homofobia e a intolerância, que andaram sacudindo a jaula que os mantém presos com mais força do que deveriam, voltem a ficar quietinhos em nome do respeito e da irmandade.

– Então este é o Natal… e o que todos nós fizemos? Outro ano se vai e um novo está para começar…

– É isso… que a gente reflita bastante sobre este ano difícil que está indo embora. Vamos ver os erros, acertos, pesar na balança para construirmos um 2021 melhor, mais humano, tolerante e inteligente, por favor. Vamos entender que o distanciamento social, o uso da máscara e do álcool em gel é tão importante nesta virada de ano, quanto no início da pandemia. E vamos cuidar uns dos outros, “dos próximos e dos queridos, dos mais velhos e dos mais novos”, como você mesmo escreveu. E um feliz Natal para você, John, onde quer que você esteja, e para todos e todas com quem pude compartilhar a conversa deste ano, do ano da pandemia. E que em 2021, eu possa lhe dar as boas novas: a guerra acabou!

*coluna publicada originalmente na edição impressa de 22 de dezembro de 2020.

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