A partir desta quinta-feira (11), o mundo estará vidrado na Copa do Mundo de 2026. Sobretudo o Brasil, que tentará, mais uma vez, conquistar o hexa e costurar mais uma estrela no uniforme da Seleção. Eu, como o bom torcedor que não sou, estarei no banco de reservas da torcida. Afinal, tenho uma reputação a zelar: não gosto de futebol. Não tenho time, portanto, não acompanho nem vejo jogos. Não acho que isso seja uma virtude, nem tão pouco um demérito, mas, enfim, não gosto. Ponto!
Portanto, não sei diferenciar um Rivellino de um Tostão (Pelé, claro, eu sei; todo mundo sabe), mas, ao apertar o play do controle remoto da TV para ver Brasil 70: A Saga do Tri, um dos muitos títulos sobre futebol que inundaram o catálogo da Netflix às vésperas da Copa, só parei quando acabou! E, como um não torcedor, posso assegurar: foi um dos melhores títulos que vi este ano.
Digo isso sobre a minissérie de cinco episódios produzida pela O2 Filmes como espectador de cinema, não de futebol, que, como disse, não o sou. Se há carrinhos por trás por parte do enredo, não sou capaz de avaliar. Mas a trama, que é mais sobre o Brasil de 1970 do que sobre futebol, ah, isso é um espetáculo.
Realizada no México antes de eu nascer, a Copa de 1970 aconteceu quando o Brasil vivia tempos de ditadura. Mais do que isso: eram os anos de chumbo, com o país regido pelo famigerado AI-5 e pela nefasta presidência de Médici. Esse cenário é praticamente um personagem que entra em campo junto com a seleção de craques que venceu a Copa do Mundo daquele ano, conquistando o tão falado “Tri” e trazendo a cobiçada Taça Jules Rimet para casa.
Está lá, em Brasil 70, o jornalista João Saldanha, técnico da Seleção por um breve e crucial momento — era ele quem estava no comando quando o time se classificou para o Mundial — e comentarista esportivo com tiradas espetaculares durante os jogos daquela Copa, sempre espinafrando seu sucessor, Mário Jorge Lobo Zagallo. Comunista e sem papas na língua, Saldanha é vivido com dedicado talento por Rodrigo Santoro e é uma peça-chave da trama.
Bruno Mazzeo foi escalado para dar voz e rosto a Zagallo e o faz driblando algumas limitações, porém balançando a rede por diversas vezes. O estreante Lucas Agrícola é Pelé e, embora a fisionomia seja idêntica à do Rei do Futebol, faltam ao ator os maneirismos da fala do jogador, entende? De qualquer forma, a O2 conseguiu escalar um time que joga bem tanto na atuação quanto no campo, arrancando imagens impressionantes na reconstituição das partidas daquela Copa.
Um making of disponível na própria Netflix mostra que o elenco se submeteu, por dois meses, a ensaios e treinamentos intensivos para as cenas de jogo: Gui Ferraz (Jairzinho), Ravel Andrade (Tostão), Hugo Haddad (Félix), Daniel Blanco (Rivellino), FillipeSoutto (Gérson) etc. A regra era clara: além de atuar bem, era preciso bater um bolão.
Por não se tratar de um documentário, mas de uma ficção que toma por base, como o subtítulo diz, a saga para conquistar o “Tri”, tudo ali está a serviço de um enredo que vai além do gramado. Músicas, closes e enquadramentos tornam as cenas de futebol mais intensas e dramáticas, assim como as relações humanas movem a trama. Ouso dizer que, em termos de ação, Brasil 70 está para o futebol assim como F1: O Filme (aquele com Brad Pitt) está para os campeonatos de Fórmula 1.
Há diversos núcleos que sustentam os arcos dramáticos: o pai de Pelé e um trauma (real) envolvendo a infância do jogador; a filha do goleiro Félix; a esposa de João Saldanha, Vera, dando mais voz ao contexto da ditadura; o próprio arco de Saldanha como comentarista ao lado de Eusébio Teixeira (Marcelo Adnet); e, claro, a pressão e as inseguranças dos jogadores. Para construir as tensões e deixar o espectador roendo as unhas, muitos diálogos e situações foram criados, mas o Pelé inseguro e cheio de dúvidas, como raramente o público viu, é 100% verdade, afirmam os especialistas.
Dizem que a superstição de Zagallo estaria um tanto exagerada. De qualquer forma, ela serve para dar à minissérie um ar sobrenatural no episódio que trata da disputa entre Brasil e Uruguai, assombrada pelo fantasma do “Maracanaço”, como ficou conhecida a final da Copa de 1950, quando a Seleção Canarinho perdeu o torneio para o La Celeste — e dentro de casa!
Tecnicamente, a minissérie é um show de bola. Em vez de reutilizar as cenas reais do campeonato, Paulo e Pedro Morelli, pai e filho, diretores-gerais do projeto, optaram por recriar apenas partes dos jogos e do ponto de vista dos jogadores. Gruas, câmera na mão e até um carrinho circulando entre os atores/jogadores criaram uma perspectiva imersiva para quem assiste Brasil 70.
Com competência técnica, ótimos desempenhos, trama cativante e, claro, muita bola rolando, Brasil 70: A Saga do Tri é puro futebol-arte para torcedores e não torcedores.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 09 de junho de 2026.