Poucas vezes saí do cinema com a sensação legítima de ter acabado de ver uma obra-prima. No geral, filmes costumam ter um tempo de maturação para serem avaliados, tanto para o bem quanto para o mal, mas o efeito de Hamnet – A Vida Antes de Hamlet, em mim, foi imediato: ao subirem os créditos, não consegui me mexer da cadeira. Demorei até o fim para ter forças para me levantar e ir embora.
Primeiro, pelo choque que o filme causa. Em linhas gerais, Hamnet narra a história de uma família em construção: a mulher, Agnes (Jessie Buckley), conhece um homem, Will (Paul Mescal) — mais tarde, é revelado que ele é ninguém menos que William Shakespeare, famoso dramaturgo inglês, mas isso está na sinopse do filme — e, à la Romeu e Julieta, o casal enfrenta suas famílias para ficar junto. Desse amor nascem três filhos: a mais velha é Susanna (Bodhi Rae Breathnach). Depois, vêm os gêmeos Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (o ótimo Jacobi Jude).
No terceiro ato da história, acompanhamos o nascimento conturbado desses gêmeos e, no arco seguinte, a morte de um deles, Hamnet, no início da puberdade. Mas, assim como soberbamente o enredo nos ensina que a morte não é o fim, o filme não acaba por aí. Vem o ato final em que, para expurgar a morte do filho, Will (ou William Shakespeare) encena Hamlet, peça que se tornaria uma das mais famosas do autor.
Porém, é pelo ponto de vista da mulher que a trama se desenrola. Ao fim da projeção, se você prestar bem atenção, verá que o filme é sobre a transformação de Agnes, primeiro em esposa, depois em mãe e, principalmente, na mãe que perde o filho. É a jornada de uma mulher bastante terrena, que sofre uma dor lancinante e, com a ajuda da peça apresentada pelo marido, percebe que a vida é mais do que se vê: é a fé, a crença, a transcendência por meio de um estado de graça.
Outra característica bastante cinematográfica dessa jornada vem do que eu chamo de “escola visual de Hitchcock”, exemplarmente empregada no “curso” Um Corpo Que Cai: o uso semiótico da cor (no figurino) como forma de narrar uma história paralela não verbalizada, ensinamento que Coppola aplicou em O Poderoso Chefão e Del Toro em A Forma da Água.
Em Hamnet, a diretora Chloé Zhao aplica essa ideia com maestria: no começo do filme, Agnes usa um vermelho de cor bastante viva. Quando o filho adoece e morre, suas vestes são marrons, ou seja, um vermelho sem vida. Ao final, o vermelho retorna ao figurino da protagonista, mas sem a vivacidade das primeiras cenas. O recado é claro: ali está uma mulher que nunca mais será a mesma.
Jessie Buckley, que faz Agnes, é conhecida por filmes como Doolittle (com Robert Downey Jr.) e pela aclamada série Chernobyl (onde contracena com Emily Watson, também presente em Hamnet, no qual faz a sogra de Agnes). Sua interpretação é segura, magistral. Somente pelo olhar, ela consegue transmitir a intensidade da dor que só as mulheres conhecem.
Pelo papel, Buckley recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, prêmio que disputa com Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria), Kate Hudson (Song Sung Blue – Um Sonho a Dois), Renate Reinsve (Valor Sentimental) e Emma Stone (Bugonia). Nesse quadro, a atriz irlandesa de 36 anos tem grandes chances de levar a cobiçada estatueta dourada.
A narrativa é intensa, forte, por vezes doída, sempre canalizada pela interpretação segura de Jessie Buckley e pela câmera sensível e “absolute cinema” de Chloé Zhao, novamente indicada ao Oscar (em 2021, ela venceu Melhor Direção por Nomadland, que também levou Melhor Filme e Melhor Atriz, esta para Frances McDormand). Meu amigo Tiago Germano, jornalista, escritor e colunista aqui de A União, resumiu bem a carga emocional do filme após assisti-lo na semana passada: “A tortura mais linda a que me submeti”.
Indicado a um total de oito prêmios Oscar — além dos citados, o filme está no páreo por Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado (o filme é baseado no livro Hamnet, de Maggie O’Farrell, disponível no Brasil), Direção de Arte, Figurino, Trilha Sonora Original e Escalação de Elenco (onde compete com O Agente Secreto) —, Hamnet – A Vida Antes de Hamlet é um filme que se sustentará por um bom tempo, provando que, sim, no século 21 e na era do streaming, ainda é possível fazer cinema, e com arte.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de fevereiro de 2026.