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Heróis nacionais (e já não era sem tempo)

publicado: 20/01/2026 08h53, última modificação: 20/01/2026 08h53
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Wagner Moura, com seu Globo de Ouro de melhor ator/drama | Foto: Divulgação/Dick Clark Prod.

por André Cananéa*

Algo que tem chamado muito a minha atenção nas entrevistas recentes de Wagner Moura é a forma como ele define o impacto de O Agente Secreto (e também Ainda Estou Aqui) no Brasil no Brasil dos últimos dois anos. Segundo o ator, essas obras têm transformado os artistas em verdadeiros heróis brasileiros. Essa expressão é muito bonita e precisa, afinal o premiado ator baiano fala de uma maneira coletiva, que envolve não só ele, mas todo o elenco (que conta com oito atores e atrizes paraibanos), e dá à categoria o protagonismo que lhe é legítimo, como parte de um ofício que faz pensar e refletir sobre histórias sombrias que não podem, nem devem, se repetir jamais.

Se você pensar no artista durante a ditadura — falo de um Caetano Veloso, um Chico Buarque, ou até mesmo do nosso Geraldo Vandré, por exemplo —, os militares viam a categoria como uma “ameaça” ao país. A arte, em qualquer lugar do mundo, é inquieta e provocativa. Não se cala, nem mesmo amordaçada. Governos de direita não gostam da ação libertária da cultura. Vimos isso recentemente no Brasil, durante a gestão Bolsonaro, e assistimos a fenômeno semelhante hoje, no governo Trump, marcado por censura, perseguições e até pela proibição de livros.

É, portanto, um objetivo muito claro dos governos de direita — e, sobretudo, dos governos ditatoriais — apagar, perseguir, achincalhar e diminuir, quando não calar, o artista. E quando o povo brasileiro ovaciona, torce e celebra as muitas vitórias do cinema nacional, que tem conquistado um prestígio inédito no exterior, isso mostra o quanto o brasileiro amadureceu — quero crer nisso —, o quanto ele resiste às ideias fascistas que quase tomaram conta do país por meios ilegítimos, mais uma vez, no começo desta década de 2020.

Refletindo agora, penso no quanto o cinema brasileiro foi defenestrado ao longo dos anos. É um assombro pensar que o país produz cinema desde os anos 1920 (tendo como um de seus pioneiros o paraibano Walfredo Leal) e que, em 1931, o longa-metragemLimite já despontava como obra fundamental, mas que o Ministério da Cultura, por exemplo, só foi criado em 1985, durante a redemocratização do país, e a Agência Nacional do Cinema (Ancine), apenas em 2001. A Cinemateca Brasileira, por sua vez, só ganhou forma em 1956.

Temos um cinema brasileiro de muito orgulho. Os filmes de Kleber Mendonça Filho e de Walter Salles são frutos da herança de Glauber Rocha (Terra em Transe), Nelson Pereira dos Santos (Memórias do Cárcere), Eduardo Coutinho (Cabra Marcado para Morrer), Leon Hirszman (Eles Não Usam Black-Tie), Cacá Diegues (Ganga Zumba, Xica da Silva), Hector Babenco (Pixote: A Lei do Mais Fraco) e Fernando Meirelles (Cidade de Deus), entre tantos outros que sempre tiveram muito a dizer do ponto de vista social e político através de suas obras.

Mas, embora sejam pilares do nosso audiovisual, as minhas memórias de cinema são de uma produção pueril enquanto eu crescia nos anos 1980, com muitos filmes de Os Trapalhões, certos dramas ingênuos (para não ofender o regime)comédias incipientes. Quem conversa com os mais velhos pode ouvir deles que cinema brasileiro “era só pornochanchada”. Nos anos da ditadura e do carimbo implacável do censor, imperavam esses filmes apelativos, com muita nudez e sexo — embora houvesse um certo engajamento velado nessas produções, como revela o ótimo documentário Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, de 2017 —, afinal, para a direita, cinema é circo, não educação e reflexão.

Integro uma geração que além dessa produção nacional consumiu muito cinema enlatado americano. Vejo que as novas gerações apreciam muito mais o cinema brasileiro, que ganhou um fôlego extraordinário nos últimos 20 anos, sendo consumido em larga escala nos cinemas — O Agente Secreto já é um blockbuster, como destacou Kleber Mendonça — e também nas plataformas de streaming, onde produções independentes podem ser vistas, inclusive, de graça.

O cinema brasileiro do século 21 é diferente do cinema do século 20. Hoje, inclusive, já nem é mais cinemas, apenas: é audiovisual. Os meios ficaram mais acessíveis e os formatos, mais plurais. O mundo é globalizado e as novas gerações são bem menos ingênuas. E, enquanto houver liberdade de expressão e de ideias, como em uma democracia saudável, haverá menos artistas ostentação da Revista Caras e mais heróis.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de janeiro de 2026.