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Hora de acordar

por publicado: 12/01/2021 15h08 última modificação: 05/02/2021 10h48

O ano mal começou, e dois artistas paraibanos já ganharam os holofotes nacionais na semana passada, por razões que eu diria, até, diametralmente opostas, ambas através das redes sociais, com grande repercussão entre fãs e críticos. Enquanto Elba Ramalho causava indignação ao associar a pandemia de coronavírus a uma irreal e fantasiosa perseguição de comunistas a cristãos (tempos depois, a cantora voltou às redes sociais para dizer que fora mal interpretada), Chico César ganhava milhares de curtidas com uma resposta brilhante a um fã que “... carinhosamente te pediria para evitar as de cunho político ideológico”, acrescentando que “Tu és muito maior que eles todos. Tu não deves nada a eles (...) Não as coloque no fogo por nenhum deles”.

“Por favor, todas as minhas canções são de cunho político -ideológico!!”, foi a resposta imediata do cantor e compositor de Catolé do Rocha, que seguiu, com um texto brilhante: “Não me peça um absurdo desse, não me peça para silenciar, não me peça para morrer calado. Não é por ‘eles’. É por mim, meu espírito pede isso. E está no comando. Respeite, ou saia. Não veja, não escute. Não tente controlar o vento. Não pense que a fúria da luta contra as opressões pode ser controlada. Eu sou parte dessa fúria”.

O arremate dessa resposta, escrita no último dia 3 na conta do artista, no Instagram, a partir de uma postagem em que ele mostrava, em vídeo, uma de suas novas composições, ‘Pisadinha’, rendeu uma série de “slogans” que os fãs não cansam de postar na Internet: “Não sou seu entretenimento, sou o fio da espada da história feito música no pescoço dos fascistas. E dos neutros. Não conte comigo para niná-lo. Não vim botar você para dormir. Aqui estou para acordar os dormentes”.

Achei a defesa de Chico César – que em 2019 chegou a conclamar “fogo nos facistas”, a partir da letra de ‘Pedrada’, lançada naquele ano, e em 2020, durante a pandemia, provocou polêmica entre os apoiadores de Bolsonaro com a canção ‘Bolsominions’ – pertinente. Vivemos tempos sombrios, de obscurantismos e repressão, e a arte não pode, nem deve, cochilar nessas horas.

Aliás, até sinto falta de um cancioneiro mais engajado, como a MPB produziu em resposta à Ditadura que assolou o país a partir dos anos 1960. ‘É proibido proibir’, ‘Cálice’, ‘Apesar de você’, ‘Alegria, alegria’ e, claro, ‘Pra não dizer que não falei das flores’ foram, brilhantemente, canções que expressaram o inconformismo com a política do país em outros tempos.

Vi chegar, com furor, a revolta da Legião Urbana ao vociferar ‘Que país é esse?’ nos anos 1980, canção que permaneceu ecoando até um dia desses, em repertório de outras bandas, quando ainda havia shows na era pré-pandemia, e ‘Tô feliz (Matei o presidente)’, que projetou Gabriel, o Pensador a reboque do governo Collor. Até os Paralamas chegaram a gravar ‘Luís Inácio (300 Picaretas)’, em resposta aos “anões do orçamento”, escândalo que sacudiu a política brasileira no início dos anos 1990.

Mas no mundo disperso do streaming, em que o rebolado de Anitta é o que parece importar, e que a música que o público quer ouvir é mesmo a tal do ‘Litrão’, alavancada por vídeos em alta rotação no TikTok, entre as canções de fim de relacionamento do sertanejo (tema das oito músicas mais ouvidas no Brasil em 2020, segundo levantamento divulgado pelo Spotify), sou obrigado a louvar a iniciativa de Chico César de acordar o ouvinte brasileiro, entorpecido por canções de gosto pra lá de duvidoso (“Você decide, a minha boca ou a do litrão / ‘Cê quer dançar comigo ou descer até o chão, sozinha?”, diz um trecho do tal ‘Litrão’) que tem como propósito tirar o foco de problemas sérios e reais.

Que geração é essa que estamos criando? Poucos leem e, menos ainda, desenvolvem o senso crítico. A compreensão de um texto – e, por conseguinte, da vida que nos cerca – se tornou uma matéria em extinção. Tenho visto isso com meus próprios olhos, algo que me chocou a ponto de ter abandonado, quase que por completo, o Facebook, por exemplo.

Quando disse, no começo do texto, que as recentes notícias envolvendo Elba e Chico são diametralmente opostas, é porque elas, de fato, são. Ao postar “Nós somos o incômodo, o calo dos comunistas” em meio a um texto controverso que coloca “cristãos” e “comunistas” em pé de guerra, a cantora paraibana compactua com o perigoso discurso fantasioso do presidente e seus apoiadores, cujo objetivo é diminuir as instituições democráticas em prol de um projeto de poder que, estamos vendo, não funciona para o Brasil, mas para um grupo muito pequeno que orbita em torno do clã Bolsonaro.

E, nesse cenário, a fúria de Chico César contra as opressões é muito mais necessária que as teorias fantasiosas que envolvem comunistas, gente virando jacaré e terraplanismo.

 

*coluna publicada originalmente na edição impressa de 12 de janeiro de 2021.

 

 

 

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