Há muitas pérolas do cinema que eu ainda não vi, mas, paulatinamente, tento preencher lacunas importantes. Recentemente, vi em DVD uma dessas joias que faltavam na minha biblioteca do conhecimento cinematográfico: Jogo Mortal (1972), ou Trama Diabólica, como ficou conhecido quando lançado em VHS no Brasil – detalhe: o filme não está disponível no streaming, ao menos por aqui.
Na história, um renomado autor de romances policiais (Andrew Wyke, vivido por Laurence Olivier) convida até sua aristocrática mansão um imigrante italiano que ganha a vida gerenciando um salão de beleza (Milo Tindle, papel de Michael Caine), e não tarda para descobrirmos o motivo: o cabeleireiro está tendo um caso com a esposa do escritor, e este quis tirar essa história a limpo. A partir daí, desenrola-se um jogo fatal de manipulação entre os dois, trama diabólica dividida em três atos distintos, sendo o segundo um espelho do primeiro, repleto de reviravoltas.
O filme inteiro se passa na mansão de Wyke e tem apenas os dois atores ao longo de todo o filme. É uma peça de teatro transportada para o audiovisual, espetáculo de 1970 de autoria de Anthony Shaffer, que liberou os direitos para o cinema mediante uma condição: que ele próprio escrevesse o roteiro (são dele, também, os roteiros de filmes como Frenesi e O Homem de Palha). É um filme baseado em uma peça, que, por sua vez, é sobre o romance policial. Portanto, é pura metalinguagem.
As notas de curiosidade que cercam o filme dão conta de que Shaffer se inspirou no célebre autor de romances policiais John Dickson Carr (autor de Não Despertem os Mortos, um dos poucos livros dele lançados no Brasil, assim mesmo há muitos anos) para compor o personagem de Laurence Olivier, tanto quanto no famoso dramaturgo dos musicais Stephen Sondheim, que adorava jogos de manipulação. E não para por aí: Andrew Wyke cita com orgulho sua melhor criação literária, o detetive John LordMerridew, equivalente a uma criação de Carr, o detetive amador Sir Henry Merrivale, presente em vários romances do autor norte-americano, falecido em 1977, aos 70 anos de idade.
Jogo Mortal foi o derradeiro filme do diretor Joseph L. Mankiewicz, cuja filmografia ostenta obras do quilate de A Malvada (1950) e Cleópatra (1963), e se destaca pelo jogo de cena ágil, roteiro empolgante e, sobretudo, pelo desempenho dos atores, que rendeu a ambos a indicação a Melhor Ator no Oscar 1973 (por azar, competiram com Marlon Brando, que levou a estatueta por O Poderoso Chefão).
Teve uma refilmagem pífia em 2007, com o título Um Jogo de Vida ou Morte (também com Michael Caine no elenco, só que agora no papel que foi de Laurence Olivier), mas também é uma inspiração para os filmes modernos de detetive, como a trilogia Knives Out, cujo terceiro filme, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, chegou no finalzinho de 2025 à Netflix e faz menções diretas ao citado Dickson Carr, bem como ao seu famoso livro The Hollow Man, um clássico do gênero.
Vivo ou Morto, entretanto, pertence ao chamado “crime de quarto fechado”, subgênero do romance policial detetivesco, um tipo rebuscado de quebra-cabeça dedutivo da literatura policial, como afirma Braulio Tavares na apresentação da antologia Crimes Impossíveis: Crimes de "Quarto Fechado" (Bandeirola, 2021), com textos de Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle (de Sherlock Holmes) e L. Frank Baum (O Mágico de Oz), entre outros.
Para o escritor paraibano, o crime de quarto fechado“é aquele caso em que o crime cometido não é apenas misterioso, mas tem aparência sobrenatural, como se as leis da física tivessem sido violentadas. Cabe ao detetive explicar a mecânica que possibilitou essa aparente violação das leis naturais”. Ou seja, tudo o que cerca o crime e a cena do crime tem que ter uma lógica física e uma explicação material, por mais improvável que aquilo pareça na vida real.
Tavares segue ensinando que, nesse subgênero do mistério policial, mais importante do que o whodunit(quem matou) ou o whydunit(por que matou) é o howdunit(como matou). “A revelação da identidade do criminoso é menos extraordinária do que a revelação do método utilizado para praticar o ‘crime que não poderia ser cometido’”, escreveu.
Agatha Christie, a grande dama do mistério, transitou do whodunit para os crimes de quarto fechado com maestria, vide um dos meus livros favoritos, Assassinato no Expresso do Oriente, de 1934, ou Convite para um Homicídio, de 1950. E que mais desses livros e filmes sigam desafiando nossa capacidade de raciocínio.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 02 de março de 2026.